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Questão 98 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

A perplexidade causada pela catástrofe da Primeira Guerra Mundial fez surgir um movimento de vanguarda denominado Dadaísmo, que rejeitava os valores tradicionais e rompia com a estética clássica. A imagem da obra O gigante acéfalo

A) explora elementos sensoriais para explicar a racionalidade do pós-guerra.

B) recria a realidade para combater os padrões estéticos da época.

C) organiza as formas geométricas para inovar as artes visuais.

D) representa as experiências individuais de exaltação.

E) utiliza a sensibilidade para retratar o drama humano.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História da Arte (Vanguardas Europeias)
  • Dadaísmo (conceitos e contexto)
  • Interpretação de Obra de Arte (Linguagem Não Verbal)

Tema/Objetivo Geral: Relacionar as características de uma obra de arte específica (O gigante acéfalo) com os princípios fundamentais do movimento de vanguarda ao qual pertence (Dadaísmo).

Nível da Questão:

  • Difícil. A questão exige um conhecimento prévio específico e não trivial sobre um movimento artístico de vanguarda, o Dadaísmo. Além disso, demanda a habilidade de aplicar esse conhecimento teórico abstrato na interpretação de uma imagem complexa, simbólica e deliberadamente antilógica, o que representa um duplo desafio.

Gabarito: B) recria a realidade para combater os padrões estéticos da época.

  • Explicação Resumida: A alternativa descreve com precisão a principal tática do Dadaísmo: pegar elementos do mundo real e reorganizá-los de forma ilógica e chocante, não para criar beleza, mas para atacar e destruir a própria noção de arte e os padrões estéticos tradicionais.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para olhar para esta imagem perturbadora e, sabendo que ela pertence ao movimento Dadaísta, identificar qual das alternativas melhor explica a intenção ou o método de trabalho do artista.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na arte clássica como uma receita de bolo: siga os passos (proporção, harmonia, beleza) e você terá um resultado previsível e agradável. O Dadaísmo, por outro lado, é o movimento que rasga o livro de receitas, joga os ingredientes no chão, pisa em cima e depois serve o resultado como um prato principal. A nossa missão é entender por que eles faziam essa bagunça. Qual era o objetivo de destruir a “receita” da arte?

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Construir o Dossiê do Culpado: Vamos primeiro montar um perfil completo do “Dadaísmo” em uma tabela, como solicitado.
  • Analisar a Cena do Crime: Vamos dissecar a imagem “O gigante acéfalo”, identificando suas anomalias.
  • Conectar o Criminoso à Cena: Iremos, ponto a ponto, conectar as características da imagem com o perfil do Dadaísmo.
  • Criar o Retrato Falado: Com base na nossa análise, vamos prever a descrição exata da alternativa correta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para decifrar este enigma, precisamos de um dossiê completo sobre o principal suspeito: o Dadaísmo.

Dossiê de Investigação: Movimento Dadaísta

Pilar Investigativo Dossiê do Dadaísmo
Conceito Central Um movimento de negação, uma “antiarte”. Não buscava criar um novo estilo, mas destruir todos os estilos. Seu lema era “a destruição também é criação”.
Contexto de Origem (O Motivo do Crime) Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O movimento nasceu do choque e da perplexidade com a carnificina da guerra. Para os dadaístas, a “lógica” e a “razão” da sociedade europeia levaram o mundo a uma catástrofe sem precedentes. Portanto, a única resposta lógica era ser ilógico.
Local e Data de Nascimento Cabaret Voltaire, em Zurique (Suíça), 1916. Artistas e intelectuais refugiados da guerra se reuniam lá.
Características / Modus Operandi • Irracionalidade e Nonsense: Celebração do absurdo, do ilógico, do sem sentido. • Ironia e Sátira: Ataque direto aos valores da burguesia, da arte e da cultura. • Rompimento Radical: Negação total da arte clássica, da beleza e da harmonia. • Uso do Acaso: Poemas feitos com palavras sorteadas de um chapéu, por exemplo.• Ready-mades e Colagem: Uso de objetos prontos (como o mictório de Duchamp) e fragmentos de imagens para criar novas composições chocantes.
Objetivo / Missão CHOCAR. Questionar radicalmente “o que é arte?”. Escandalizar o público e criticar ferozmente as instituições e a cultura que permitiram a guerra.
Exemplos de Obras e Artistas • Marcel Duchamp (FonteRoda de Bicicleta) • Tristan Tzara (poemas feitos ao acaso) • Max Ernst (O gigante acéfalo) • Hannah Höch (fotomontagens)

Com este dossiê, temos um perfil psicológico completo do movimento. Ele não quer agradar, quer destruir.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos agora conduzir a análise da cena do crime com a lupa da dedução, construindo o raciocínio que nos levará inevitavelmente à verdade.

