Questão 99 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

 A literatura de cordel é ainda considerada, por muitos, uma literatura menor. A alma do homem não é mensurável e — desde que o cordel possa exprimir a história, a ideologia e os sentimentos de qualquer homem — vai ser sempre o gênero literário preferido de quem procura apreender o espírito nordestino. Os costumes, a língua, os sonhos, os medos e as alegrias do povo estão no cordel. Na nossa época, apesar dos jornais e da TV — que poderiam ter feito diminuir o interesse neste tipo de literatura — e da falta de apoio econômico, o cordel continua vivo no interior e em cenáculos acadêmicos.

   A literatura de cordel, as xilogravuras e o repente não foram apenas um divertimento do povo. Cordéis e cantorias foram o professor que ensinava as primeiras letras e o médico que falava para inculcar comportamentos sanitários. O cordel e o repente fazem, muitas vezes, de um candidato o ganhador da banca de deputado. E assim, lendo e ouvindo, foi-se formando a memória coletiva desse povo alegre e trabalhador, que embora calmo, enfrenta o mar e o sertão com a mesma valentia.

BRICKMANN, L. B. E de repente foi o cordel. Disponível em: http://pt.scribd.com. Acesso em: 29 fev. 2012 (fragmento).

O gênero textual cordel, também conhecido como folheto, tem origem em relatos orais e constitui uma forma literária popular no Brasil. A leitura do texto sobre a literatura de cordel permite

A) descrever esse gênero textual exclusivamente como instrumento político.

B) valorizar o povo nordestino, que tem no cordel sua única forma de expressão.

C) ressaltar sua importância e preservar a memória cultural de nosso povo.

D) avaliar o baixo custo econômico dos folhetos expostos em barbantes.

E) informar aos leitores o baixo valor literário desse tipo de produção.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto Dissertativo-Argumentativo
  • Gêneros Textuais (Literatura de Cordel)
  • Patrimônio Cultural e Memória Social

Tema/Objetivo Geral: Identificar a tese central de um texto sobre a Literatura de Cordel, compreendendo sua função e valor para a cultura popular brasileira, especialmente a nordestina.

Nível da Questão:

  • Fácil. O texto é expositivo e muito claro em sua defesa do cordel. As alternativas incorretas são facilmente refutáveis com base em trechos diretos do texto, apresentando erros clássicos como reducionismo ou contradição, o que torna a identificação da alternativa correta um processo direto de eliminação e correspondência.

Gabarito: C) ressaltar sua importância e preservar a memória cultural de nosso povo.

  • Explicação Resumida: Esta alternativa sintetiza perfeitamente a tese do autor: o cordel transcende o entretenimento e atua como um pilar fundamental para a construção e preservação da identidade e da memória coletiva do povo.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A missão é ler o texto e responder: Qual é a principal mensagem do autor sobre o valor e a função da Literatura de Cordel?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na Literatura de Cordel como o DNA cultural de um povo. O texto a descreve não como um simples livro de histórias, mas como o código genético que carrega tudo: a história, a língua, os medos (as doenças), as alegrias (as festas), a sabedoria (a educação) e até a política. Nossa tarefa é decodificar esse DNA para entender sua função essencial.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Mapear as Pistas: Faremos uma varredura no texto para coletar todas as funções e papéis que o autor atribui ao cordel.
  • Construir o Dossiê: Organizaremos essas pistas em um “dossiê”, revelando as múltiplas faces do cordel.
  • Dedução Guiada: Seguiremos um fluxo de raciocínio para conectar todas essas funções a uma ideia central e unificadora.
  • Criar o Retrato Falado: Com base nessa ideia central, vamos prever como deve ser a alternativa correta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a profundidade do cordel segundo o autor, precisamos organizar suas múltiplas funções. Um Dossiê é a ferramenta perfeita para catalogar os vários “disfarces” ou papéis que o cordel assume.

Dossiê de Investigação: A Multifuncionalidade do Cordel

  • Função 1: O Guardião da Alma (Identidade)
    • Evidência Textual: “…vai ser sempre o gênero literário preferido de quem procura apreender o espírito nordestino. Os costumes, a língua, os sonhos, os medos e as alegrias do povo estão no cordel.”
    • Análise: O cordel é apresentado como um espelho da identidade coletiva, o lugar onde a cultura de um povo é registrada em sua totalidade.
  • Função 2: O Professor do Povo (Educação)
    • Evidência Textual: “Cordéis e cantorias foram o professor que ensinava as primeiras letras…”
    • Análise: Em um contexto de acesso limitado à educação formal, o cordel assume um papel pedagógico fundamental, alfabetizando e instruindo.
  • Função 3: O Agente de Saúde (Informação)
    • Evidência Textual: “…e o médico que falava para inculcar comportamentos sanitários.”
    • Análise: O cordel funciona como um veículo de informação de utilidade pública, promovendo a saúde e o bem-estar da comunidade.
  • Função 4: O Cronista Político (Cidadania)
    • Evidência Textual: “O cordel e o repente fazem, muitas vezes, de um candidato o ganhador da banca de deputado.”
    • Análise: Demonstra sua força como ferramenta de comunicação e persuasão política, moldando a opinião pública e participando da vida cívica.
  • Função 5: O Construtor da História (Memória)
    • Evidência Textual: “E assim, lendo e ouvindo, foi-se formando a memória coletiva desse povo alegre e trabalhador…”
    • Análise: Esta é a consequência final. Ao desempenhar todas as outras funções, o cordel se torna o principal arquiteto da memória cultural de uma comunidade.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos agora construir a dedução em um fluxo lógico, passo a passo, para revelar a tese central do autor de forma clara e didática.

