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Questão 80, caderno azul do ENEM 2019 – DIA 1

A Revolta da Vacina (1904) mostrou claramente o aspecto defensivo, desorganizado, fragmentado da ação popular. Não se negava o Estado, não se reivindicava participação nas decisões políticas; defendiam-se valores e direitos considerados acima da intervenção do Estado.

CARVALHO, J. M. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi.
São Paulo: Cia. das Letras, 1987 (adaptado).

A mobilização analisada representou um alerta, na medida em que a ação popular questionava

A) a alta de preços.

B) a política clientelista.

C) as reformas urbanas.

D) o arbítrio governamental.

E) as práticas eleitorais.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
História do Brasil (Primeira República / República Oligárquica).
Sociologia (Movimentos Sociais e Cidadania).
Urbanismo (Reformas Urbanas e Sanitárias).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a natureza da relação entre o Estado e a população pobre na Primeira República, identificando a forma como as políticas públicas eram aplicadas (autoritarismo) e a reação popular a elas.

Nível da Questão
Médio.
O aluno precisa ir além do fato histórico (“o povo quebrou tudo por causa da vacina”) e interpretar a motivação sociológica por trás da quebra-quebra, descrita no texto de José Murilo de Carvalho.

Gabarito
Letra D.
A alternativa está correta pois o texto afirma que o povo defendia “valores e direitos” contra a “intervenção do Estado”. Quando o Estado intervém na vida privada sem consultar e sem respeitar limites, isso se chama arbítrio (autoritarismo).


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer saber: O que exatamente deixou o povo furioso em 1904? O texto diz que eles não queriam derrubar o governo (“não se negava o Estado”), mas reagiram de forma “defensiva”. Defensiva contra o quê?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que sua casa está suja e você precisa limpá-la.
Cenário A: A prefeitura manda um aviso educativo e oferece produtos de limpeza.
Cenário B: A prefeitura chuta sua porta, entra com policiais, chama sua casa de chiqueiro e começa a jogar suas coisas fora à força.
A Revolta da Vacina foi o Cenário B. A revolta não foi porque o povo gostava da sujeira (varíola), mas porque o governo chutou a porta.
O verdadeiro desafio aqui é identificar o nome técnico para esse “chutar a porta”. Esse nome é Arbítrio Governamental.

Plano de Ataque:

  1. Analisar o Contexto: Rio de Janeiro, 1904. Reformas de Pereira Passos (“Bota-Abaixo”) e Oswaldo Cruz.
  2. Interpretar o Texto: O autor diz que a revolta foi uma defesa de “valores considerados acima do Estado” (como a honra da família e a inviolabilidade do lar).
  3. Conectar: Se o Estado ignora esses valores e impõe sua vontade à força, ele está agindo com Arbítrio.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos abrir o Dossiê da República da Espada e Oligárquica.

O “Bota-Abaixo” e a Ditadura Sanitária:
O Rio de Janeiro queria ser uma “Paris nos Trópicos”. Para isso, o governo:

  1. Derrubou cortiços onde os pobres moravam (sem indenização justa).
  2. Alargou avenidas (expulsando o povo para os morros).
  3. Impôs a Vacinação Obrigatória contra a varíola.

O Problema Moral:
A vacina não era apenas uma injeção. Os agentes sanitários (mata-mosquitos) entravam nas casas acompanhados de policiais. Eles podiam vacinar mulheres à força.
Na mentalidade de 1904, um homem estranho tocar no braço ou na coxa de uma mulher (esposa/filha de alguém) era uma ofensa grave à honra. O Estado invadiu a esfera privada.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar o texto de José Murilo de Carvalho:

  • “Aspecto defensivo”: O povo não atacou do nada; o povo reagiu a um ataque.
  • “Não se negava o Estado”: Não era uma revolução anarquista ou socialista para derrubar a República.
  • “Defendiam-se valores… acima da intervenção do Estado”: O povo dizia: “Governo, você manda na rua, mas dentro da minha casa e no corpo da minha família, mando eu”.

A revolta foi um grito de “Limite!”.
Quando o governo age sem limites, sem diálogo e com violência, chamamos isso de Arbítrio (agir conforme a própria vontade, sem lei ou respeito).
A ação popular questionava: “Quem você pensa que é para invadir minha casa?”

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! É muito comum o aluno marcar (C) reformas urbanas.
As reformas urbanas aconteceram e geraram insatisfação, sim. Mas a questão foca na análise do texto. O texto fala sobre a defesa de “direitos e valores” contra a “intervenção”. O cerne da questão não é a obra física (alargar rua), mas o método político (a violência da invasão). A reforma é o cenário; o arbítrio é o crime.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O Estado invadiu a vida privada do cidadão com truculência. O cidadão reagiu para defender sua dignidade. Essa truculência estatal chama-se arbítrio.
  • Expectativa: A alternativa deve conter palavras como “autoritarismo”, “violência”, “imposição” ou “arbítrio”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) a alta de preços.

  • Diagnóstico do Erro: Fato Econômico desconectado.
  • Análise: Havia inflação (carestia) na época, sim (Revolta da Carestia veio depois). Mas o texto fala especificamente da Revolta da Vacina e da defesa de “valores e direitos” contra a “intervenção”. O foco é político/moral, não econômico.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) a política clientelista.

  • Diagnóstico do Erro: Confusão de Conceitos da Época.
  • Análise: Clientelismo (troca de favores, coronelismo) era a base da política na época, mas a Revolta da Vacina foi um levante urbano explosivo e espontâneo, não uma disputa por cargos ou votos controlados. O povo não estava pedindo o fim do clientelismo, estava pedindo o fim da invasão de suas casas.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) as reformas urbanas.

  • Diagnóstico do Erro: Reducionismo (O Contexto pelo Motivo).
  • Análise: As reformas foram o contexto. Mas o texto destaca o aspecto “defensivo” de valores morais. O povo não se revoltou apenas porque a rua ficou bonita ou feia, mas pela maneira arbitrária como tudo foi feito (despejos e vacinação forçada).
  • 🔄 ENGENHARIA REVERSA: Esta alternativa seria a correta se a pergunta fosse: “Qual processo de modernização física da capital serviu de pano de fundo material para a insatisfação popular em 1904?”
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) o arbítrio governamental.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • Análise:
    • Arbítrio: Uso abusivo de poder.
    • Governamental: A “intervenção do Estado” citada no texto.
    • O povo questionava o direito do governo de violar seus corpos e lares. Questionava o autoritarismo da “Ditadura Sanitária”.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) as práticas eleitorais.

  • Diagnóstico do Erro: Irrelevância Temática.
  • Análise: O texto diz explicitamente: “não se reivindicava participação nas decisões políticas”. Ou seja, eles não estavam pedindo voto ou urnas limpas. Eles estavam pedindo respeito à privacidade.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A Revolta da Vacina não foi uma revolta contra a ciência, mas uma reação desesperada de uma população excluída contra o arbítrio governamental de um Estado que modernizava a cidade passando por cima da dignidade dos seus habitantes.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Vacina à força = Invasão de Domicílio = Arbítrio.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Pandemia de COVID-19.
Note a diferença: em 1904, o povo se revoltou contra a vacina (pela forma como foi imposta). Em 2021, o povo brigava pela vacina. No entanto, a discussão sobre a “obrigatoriedade” (Passaporte Sanitário) trouxe de volta o debate ético de 1904: até onde vai o poder do Estado sobre o corpo do indivíduo em nome da saúde coletiva?

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