Rodrigo havia sido indicado pela oposição para fiscal duma das mesas eleitorais. Pôs o revólver na cintura,
uma caixa de balas no bolso e encaminhou-se para seu posto. A chamada dos eleitores começou às sete
da manhã. Plantados junto da porta, os capangas do Trindade ofereciam cédulas com o nome dos candidatos
oficiais a todos os eleitores que entravam. Estes, em sua quase totalidade, tomavam docilmente dos papeluchos e depositavam-nos na urna, depois de assinar a autêntica. Os que se recusavam a isso tinham seus nomes
acintosamente anotados.
VERISSIMO, E. O tempo e o vento. São Paulo: Globo, 2003 (adaptado).
Erico Verissimo tematiza em obra ficcional o seguinte aspecto característico da vida política durante a
Primeira República:
A) identificação forçada de homens analfabetos.
B) monitoramento legal dos pleitos legislativos.
C) repressão explícita ao exercício de direito.
D) propaganda direcionada à população do campo.
E) cerceamento policial dos operários sindicalizados.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História do Brasil (Primeira República / República Velha).
- Sociologia Política (Coronelismo e Clientelismo).
- Literatura Brasileira (Romance Regionalista de 30 – Érico Veríssimo como fonte histórica).
Tema/Objetivo Geral:
Identificar, através de uma narrativa ficcional, as práticas reais de fraude eleitoral e violência política (Voto de Cabresto) que sustentavam as oligarquias no poder.
Nível da Questão:
Médio.
Por que? Exige que o aluno faça a ponte entre a literatura (a cena descrita) e o conceito histórico (coronelismo), percebendo que a “paz” dos eleitores descrita no texto é, na verdade, medo.
Gabarito:
Letra C.
A alternativa está correta pois a presença de “capangas”, “revólveres” e a “anotação acintosa” dos nomes de quem desobedecia configuram uma repressão explícita: o eleitor não era livre; ele votava sob a mira de uma arma (literal ou metafórica) para não sofrer represálias.
🕵️♂️ Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A questão apresenta uma cena de eleição no interior do Rio Grande do Sul antigo. Temos um fiscal armado (Rodrigo) e capangas de um coronel (Trindade) controlando a porta. A pergunta é: Qual característica da política daquela época (Primeira República) está sendo mostrada aqui?
- Simplificação Radical (A Analogia Central):
- Imagine que você vai votar hoje, mas na porta da seção eleitoral tem três seguranças gigantes e armados que trabalham para o prefeito.
- Eles te entregam um papelzinho já preenchido e dizem: “Coloca esse na urna”.
- Se você disser não, eles pegam um caderno e anotam seu nome olhando feio para você.
- Isso é democracia? Não. Isso é um assalto ao seu direito de escolha.
- Nosso Plano de Ataque:
- Analisar os “atores” da cena (Capangas vs. Eleitores).
- Identificar o método (entrega da cédula pronta e ameaça velada).
- Nomear o fenômeno histórico: Voto de Cabresto.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender como a eleição funcionava (ou não funcionava), vamos usar a Tabela da Democracia vs. Coronelismo.
| Aspecto | Na Teoria (Constituição de 1891) | Na Prática (A Cena do Texto) | Nome Histórico |
| Quem vota? | Homens maiores de 21 anos alfabetizados. | “Eleitores dóceis” controlados pelo chefe local. | Curral Eleitoral. |
| O Voto | Deveria ser uma escolha pessoal. | Cédula entregue pronta pelos capangas na porta. | Voto de Cabresto. |
| O Sigilo | Não havia voto secreto (voto a descoberto). | O voto era aberto ou facilmente fiscalizado. Se não votasse no coronel, sofria punição. | Fraude / Coação. |
| A Segurança | O Estado garante a ordem. | “Capangas” e “revólveres na cintura”. A milícia privada manda. | Mandonismo Local. |
Conceito Chave: O Voto de Cabresto é a metáfora do animal (eleitor) guiado pelo dono (coronel). O texto mostra exatamente o momento em que o cabresto é colocado: na porta da seção eleitoral.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
- O Clima de Guerra: O texto começa com Rodrigo colocando um revólver na cintura e balas no bolso. Isso já mostra que a eleição não é uma festa cívica, é um campo de batalha.
