Questão 97 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

TEXTO II

Eu etiqueta

  Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

  Minha gravata e cinto e escova e pente,

  Meu copo, minha xícara,

  Minha toalha de banho e sabonete,

  Meu isso, meu aquilo.

  Desde a cabeça ao bico dos sapatos,

  São mensagens,

  Letras falantes,

  Gritos visuais,

  Ordens de uso, abuso, reincidências.

  Costume, hábito, permanência,

  Indispensabilidade,

  E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

  Escravo da matéria anunciada.

  Estou, estou na moda.

ANDRADE, C. D. Disponível em: http://pensador.uol.com.br. Acesso em: 10 nov. 2011 (fragmento)

O anúncio publicitário Garoto propaganda e o poema Eu etiqueta, embora pertençam a gêneros textuais diferentes, abordam a mesma temática, com vistas a

A) submeter à crítica do leitor a sujeição a que a sociedade é obrigada pelo mercado.

B) manifestar desagrado aos anúncios-itinerantes e às etiquetas impostas pelo mercado.

C) descrever minuciosamente o cotidiano do homem que anuncia desde seu nascimento.

D) caracterizar o mercado da moda como elemento de inserção do homem à sociedade.

E) comparar as diversidades de etiquetas e modas existentes na sociedade capitalista.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto (Verbal e Não Verbal)
  • Intertextualidade (Relação entre textos de diferentes gêneros)
  • Literatura e Crítica Social (Consumismo na Arte)

Tema/Objetivo Geral: Identificar a tese ou crítica central que conecta dois textos de gêneros distintos (uma imagem e um poema) que abordam o mesmo fenômeno social.

Nível da Questão:

  • Médio. Embora a temática seja de fácil identificação, a questão exige que o candidato sintetize a crítica central de duas linguagens muito diferentes – a visual, simbólica e imediata da imagem, e a verbal, subjetiva e metafórica do poema. A habilidade de abstrair a mensagem comum eleva o nível de simples interpretação para análise comparativa.

Gabarito: A) submeter à crítica do leitor a sujeição a que a sociedade é obrigada pelo mercado.

  • Explicação Resumida: Esta é a única alternativa que captura a essência de ambos os textos: eles não apenas mostram o consumo, mas expõem uma relação de dominação (“sujeição”) imposta pelo mercado, convidando o leitor a uma reflexão crítica sobre isso.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos entrega duas “cenas de crime” diferentes (uma foto e um poema) e nos pergunta: Qual é a crítica, o “crime”, que está sendo denunciado em AMBAS as cenas?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como uma investigação com duas testemunhas que não se conhecem. Uma fala através de uma fotografia (Texto I) e a outra através de um depoimento em versos (Texto II). Apesar de usarem linguagens diferentes, elas estão descrevendo o mesmo culpado e a mesma ação. Nossa missão é encontrar o ponto exato em que os depoimentos delas se cruzam.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Investigar a Prova #1: Faremos a “autópsia” da imagem (Texto I) para extrair sua mensagem central.
  • Analisar o Depoimento #2: Faremos a exegese do poema (Texto II), decodificando suas metáforas e sua confissão final.
  • Confrontar as Evidências: Colocaremos as conclusões lado a lado em uma tabela para encontrar a “impressão digital” do culpado, o tema comum.
  • Criar o Retrato Falado: Com base nessa intersecção, vamos prever como deve ser a alternativa correta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta perfeita para cruzar informações de duas fontes distintas é uma Tabela Comparativa. Ela nos ajudará a organizar as pistas e a visualizar a conexão de forma inequívoca.

Tabela de Análise Comparativa: O DNA da Crítica

Pista Analisada TEXTO I (Garoto Propaganda) TEXTO II (Eu Etiqueta)
Gênero / Linguagem Imagem (Linguagem não verbal, simbólica) Poema (Linguagem verbal, lírica)
Quem é a “Vítima”? Um bebê, símbolo do início da vida, da pureza, de uma “folha em branco”. Um eu-lírico adulto, que reflete sobre sua própria identidade construída.
Como o Consumo se Manifesta? Literalmente, como “etiquetas” de marcas coladas na pele, substituindo a identidade natural. Como uma lista de posses que definem o ser: “Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro…”.
Qual é a Relação com o Mercado? Passiva e Imposta. O bebê não escolheu as marcas. Elas foram colocadas sobre ele, mostrando que a inserção no consumo é involuntária, desde o nascimento. Ativa e Consciente (mas aprisionadora). O eu-lírico se apropria das marcas (“meu”), mas no fim se reconhece como um “escravo da matéria anunciada”.
A Confissão Final (Mensagem-Chave) A sociedade de consumo “batiza” o indivíduo com marcas antes mesmo que ele tenha consciência. A sujeição é o ponto de partida da vida. A identidade do indivíduo foi completamente substituída pelos produtos que ele consome, transformando-o em um “homem-anúncio itinerante”.

Conclusão da Tabela: Ambas as “testemunhas” apontam para o mesmo crime: a perda da identidade autêntica para uma identidade fabricada e imposta pelas “etiquetas” do mercado. A relação descrita não é de escolha livre, mas de dominação e escravidão.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Seguindo nosso plano, vamos agora aprofundar a análise de cada evidência para construir nosso caso.

