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Questão 88, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

Concorrer e competir não são a mesma coisa. A concorrência pode até ser saudável sempre que a batalha entre agentes, para melhor empreender uma tarefa e obter melhores resultados finais, exige o respeito a certas regras de convivência preestabelecidas ou não. Já a competitividade se funda na invenção de novas armas de luta, num exercício em que a única regra é a conquista da melhor posição. A competitividade é uma espécie de guerra em que tudo vale e, desse modo, sua prática provoca um afrouxamento dos valores morais e um convite ao exercício da violência.

SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2006.

De acordo com a diferenciação feita pelo autor, que prática econômica é considerada moralmente condenável?

a) Adoção do dumping comercial.

b) Fusão da função administrativa.

c) Criação de holding empresarial.

d) Limitação do mercado monopolista.

e) Modernização da produção industrial.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

Interpretação de Texto
Sociologia (Globalização e Ética)
Geografia Crítica (Pensamento de Milton Santos)
Economia (Práticas de Mercado)

Tema/Objetivo Geral: Aplicar a distinção teórica entre concorrência e competitividade, feita pelo geógrafo Milton Santos, para classificar uma prática econômica específica como moralmente condenável.

Nível da Questão: Médio.

Justificativa: A questão é de nível médio porque não basta apenas interpretar o texto; é necessário possuir um conhecimento prévio, mesmo que básico, sobre os termos econômicos apresentados nas alternativas. O candidato precisa compreender o conceito de “dumping”, por exemplo, para conseguir conectá-lo à definição de “competitividade” fornecida pelo autor.

Gabarito: A) Adoção do dumping comercial.

Explicação Resumida: Esta prática se encaixa perfeitamente na descrição de “competitividade” do autor — uma “guerra em que tudo vale” —, pois consiste em uma tática predatória e desleal para eliminar adversários do mercado, configurando um “afrouxamento dos valores morais”.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o autor, Milton Santos, nos entrega a definição de dois conceitos: “concorrência”, que ele vê como um jogo com regras e potencialmente saudável, e “competitividade”, que ele descreve como uma guerra suja, sem regras e imoral. Nossa tarefa é ler a lista de “práticas econômicas” e identificar qual delas é um exemplo claro dessa “guerra suja”.

Simplificando, pense numa competição esportiva. A “concorrência” seria uma partida de futebol, onde os times jogam duro, mas seguem as regras para vencer. A “competitividade”, segundo o autor, seria um time que, em vez de jogar bola, entra em campo para deliberadamente quebrar a perna dos jogadores adversários e tirá-los do jogo para sempre. A questão quer saber qual alternativa se parece com essa segunda atitude.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Decifrar o Código do Autor: Vamos primeiro estabelecer uma distinção clara entre “concorrência” (o jogo limpo) e “competitividade” (a guerra suja), usando as próprias palavras do texto como nossa chave.
  • 2. Criar o Perfil do Criminoso: Com base na definição de “competitividade”, construiremos o “retrato falado” de uma prática econômica moralmente condenável.
  • 3. Confrontar os Suspeitos: Por fim, levaremos cada uma das cinco alternativas a uma sala de reconhecimento, comparando-as com o perfil que criamos para encontrar o culpado.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta mais crucial para este caso é a habilidade de criar perfis distintos com base nas pistas do texto. Vamos montar o dossiê de cada conceito para que não haja dúvidas.

Dossiê 1: Concorrência (O Jogo Limpo)
Segundo o autor, a concorrência é uma “batalha” que pode ser “saudável”. Sua característica principal é o “respeito a certas regras de convivência”. O objetivo é nobre: “empreender uma tarefa” e “obter melhores resultados finais”. Pense nela como uma corrida olímpica: todos dão o seu máximo dentro das raias, e o mais bem preparado vence. A rivalidade existe, mas dentro de um código de honra.

Dossiê 2: Competitividade (A Guerra Total)
Aqui o cenário muda completamente. A competitividade, na visão de Santos, “se funda na invenção de novas armas de luta”. A única regra é “a conquista da melhor posição”. Ele a define sem rodeios como “uma espécie de guerra em que tudo vale”. As consequências são graves: “afrouxamento dos valores morais” e “convite ao exercício da violência”. Não se trata mais de correr mais rápido, mas de colocar obstáculos na pista do adversário ou até mesmo tirá-lo da corrida à força.

