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Questão 84, caderno azul do ENEM 2018

Rodrigo havia sido indicado pela oposição para fiscal duma das mesas eleitorais. Pôs o revólver na cintura,
uma caixa de balas no bolso e encaminhou-se para seu posto. A chamada dos eleitores começou às sete
da manhã. Plantados junto da porta, os capangas do Trindade ofereciam cédulas com o nome dos candidatos
oficiais a todos os eleitores que entravam. Estes, em sua quase totalidade, tomavam docilmente dos papeluchos e depositavam-nos na urna, depois de assinar a autêntica. Os que se recusavam a isso tinham seus nomes
acintosamente anotados.

VERISSIMO, E. O tempo e o vento. São Paulo: Globo, 2003 (adaptado).

Erico Verissimo tematiza em obra ficcional o seguinte aspecto característico da vida política durante a
Primeira República:

A) identificação forçada de homens analfabetos.
B) monitoramento legal dos pleitos legislativos.
C) repressão explícita ao exercício de direito.
D) propaganda direcionada à população do campo.
E) cerceamento policial dos operários sindicalizados.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História do Brasil (Primeira República / República Velha).
  • Sociologia Política (Coronelismo e Clientelismo).
  • Literatura Brasileira (Romance Regionalista de 30 – Érico Veríssimo como fonte histórica).

Tema/Objetivo Geral:
Identificar, através de uma narrativa ficcional, as práticas reais de fraude eleitoral e violência política (Voto de Cabresto) que sustentavam as oligarquias no poder.

Nível da Questão:
Médio.
Por que? Exige que o aluno faça a ponte entre a literatura (a cena descrita) e o conceito histórico (coronelismo), percebendo que a “paz” dos eleitores descrita no texto é, na verdade, medo.

Gabarito:
Letra C.
A alternativa está correta pois a presença de “capangas”, “revólveres” e a “anotação acintosa” dos nomes de quem desobedecia configuram uma repressão explícita: o eleitor não era livre; ele votava sob a mira de uma arma (literal ou metafórica) para não sofrer represálias.


🕵️‍♂️ Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão apresenta uma cena de eleição no interior do Rio Grande do Sul antigo. Temos um fiscal armado (Rodrigo) e capangas de um coronel (Trindade) controlando a porta. A pergunta é: Qual característica da política daquela época (Primeira República) está sendo mostrada aqui?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central):
    • Imagine que você vai votar hoje, mas na porta da seção eleitoral tem três seguranças gigantes e armados que trabalham para o prefeito.
    • Eles te entregam um papelzinho já preenchido e dizem: “Coloca esse na urna”.
    • Se você disser não, eles pegam um caderno e anotam seu nome olhando feio para você.
    • Isso é democracia? Não. Isso é um assalto ao seu direito de escolha.
  • Nosso Plano de Ataque:
    1. Analisar os “atores” da cena (Capangas vs. Eleitores).
    2. Identificar o método (entrega da cédula pronta e ameaça velada).
    3. Nomear o fenômeno histórico: Voto de Cabresto.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender como a eleição funcionava (ou não funcionava), vamos usar a Tabela da Democracia vs. Coronelismo.

Aspecto Na Teoria (Constituição de 1891) Na Prática (A Cena do Texto) Nome Histórico
Quem vota? Homens maiores de 21 anos alfabetizados. “Eleitores dóceis” controlados pelo chefe local. Curral Eleitoral.
O Voto Deveria ser uma escolha pessoal. Cédula entregue pronta pelos capangas na porta. Voto de Cabresto.
O Sigilo Não havia voto secreto (voto a descoberto). O voto era aberto ou facilmente fiscalizado. Se não votasse no coronel, sofria punição. Fraude / Coação.
A Segurança O Estado garante a ordem. “Capangas” e “revólveres na cintura”. A milícia privada manda. Mandonismo Local.