  1. Análise da Prova #1 (A Imagem):
    • O que vemos? Um bebê sorrindo, coberto de logotipos de marcas famosas como se fossem tatuagens ou adesivos. Mãos de um adulto o seguram.
    • O que isso simboliza? O bebê representa o ser humano em seu estado mais puro e vulnerável. As marcas na pele simbolizam que, na nossa sociedade, a identidade de consumo é gravada em nós desde o berço. Não é uma escolha que fazemos; é uma condição que nos é imposta. As mãos do adulto podem ser as dos pais ou da própria sociedade, que “entrega” o indivíduo a esse sistema. A mensagem é poderosa: a sujeição ao mercado começa no nascimento.
  2. Análise da Prova #2 (O Poema):
    • Como começa? Com uma longa lista de objetos precedidos pela palavra “Meu”. Isso cria uma falsa sensação de posse e individualidade. “Eu sou o que eu tenho”.
    • Como a crítica se aprofunda? O poema chama esses objetos de “Letras falantes, / Gritos visuais”, mostrando que as marcas falam mais alto que o próprio indivíduo.
    • O Veredito Final: Os últimos versos são a confissão: “E fazem de mim homem-anúncio itinerante, / Escravo da matéria anunciada.” Aqui, o eu-lírico remove qualquer dúvida. Ele não é o mestre de seus objetos; ele é escravo deles. Sua humanidade foi reduzida a um outdoor ambulante.
  3. A Convergência das Pistas:
    • O bebê “etiquetado” é a versão inicial do “homem-anúncio itinerante”.
    • A passividade do bebê e a escravidão confessada pelo adulto apontam para a mesma ideia central: uma relação de submissão forçada, uma sujeição.
    • O agente causador dessa sujeição é o mesmo em ambos: o mercado, as marcas, as “etiquetas”.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é interpretar os textos como uma simples descrição ou até mesmo uma celebração da moda e do consumo. A alternativa (D), por exemplo, fala em “inserção do homem à sociedade”, o que dá um tom positivo. A chave para desarmar essa armadilha é perceber o tom crítico e as palavras-chave negativas em ambos os textos: o choque visual do bebê “carimbado” e a palavra explícita “escravo” no poema. A mensagem não é sobre pertencimento, é sobre aprisionamento.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: Ambos os textos, por meios diferentes, constroem uma crítica severa a um sistema (o mercado) que não oferece escolhas, mas impõe identidades. Eles denunciam um processo de desumanização onde o indivíduo se torna um mero suporte para marcas.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, conter a ideia de crítica a uma sujeição/dominação/imposição que é exercida pelo mercado sobre a sociedade/indivíduo.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Agora, vamos usar nossa “Expectativa” para julgar os suspeitos.

  • A) submeter à crítica do leitor a sujeição a que a sociedade é obrigada pelo mercado.
    • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. Temos “crítica”, temos “sujeição” (dominação, aprisionamento) e temos o culpado, “o mercado”. Descreve com precisão cirúrgica a conclusão da nossa investigação.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • B) manifestar desagrado aos anúncios-itinerantes e às etiquetas impostas pelo mercado.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno foca na consequência (“homem-anúncio”) e não na causa raiz do problema.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever a parte, não o todo). A alternativa é fraca. “Desagrado” é um termo muito brando para “escravidão”. A crítica é muito mais profunda do que um simples descontentamento.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) descrever minuciosamente o cotidiano do homem que anuncia desde seu nascimento.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno se prende à literalidade da lista no poema e da imagem do bebê.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não o Fim. A descrição (a lista de itens, as marcas no bebê) é apenas o meio usado para construir a crítica. O objetivo final não é descrever, mas sim criticar o que essa descrição representa.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) caracterizar o mercado da moda como elemento de inserção do homem à sociedade.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno interpreta a presença de marcas como algo positivo, como uma forma de pertencimento social.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Sentido / Contradição Direta. Os textos apresentam o mercado como um elemento de aprisionamento e despersonalização, o exato oposto de uma inserção saudável na sociedade.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) comparar as diversidades de etiquetas e modas existentes na sociedade capitalista.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno vê muitas marcas diferentes e acha que o tema é a variedade.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O foco dos textos não é a diversidade de marcas, mas sim o efeito unificador e opressor do sistema de marcas como um todo. Não importa se a etiqueta é X ou Y; o problema é a própria existência da etiqueta como definidora de identidade.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Com todas as provas na mesa, não há dúvidas: a resposta correta é a A. A investigação revelou que, seja na pele de um bebê ou na alma de um poeta, a crítica é a mesma: a sujeição silenciosa que o mercado impõe sobre nossa identidade.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Lembre-se disto: “Seja no berço ou no espelho, a mensagem é uma: a etiqueta que te veste é a mesma que te aprisiona.”
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Essa crítica, expressa em textos do século XX, é ainda mais radicalmente relevante hoje. Pense na Sociologia Digital e na Cultura dos Influenciadores. O “homem-anúncio itinerante” do poema hoje é uma profissão. As pessoas não são apenas “etiquetadas” pelo mercado, elas voluntariamente transformam suas vidas em uma plataforma de publicidade, construindo uma “marca pessoal”. A sujeição criticada por Andrade tornou-se um objetivo de vida para muitos na era das redes sociais, onde a identidade é curada, monetizada e vendida. A mesma análise crítica se aplica, mas o fenômeno se tornou muito mais complexo e internalizado.

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