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Questão 85, caderno azul do ENEM 2018

Então disse: “Este é o local onde construirei. Tudo pode chegar aqui pelo Eufrates, o Tigre e uma rede de
canais. Só um lugar como este sustentará o exército e a população geral”. Assim ele traçou e destinou as verbas
para a sua construção, e deitou o primeiro tijolo com sua própria mão, dizendo: “Em nome de Deus, e em louvor
a Ele. Construí, e que Deus vos abençoe”.

AL-TABARI, M. Uma história dos povos árabes.
São Paulo: Cia. das Letras, 1995 (adaptado).

A decisão do califa Al-Mansur (754-775) de construir Bagdá nesse local orientou-se pela

A) disponibilidade de rotas e terras férteis como base da dominação política.
B) proximidade de áreas populosas como afirmação da superioridade bélica.
C) submissão à hierarquia e à lei islâmica como controle do poder real.
D) fuga da península arábica como afastamento dos conflitos sucessórios.
E) ocupação de região fronteiriça como contenção do avanço mongol.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História da Civilização Islâmica (Califado Abássida).
  • Geografia Histórica (O Crescente Fértil e a Mesopotâmia).
  • Geopolítica (Relação entre recursos naturais e poder).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a lógica estratégica, econômica e logística por trás da fundação de capitais imperiais na antiguidade e medievo.

Nível da Questão:
Médio.
Por que? Exige que o aluno relacione a geografia física (rios) com a estabilidade política (sustentar o exército), superando a tentação de responder com base apenas em aspectos religiosos ou militares diretos.

Gabarito:
Letra A.
A alternativa está correta pois o texto deixa claro que a escolha do local foi técnica: a presença dos rios Tigre e Eufrates garantia o transporte (rotas) e a comida (terras férteis) necessários para manter a capital e o exército do império.


🕵️‍♂️ Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: O califa Al-Mansur está escolhendo onde construir a nova sede do seu império. A questão quer saber: Qual foi o critério técnico que ele usou para colocar o alfinete no mapa exatamente ali?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central):
    • Imagine que você está jogando SimCity ou Civilization. Você precisa fundar sua capital. Onde você clica? No meio do deserto seco? No topo de uma montanha isolada?
    • Não! Você clica perto do rio. Por quê? Porque rio é estrada (transporte) e rio é comida (irrigação). Sem comida, seus soldados morrem. Sem estrada, o comércio para.
    • A questão pergunta: O que o jogador Al-Mansur viu naquele terreno? (Resposta: Água e logística).
  • Nosso Plano de Ataque:
    1. Identificar as vantagens geográficas citadas no texto (Eufrates, Tigre, canais).
    2. Traduzir essas vantagens para linguagem política (poder, sustentação).
    3. Eliminar alternativas que falam de religião ou guerras futuras (mongóis).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a mente de Al-Mansur, vamos usar a Tabela da Geopolítica Hidráulica.

Elemento Citado no Texto Função Prática (Logística/Econômica) Função Política (Poder)
“Tudo pode chegar aqui” Centralidade logística. O local é um “hub” de distribuição. Controle das rotas comerciais (Rota da Seda). Riqueza = Poder.
“Eufrates, o Tigre e rede de canais” Irrigação em larga escala e transporte fluvial barato. Agricultura intensiva no meio do deserto. Domínio da água.
“Sustentará o exército” Segurança alimentar. Soldado com fome se rebela. Manutenção da Ordem. A base material da dominação política.
“Sustentará a população” Crescimento demográfico e urbano. Legitimação do Califa como provedor e protetor.