Conceito Chave: O Voto de Cabresto é a metáfora do animal (eleitor) guiado pelo dono (coronel). O texto mostra exatamente o momento em que o cabresto é colocado: na porta da seção eleitoral.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  • O Clima de Guerra: O texto começa com Rodrigo colocando um revólver na cintura e balas no bolso. Isso já mostra que a eleição não é uma festa cívica, é um campo de batalha.
  • A Coação: Os “capangas do Trindade” (o coronel local) ficam plantados na porta. Eles não estão pedindo voto, eles estão entregando o voto (“ofereciam cédulas”).
  • A Submissão: Os eleitores agem “docilmente”. Por que dóceis? Porque têm medo. Eles assinam a “autêntica” (lista de presença) e depositam o papel que receberam.
  • A Punição: O que acontece com quem recusa? “Nomes acintosamente anotados”. Isso significa: “Sabemos quem você é e você vai perder seu emprego, sua casa ou levar uma surra depois”.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a alternativa (A) sobre “homens analfabetos”. Embora o analfabetismo fosse enorme e os analfabetos fossem excluídos pela lei, o texto mostra homens assinando a lista (“depois de assinar a autêntica”). Logo, tecnicamente, eles eram alfabetizados (ou sabiam desenhar o nome). O problema ali não era a escolaridade, era a violência.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto descreve um ambiente onde a escolha livre é impossível devido à presença física e ameaçadora dos agentes do coronel.
  • Expectativa: Procuramos uma alternativa que fale de violência, repressão, controle ou falta de liberdade.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) identificação forçada de homens analfabetos.

  • Análise: Pela Constituição de 1891, analfabetos não podiam votar. Se eles estivessem votando, seria uma fraude específica, mas o texto diz que eles “assinavam a autêntica”, sugerindo que cumpriam o requisito mínimo. O foco do texto é a coação sobre quem podia votar, não a inclusão de quem não podia.
  • Diagnóstico do Erro: Fato Histórico Impreciso no Contexto. Analfabetos eram excluídos, não o foco da coação na urna.
  • Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / DISTRATOR. (Havia fraude com analfabetos desenhando o nome, mas o tema central do texto é a ameaça).

B) monitoramento legal dos pleitos legislativos.

  • Análise: “Monitoramento legal” seria feito pela Justiça Eleitoral (que nem existia na época) ou fiscais oficiais agindo na lei. Capangas armados entregando cédulas na porta não é legal; é crime, é fraude, é abuso de poder.
  • Diagnóstico do Erro: Eufemismo/Ironia. O que ocorria era monitoramento ilegal e criminoso.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

C) repressão explícita ao exercício de direito.

  • Análise: Bingo. O “direito” é o voto livre. A “repressão explícita” é a presença dos capangas, a distribuição ostensiva de cédulas e a anotação dos nomes dos opositores como forma de ameaça. O eleitor é impedido de exercer sua cidadania plena pela força bruta.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

D) propaganda direcionada à população do campo.

  • Análise: Propaganda é tentar convencer alguém com ideias, jingles ou santinhos. O texto mostra capangas impondo a cédula. Não há convencimento, há ordem. E o cenário, embora rural, foca na ação coercitiva, não publicitária.
  • Diagnóstico do Erro: Suavização do Problema. Confunde coação física com marketing político.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

E) cerceamento policial dos operários sindicalizados.

  • Análise: Essa alternativa descreve um cenário urbano (greves operárias em SP ou RJ). A obra “O Tempo e o Vento” se passa no Rio Grande do Sul, num contexto de disputa entre clãs oligárquicos (Chimangos e Maragatos), não de luta de classes industrial. Além disso, os agentes são “capangas” (privados), não policiais (estado).
  • Diagnóstico do Erro: Erro de Contexto Geográfico e Social. Mistura coronelismo rural com movimento operário urbano.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A literatura de Erico Verissimo serve como documento histórico para denunciar que, na Primeira República, a urna não era o símbolo da liberdade, mas a extensão da cerca do latifúndio, onde o voto era controlado pela repressão explícita do coronelismo.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🗳️🔫 A Urna e o Revólver: Uma mão deposita o voto, a outra segura o medo. Isso não é eleição, é rendição.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com as Milícias Atuais!
O que os “capangas do Trindade” faziam em 1900 é muito parecido com o que milícias fazem em algumas comunidades hoje: controle territorial do voto. “Se você mora aqui, vota em quem a gente manda”. O coronelismo mudou de roupa, saiu da fazenda e foi para a periferia urbana, mas a lógica da repressão ao direito de voto continua a mesma.

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