“Pretuguês” é o termo cunhado por Lélia Gonzalez para se referir à tradição africana presente na língua portuguesa falada no Brasil; a característica tonal e rítmica do português seria uma herança das línguas dos povos africanos que vieram escravizados para o país. A autora destaca que a presença do “r” no lugar do “l” (quando se diz “framengo”, por exemplo) pode remeter à ausência da letra “l” em certos idiomas africanos do tronco linguístico bantu.
BARTHOLOMEU, J. S. apud GONZALEZ, L. In: Enciclopédia de antropologia. São Paulo: USP.
Disponível em: https://ea.fflch.usp.br. Acesso em: 6 out. 2021 (adaptado).
No Brasil, a tradição mencionada no texto foi responsável pela
A) preservação do tráfico humano.
B) ampliação do sistema migratório.
C) diversidade do patrimônio cultural.
D) variedade do conhecimento autóctone.
E) multiplicidade do comércio estrangeiro.ana e indígena que moldaram o país.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Sociologia/Antropologia (Formação do Povo Brasileiro e Identidade Cultural)
- Linguística (Variação Linguística e Influência Africana)
- História do Brasil (Herança da Diáspora Africana)
- Tema/Objetivo Geral: Reconhecer a influência das línguas africanas na formação do português brasileiro como um elemento central na constituição da identidade e da diversidade cultural do país.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige que o aluno vá além do preconceito linguístico (que veria “framengo” como erro) e adote uma visão antropológica (que vê “framengo” como herança). O desafio é conectar um fenômeno linguístico específico a um conceito cultural amplo (patrimônio).
- Gabarito: C
- A alternativa está correta. A fusão de elementos linguísticos africanos (bantu) com a língua portuguesa gerou uma forma de falar única no Brasil (“Pretuguês”). Essa mistura enriquece a cultura nacional, tornando-a plural e diversa, constituindo nosso patrimônio cultural.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é ler o texto sobre o “Pretuguês” e responder: “O que essa mistura da língua portuguesa com as línguas africanas trouxe de bom para o Brasil? Qual foi o resultado dessa salada de palavras e sotaques para a nossa identidade?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o Português de Portugal é uma massa de bolo simples.
- Os povos africanos trouxeram “temperos” novos (ritmo, entonação, vocabulário).
- Eles misturaram esses temperos na massa.
- O resultado não é um bolo “errado”, é um bolo diferente e mais rico (o bolo brasileiro).
A questão quer que você dê um nome para essa riqueza de sabores. O nome é Diversidade Cultural.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar o Fenômeno: O texto fala de trocas linguísticas (rítmica, tonal, troca de letras).
- Identificar a Origem: Povos africanos escravizados (tronco bantu).
- Concluir o Legado: Se a língua mudou e ganhou novas características, a cultura ficou mais variada (diversa).
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender o valor do “falar brasileiro”, vamos usar um Quadro de Ressignificação.
QUADRO: O OLHAR PRECONCEITUOSO vs. O OLHAR ANTROPOLÓGICO
| Fenômeno Linguístico | Visão do Senso Comum (Preconceito) | Visão de Lélia Gonzalez (Antropologia) |
| Troca de L por R (Ex: “Fror”, “Framengo”) | “Erro de português”, “Ignorância”, “Falar errado”. | Herança Cultural: Influência de línguas africanas que não tinham o fonema “L” em certas posições. |
| Ritmo e Entonação | “Sotaque cantado”. | Marca Identitária: Presença da musicalidade africana na fala. |
| Resultado | Degradação da língua. | Enriquecimento do Patrimônio Cultural. |
Conclusão da Ferramenta: O que muitos chamam de erro, a sociologia chama de cultura e história viva.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar o texto com as lentes da autora.
- A Tese: O “Pretuguês” é a marca da África na nossa boca. Não falamos português europeu; falamos uma língua africanizada.
- O Exemplo: A autora cita o “r no lugar do l”. Isso é crucial. Ela tira esse fenômeno da categoria de “erro gramatical” e o coloca na categoria de fenômeno histórico. É como se a língua bantu estivesse “assombrando” (no bom sentido) o português.
- A Consequência para o Brasil: Se a nossa língua tem pedaços da África, da Europa e dos indígenas (embora o texto foque na África), isso significa que somos um país culturalmente misturado. A tradição do “Pretuguês” não criou o tráfico (A) nem o comércio (E); ela criou uma identidade cultural diversa. Ela é a prova de que a cultura brasileira é um mosaico.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A armadilha mais perigosa aqui é a alternativa D (variedade do conhecimento autóctone). O aluno lê “tradição”, “língua”, “povo” e pensa: “Ah, conhecimento do povo nativo!”. A palavra Autóctone significa “originário da terra”, ou seja, refere-se aos Indígenas (que já estavam aqui). O texto fala explicitamente da “tradição africana” e de povos que “vieram escravizados” (alóctones/imigrantes forçados). Confundir a matriz indígena com a africana é o erro fatal aqui. O texto é sobre a África no Brasil, não sobre os índios.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A influência africana na língua portuguesa criou uma variante única no Brasil. Essa fusão de elementos (europeu + africano) é um dos pilares da nossa riqueza cultural.
- Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “cultura”, “identidade”, “riqueza”, “diversidade” ou “mestiçagem cultural”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) preservação do tráfico humano.
- O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Valores. O tráfico humano (escravidão) foi a causa histórica da vinda desses povos, mas a tradição linguística (“Pretuguês”) é uma forma de resistência e sobrevivência cultural, não uma ferramenta para “preservar o tráfico”. A cultura sobreviveu apesar do tráfico.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) ampliação do sistema migratório.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Causalidade. A língua não causou a migração. A migração (forçada) causou a mudança na língua. Além disso, o sistema escravista não é tecnicamente um “sistema migratório” comum (voluntário), e a língua não o ampliou.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
C) diversidade do patrimônio cultural.
- Análise de Correspondência: Perfeita. O patrimônio cultural de um povo inclui sua língua e seus modos de falar. A inserção de traços africanos no português diversificou esse patrimônio, criando uma cultura brasileira única, fruto dessa mistura.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
D) variedade do conhecimento autóctone.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Terminologia. Como explicado na armadilha, “autóctone” refere-se aos indígenas (nativos). O texto trata exclusivamente da herança africana (trazida de fora).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
E) multiplicidade do comércio estrangeiro.
- O “Diagnóstico do Erro”: Visão Economicista. A influência linguística é um fenômeno cultural e social. Ela não tem relação direta com a balança comercial, exportação ou importação de mercadorias (“comércio estrangeiro”).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. Lélia Gonzalez nos ensina que, toda vez que falamos, a história da África fala através de nós.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O Brasil não fala Português, fala “Brasileiro” com sotaque de Angola.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O conceito de Pretuguês é fundamental para combater o Preconceito Linguístico (tema de Marcos Bagno). Muitas vezes, o que a gramática normativa chama de “erro” (como a concordância “os menino”, ou a troca l/r) tem raízes na lógica de outras línguas que formaram o Brasil. Valorizar o Pretuguês é valorizar a inteligência e a adaptação dos povos africanos que, mesmo proibidos de falar suas línguas, conseguiram deixar sua marca indelével na língua do colonizador.