Conceito Chave: Estamos na Mesopotâmia (atual Iraque). Historicamente, quem controla a água entre o Tigre e o Eufrates controla o Império. Bagdá foi desenhada para ser o umbigo do mundo.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  1. A Leitura do Engenheiro: Al-Mansur não começa dizendo “Aqui é um lugar sagrado”. Ele começa dizendo “Aqui chega tudo”. Ele está olhando para a logística.
  2. O Raciocínio de Estado: Ele diz: “Só um lugar como este sustentará o exército”. Isso é pragmatismo puro. Um império se mantém com espada e pão. O local oferecia o pão (terras férteis irrigadas) e o acesso fácil para a espada (transporte via rios).
  3. A Conexão Histórica: Os Abássidas mudaram a capital de Damasco (Síria) para Bagdá (Iraque/Pérsia) justamente para aproveitar essa riqueza agrícola e comercial do Oriente, afastando-se do Mediterrâneo e focando na Ásia.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a alternativa (E) sobre os Mongóis. O aluno que assiste a muitos filmes ou joga muitos jogos pode lembrar que os Mongóis invadiram Bagdá. Mas isso aconteceu em 1258! Al-Mansur viveu em 754. Cuidado com o anacronismo (misturar épocas diferentes). Al-Mansur não tinha bola de cristal para prever Genghis Khan 500 anos depois.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto fala de rios e comida para o exército. Rios são rotas. Comida vem de terras férteis. Isso sustenta o poder.
  • Expectativa: Procuramos uma alternativa que una Geografia (rios/terra) com Política (dominação/poder).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) disponibilidade de rotas e terras férteis como base da dominação política.

  • Análise: Perfeito. O texto cita explicitamente “Eufrates, Tigre” (rotas fluviais e irrigação para terras férteis) e conecta isso à capacidade de “sustentar o exército” (base da dominação política). Bagdá se tornou rica e poderosa porque estava no cruzamento perfeito de água e comércio.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

B) proximidade de áreas populosas como afirmação da superioridade bélica.

  • Análise: Al-Mansur estava construindo uma nova cidade em um local estratégico, não ocupando uma área já superpopulosa para se mostrar forte. A população cresceria por causa da cidade, não o contrário. A superioridade bélica viria da capacidade de sustentar o exército (logística), não apenas de estar perto de gente.
  • Diagnóstico do Erro: Inversão de Causa e Efeito. A cidade atraiu a população, não foi feita lá por causa dela.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

C) submissão à hierarquia e à lei islâmica como controle do poder real.

  • Análise: Embora o texto termine com “Em nome de Deus” (uma fórmula padrão de legitimidade), o motivo da escolha do local descrito no corpo do texto é geográfico e econômico, não religioso ou jurídico (Sharia). A lei islâmica rege a conduta, não a engenharia civil.
  • Diagnóstico do Erro: Distrator Temático. Foca na religião (islã), ignorando o argumento central do texto (recursos hídricos).
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) fuga da península arábica como afastamento dos conflitos sucessórios.

  • Análise: Os Abássidas realmente mudaram o eixo do poder para o Iraque (influência persa), saindo da esfera de influência puramente árabe/síria dos Omíadas. Porém, o texto não fala de “fuga” ou medo de sucessão, mas sim de construção e sustentação. O motivo explícito no texto é a viabilidade econômica, não a fuga política.
  • Diagnóstico do Erro: Reducionismo. Reduz uma estratégia imperial de expansão a uma mera “fuga”.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

E) ocupação de região fronteiriça como contenção do avanço mongol.

  • Análise: Este é o erro cronológico grosseiro. Al-Mansur fundou Bagdá no século VIII (anos 700). As invasões mongóis (Hulagu Khan) que destruíram Bagdá ocorreram no século XIII (anos 1200). São 500 anos de diferença.
  • Diagnóstico do Erro: Anacronismo. Atribui um evento futuro (invasão mongol) a uma decisão do passado distante.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A fundação de Bagdá nos ensina que, antes de ser espiritual ou ideológico, um Império precisa ser viável logisticamente; Al-Mansur sabia que o poder político brota onde há água (rotas) e pão (terras férteis).

Resumo-flash (A Imagem Mental):
💧 O Oásis Imperial: Bagdá não foi construída na areia, mas sobre a “bateria” do Oriente Médio: os rios Tigre e Eufrates.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com Brasília!
Assim como Al-Mansur desenhou Bagdá do zero para deslocar o eixo de poder do Islã para o interior fértil, Juscelino Kubitschek construiu Brasília do zero para deslocar o eixo de poder do Brasil do litoral para o interior. Ambas foram decisões geopolíticas de “interiorização” e controle territorial, embora separadas por 1200 anos.

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