Com estes dois perfis, nossa investigação ganha um foco absoluto. Estamos procurando por uma prática que se encaixe no Dossiê 2.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano começa por focar no perfil do criminoso. O texto nos dá o retrato falado de uma prática moralmente condenável: ela não segue regras, usa “armas” desleais, busca a vitória a qualquer custo e ignora a ética. O objetivo não é apenas vencer, mas aniquilar o oponente.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é pensar que qualquer estratégia empresarial agressiva ou de grande escala é, por si só, imoral. Um aluno pode ler sobre “fusão” ou “criação de holding” e associar essas práticas de concentração de poder à “guerra” descrita por Santos. No entanto, essas são estratégias estruturais, que podem ser legais e éticas. A chave da definição do autor não é o tamanho ou a força, mas a quebra das regras de convivência e o abandono da moralidade.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação nos direciona a procurar não apenas uma prática competitiva, mas uma que seja inerentemente desleal e predatória. Ela deve ser uma ação que subverte as regras do jogo justo em vez de simplesmente jogar bem.
    • Expectativa: A alternativa correta deve descrever uma tática econômica reconhecida por sua natureza anticompetitiva e eticamente questionável, cujo objetivo principal é a eliminação da concorrência, e não a superação dela por mérito.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com o perfil do nosso culpado em mente, vamos analisar cada suspeito na sala de interrogatório.

a) Adoção do dumping comercial.
Análise de Correspondência: Esta prática consiste em vender um produto por um preço artificialmente baixo (muitas vezes abaixo do custo de produção) para quebrar os concorrentes locais e, depois, dominar o mercado, podendo então impor preços altos. É a definição perfeita de “guerra em que tudo vale” e “invenção de novas armas de luta”. É uma tática predatória que ignora a ética e a convivência saudável. O encaixe com o perfil é inegável.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

b) Fusão da função administrativa.
O erro aqui é Neutralidade da Prática. Uma fusão administrativa é uma reorganização interna de uma empresa para aumentar a eficiência. É uma estratégia de gestão, não uma tática de guerra contra concorrentes. Não é, em si, moralmente condenável.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) Criação de holding empresarial.
Similar à anterior, o erro é a Neutralidade da Prática. Uma holding é uma estrutura societária para controlar outras empresas. Embora possa levar à concentração de mercado, a sua criação não é uma prática desleal de combate. É uma forma de organização, não uma “arma de luta” no sentido descrito por Santos.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) Limitação do mercado monopolista.
Esta alternativa é o oposto do que procuramos. O erro é uma Contradição Direta. Limitar um monopólio é uma ação regulatória que visa restaurar as regras e a “concorrência saudável”, impedindo que uma única empresa abuse de seu poder. É uma medida para combater a “guerra suja”, não para praticá-la.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) Modernização da produção industrial.
O erro aqui é Fuga ao Tema. Modernizar a produção é uma tática clássica da “concorrência saudável”. Trata-se de melhorar a si mesmo — ser mais eficiente, produzir com mais qualidade, etc. — para vencer. É jogar melhor, e não quebrar as regras do jogo.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Após uma investigação minuciosa, concluímos que a alternativa A é a culpada. A prática do dumping comercial é a materialização perfeita da “competitividade” predatória e imoral descrita por Milton Santos, uma verdadeira tática de guerra econômica.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Concorrência é tentar correr mais rápido que seu rival; competitividade, no sentido de dumping, é colocar uma rasteira nele para que ele nunca mais corra.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A distinção de Milton Santos ecoa fortemente na Teoria dos Jogos, um campo da matemática e da economia. A “concorrência saudável” pode ser vista como um jogo de soma não-zero (ou positiva), onde a inovação e a eficiência podem, no fim, beneficiar todos os jogadores e os consumidores. Já a “competitividade” predatória, como o dumping, é um clássico jogo de soma zero, onde para que um ganhe, o outro precisa ser totalmente eliminado. O objetivo não é aumentar o “bolo” para todos, mas garantir a maior fatia possível, mesmo que isso signifique destruir o próprio forno no processo.

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