Fluxograma de Dedução: Dissecando “O gigante acéfalo”

  • [ETAPA 1: O EXAME DA EVIDÊNCIA] – O que estamos vendo? 🔎
    • Observação Neutra: Vemos uma criatura massiva, com corpo que lembra um paquiderme, mas cuja cabeça foi substituída por uma estrutura cilíndrica, semelhante a uma caldeira ou capacete. A tromba parece um tubo industrial flexível. Ao seu lado, uma figura que parece feminina, mas sem cabeça, posa como uma estátua clássica. O ambiente é árido e indefinido. Primeira Constatação: A cena viola flagrantemente as leis da natureza e da lógica. É uma composição de elementos que não deveriam estar juntos.
  • [ETAPA 2: O CONFRONTO COM OS PADRÕES] – Isso se parece com “arte”? 🎨
    • Vamos comparar a imagem com os padrões estéticos da época (e da tradição clássica), que valorizavam a beleza, a harmonia, a proporção e a representação fiel da realidade. A obra de Max Ernst é bela? Não, é grotesca. É harmoniosa? Não, é perturbadora e desequilibrada. É uma representação fiel da realidade? Absolutamente não. Dedução Lógica 1: A obra não apenas ignora, mas parece atacar ativamente todos os valores da arte tradicional. Ela não é um acidente; é uma declaração de guerra contra a estética clássica.
  • [ETAPA 3: A IDENTIFICAÇÃO DO MODUS OPERANDI] – Como o artista fez isso? 🔧
    • Max Ernst não inventou um monstro do zero. Ele pegou peças reconhecíveis do mundo real (um corpo de animal, uma forma humana, tubos de metal) e as recombinou de uma forma nova e chocante. Ele não copiou a realidade, ele a desmontou e a montou de novo de um jeito “errado”. Dedução Lógica 2: O método do artista é a recriação da realidade. Ele não está negando o mundo, mas sim o torcendo e o subvertendo para criar um novo significado.
  • [ETAPA 4: A DESCOBERTA DO MOTIVO] – Por que fazer isso? 💥
    • Aqui, nosso Dossiê do Passo 2 é crucial. Qual o motivo do Dadaísmo? Protestar contra a “lógica” e a “razão” que levaram à insanidade da Primeira Guerra Mundial.
    • O “gigante acéfalo” (sem cérebro) é a metáfora perfeita para essa crítica: uma civilização tecnologicamente avançada (a máquina), com uma força brutal (o gigante), mas que age de forma cega, sem razão, de maneira destrutiva.
    • Dedução Lógica 3: A recriação da realidade (Dedução 2) não é um mero exercício estético. É uma arma usada para combater uma ideia. O alvo desse combate são os padrões (estéticos, lógicos, sociais) de um mundo que, para os dadaístas, havia falhado catastroficamente.
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: Nossa dedução passo a passo revelou que o artista pega elementos do mundo (a realidade), os desmonta e remonta de forma ilógica (recriação). O propósito dessa ação não é criar algo novo e belo, mas sim atacar e destruir as noções de beleza e ordem vigentes (combater os padrões estéticos).
    • Expectativa: A alternativa correta deve articular precisamente essa relação de causa e efeito: o ato de recriar a realidade como um método para o objetivo de combater os padrões da época.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa “Expectativa” com os suspeitos.

  • A) explora elementos sensoriais para explicar a racionalidade do pós-guerra.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno lê “pós-guerra” e acha que a alternativa está no caminho certo.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O Dadaísmo não quer explicar a racionalidade, ele quer atacar a racionalidade. O movimento é uma celebração da irracionalidade como resposta ao fracasso da razão.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) recria a realidade para combater os padrões estéticos da época.
    • Análise de Correspondência: Bingo. Corresponde perfeitamente à nossa Bússola. “Recria a realidade” (o método) “para combater os padrões estéticos” (o objetivo). Descreve o modus operandi dadaísta com perfeição.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • C) organiza as formas geométricas para inovar as artes visuais.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa em vanguarda e lembra de formas geométricas.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Erro Conceitual (Confundir Movimentos). A organização de formas geométricas é uma característica central do Cubismo (de Picasso e Braque), não do Dadaísmo.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) representa as experiências individuais de exaltação.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode confundir a liberdade de criação com um sentimento de alegria.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Sentido. A obra e o movimento nascem da perplexidade, do caos e do pessimismo, não da “exaltação” (que significa grande entusiasmo, alegria).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) utiliza a sensibilidade para retratar o drama humano.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno vê uma imagem forte e pensa em “drama humano”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. Embora a obra dialogue com o “drama humano” da guerra, essa descrição é vaga demais e poderia se aplicar a dezenas de outros movimentos (como o Expressionismo, por exemplo). Ela não captura a tática específica e a atitude de combate que definem o Dadaísmo, como faz a alternativa B.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Não há mais dúvidas no tribunal da arte: a resposta é B. O “gigante acéfalo” é a prova de que para o Dadaísmo, a melhor forma de criticar um mundo que perdeu a cabeça era criar uma arte que também tivesse perdido a sua.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Dadaísmo: se a razão levou o mundo à guerra, a arte deve abraçar a loucura para encontrar a verdade.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O espírito do Dadaísmo nunca morreu. Sua tática de chocar, de usar o absurdo e de questionar a autoridade ecoa diretamente no Movimento Punk dos anos 1970. A estética do “faça você mesmo” (DIY), as colagens nas capas dos discos, as letras niilistas e a atitude de confronto com o sistema são puro sangue dadaísta. Bandas como os Sex Pistols, ao declararem a “anarquia no Reino Unido”, estavam, tal como Tristan Tzara em 1916, usando a desordem e a negação como uma forma de protesto radical contra uma sociedade que consideravam hipócrita e decadente.
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