- A Coação: Os “capangas do Trindade” (o coronel local) ficam plantados na porta. Eles não estão pedindo voto, eles estão entregando o voto (“ofereciam cédulas”).
- A Submissão: Os eleitores agem “docilmente”. Por que dóceis? Porque têm medo. Eles assinam a “autêntica” (lista de presença) e depositam o papel que receberam.
- A Punição: O que acontece com quem recusa? “Nomes acintosamente anotados”. Isso significa: “Sabemos quem você é e você vai perder seu emprego, sua casa ou levar uma surra depois”.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a alternativa (A) sobre “homens analfabetos”. Embora o analfabetismo fosse enorme e os analfabetos fossem excluídos pela lei, o texto mostra homens assinando a lista (“depois de assinar a autêntica”). Logo, tecnicamente, eles eram alfabetizados (ou sabiam desenhar o nome). O problema ali não era a escolaridade, era a violência.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto descreve um ambiente onde a escolha livre é impossível devido à presença física e ameaçadora dos agentes do coronel.
- Expectativa: Procuramos uma alternativa que fale de violência, repressão, controle ou falta de liberdade.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) identificação forçada de homens analfabetos.
- Análise: Pela Constituição de 1891, analfabetos não podiam votar. Se eles estivessem votando, seria uma fraude específica, mas o texto diz que eles “assinavam a autêntica”, sugerindo que cumpriam o requisito mínimo. O foco do texto é a coação sobre quem podia votar, não a inclusão de quem não podia.
- Diagnóstico do Erro: Fato Histórico Impreciso no Contexto. Analfabetos eram excluídos, não o foco da coação na urna.
- Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / DISTRATOR. (Havia fraude com analfabetos desenhando o nome, mas o tema central do texto é a ameaça).
B) monitoramento legal dos pleitos legislativos.
- Análise: “Monitoramento legal” seria feito pela Justiça Eleitoral (que nem existia na época) ou fiscais oficiais agindo na lei. Capangas armados entregando cédulas na porta não é legal; é crime, é fraude, é abuso de poder.
- Diagnóstico do Erro: Eufemismo/Ironia. O que ocorria era monitoramento ilegal e criminoso.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
C) repressão explícita ao exercício de direito.
- Análise: Bingo. O “direito” é o voto livre. A “repressão explícita” é a presença dos capangas, a distribuição ostensiva de cédulas e a anotação dos nomes dos opositores como forma de ameaça. O eleitor é impedido de exercer sua cidadania plena pela força bruta.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
D) propaganda direcionada à população do campo.
- Análise: Propaganda é tentar convencer alguém com ideias, jingles ou santinhos. O texto mostra capangas impondo a cédula. Não há convencimento, há ordem. E o cenário, embora rural, foca na ação coercitiva, não publicitária.
- Diagnóstico do Erro: Suavização do Problema. Confunde coação física com marketing político.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
E) cerceamento policial dos operários sindicalizados.
- Análise: Essa alternativa descreve um cenário urbano (greves operárias em SP ou RJ). A obra “O Tempo e o Vento” se passa no Rio Grande do Sul, num contexto de disputa entre clãs oligárquicos (Chimangos e Maragatos), não de luta de classes industrial. Além disso, os agentes são “capangas” (privados), não policiais (estado).
- Diagnóstico do Erro: Erro de Contexto Geográfico e Social. Mistura coronelismo rural com movimento operário urbano.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A literatura de Erico Verissimo serve como documento histórico para denunciar que, na Primeira República, a urna não era o símbolo da liberdade, mas a extensão da cerca do latifúndio, onde o voto era controlado pela repressão explícita do coronelismo.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🗳️🔫 A Urna e o Revólver: Uma mão deposita o voto, a outra segura o medo. Isso não é eleição, é rendição.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com as Milícias Atuais!
O que os “capangas do Trindade” faziam em 1900 é muito parecido com o que milícias fazem em algumas comunidades hoje: controle territorial do voto. “Se você mora aqui, vota em quem a gente manda”. O coronelismo mudou de roupa, saiu da fazenda e foi para a periferia urbana, mas a lógica da repressão ao direito de voto continua a mesma.