  • 1. O Ponto de Partida: A Defesa de um Legado
    O autor inicia sua argumentação desafiando a noção de que o cordel é uma “literatura menor”. Todo o texto, portanto, é uma defesa construída para provar o exato oposto: o cordel tem um valor imenso. A primeira peça do nosso quebra-cabeça é entender que o objetivo do autor é ressaltar a importância do cordel.
  • 2. A Estratégia de Defesa: Apresentando as Provas
    Para provar essa importância, o autor não usa adjetivos vazios. Ele apresenta funções concretas, como vimos no Dossiê do Passo 2. Ele mostra que o cordel age como:
    • Um Professor, ensinando a ler.
    • Um Médico, ensinando sobre saúde.
    • Um Jornal, informando sobre política.
    • Um Espelho, refletindo a alma, os costumes e a língua do povo.
      Essa multifuncionalidade é a prova irrefutável de seu valor.
  • 3. O Veredito Final: A Pista de Ouro do Autor
    Depois de apresentar todas essas provas, o autor nos entrega sua conclusão, a síntese de todo o seu argumento, na última frase do parágrafo: “E assim, lendo e ouvindo, foi-se formando a memória coletiva desse povo…”. Essa é a chave. Todas aquelas funções (educar, informar, politizar, refletir) convergem para um único e grandioso resultado: construir e preservar a memória cultural da comunidade.
  • 4. A Conclusão da Nossa Investigação
    Juntando as peças:
    • O objetivo do autor é ressaltar a importância do cordel (Peça 1).
    • O resultado final de todas as suas funções é preservar a memória cultural do povo (Peça 3).
      A tese central do texto é, portanto, a união exata dessas duas ideias.
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O texto é uma defesa apaixonada do valor do cordel. Ele prova esse valor listando suas múltiplas funções (educacional, social, política, identitária) e conclui que o legado supremo de todas essas atividades é a construção e a salvaguarda da memória coletiva do povo.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, de forma clara e direta, unir esses dois pilares do argumento: a afirmação de sua importância e seu papel fundamental na preservação da memória cultural.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora verificar qual suspeito corresponde ao nosso “retrato falado”.

  • A) descrever esse gênero textual exclusivamente como instrumento político.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno foca apenas no trecho que menciona os deputados.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. A palavra “exclusivamente” invalida a alternativa. O texto mostra que a função política é apenas uma entre muitas outras.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) valorizar o povo nordestino, que tem no cordel sua única forma de expressão.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno percebe o foco no povo nordestino e generaliza.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva / Informação Incorreta. A palavra “única” é uma armadilha fatal. O texto o chama de “gênero literário preferido”, o que é muito diferente de ser o “único”.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) ressaltar sua importância e preservar a memória cultural de nosso povo.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. “Ressaltar sua importância” captura a intenção geral do texto (defender o cordel). “Preservar a memória cultural” corresponde diretamente à conclusão explícita do autor (“…formando a memória coletiva…”). É a síntese ideal da nossa investigação.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) avaliar o baixo custo econômico dos folhetos expostos em barbantes.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno lembra da imagem clássica do cordel pendurado em barbantes e foca no aspecto material.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto sequer menciona o custo econômico ou os barbantes. O foco do autor é no valor cultural e social, não no valor material ou na forma de exposição.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) informar aos leitores o baixo valor literário desse tipo de produção.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno lê a primeira frase (“é ainda considerada… uma literatura menor”) e não percebe que o autor passa o resto do texto refutando essa ideia.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto faz exatamente o oposto: ele argumenta veementemente contra a noção de que o cordel tem baixo valor.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Com todas as evidências analisadas, o caso está encerrado. A alternativa C é a correta, pois reconhece o cordel não como uma “literatura menor”, mas como o grande arquiteto e guardião da memória cultural de um povo.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Cordel: a alma de um povo impressa em barbante, servindo de livro, jornal, escola e remédio.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A função do cordel como construtor de “memória coletiva” para uma comunidade encontra um paralelo surpreendente no surgimento do Hip-Hop nos Estados Unidos nos anos 1970/80. Assim como o cordel para o povo do sertão, o rap se tornou a crônica da vida nas periferias urbanas. MCs assumiram o papel dos repentistas, narrando em rimas a realidade local, as injustiças sociais (a função política), as histórias do bairro (a memória coletiva) e educando os mais jovens sobre os “códigos da rua” (a função de professor). Ambos são gêneros nascidos da oralidade, que usam a palavra ritmada para dar voz a comunidades marginalizadas e construir sua própria história, à margem da cultura oficial.

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