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Questão 79, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

As grandes empresas seriam, certamente, representação de um exercício de poder, ante o grau de autonomia de ação de que dispõem. O que se pretende salientar é a ideia de enclave: plantas industriais que estabelecem relações escassas com o entorno, mas exercem grande influência na economia extralocal.

DAVIDOVICH. F. Estado do Rio de Janeiro: o urbano metropolitano. Hipóteses e questões. GeoUERJ, n.21, 2010.

Que tipo de ação tomada por empresas reflete a forma de territorialização da produção industrial apresentada no texto?

A) Criação de vilas operárias.

B) Promoção de eventos comunitários.

C) Recuperação de áreas degradas.

D) Incorporação de saberes tradicionais.

E) Importação de mão de obra qualificada.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Geografia Econômica (Territorialização da Indústria, Enclaves Econômicos)
  • Sociologia (Relações entre Empresa e Comunidade)

Tema/Objetivo Geral: Analisar o conceito de enclave industrial e identificar uma prática empresarial que o caracteriza.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige a compreensão do conceito de “enclave” e a capacidade de inferir, a partir dele, um comportamento empresarial específico. Não é uma resposta que está explícita, mas uma dedução lógica. O leitor precisa entender que um enclave, por definição, não utiliza os recursos locais, o que o leva a buscar recursos fora.

Gabarito: E) Importação de mão de obra qualificada.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque um enclave, por ter “relações escassas com o entorno”, não costuma treinar ou contratar massivamente a população local para cargos-chave. Em vez disso, ele “importa” seus especialistas de outras regiões ou países, reforçando seu isolamento e sua lógica extralocal.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é clara: temos que ler a definição de “enclave industrial” e, a partir dela, escolher a alternativa que descreve uma ação empresarial que seja a “cara” desse modelo. Qual atitude de uma empresa mostra que ela está vivendo em sua própria “bolha”, isolada da comunidade ao redor?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que uma embaixada de um país rico (a empresa) é instalada em um bairro pobre de uma cidade (o entorno). A embaixada é um “enclave”: tem seus próprios guardas, suas próprias regras, sua comida vem de fora, e seus funcionários de alto escalão são todos diplomatas estrangeiros. Ela tem pouquíssima relação com o bairro (não contrata os vizinhos, não compra no mercado da esquina), mas tem uma influência enorme na política internacional (economia extralocal). A questão é: qual das ações a seguir é típica dessa embaixada? “Fazer uma festa de rua para o bairro” ou “Trazer seus próprios diplomatas de seu país de origem“?
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Dissecar o Conceito de “Enclave”: Quais são as duas características principais de um enclave industrial, segundo o texto?
    2. Estabelecer a Lógica do Enclave: Se uma empresa tem essas características, como ela tende a se comportar em relação à comunidade local?
    3. Testar as Ações: Vamos analisar cada alternativa e ver qual delas se encaixa nessa lógica de isolamento.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Análise Conceitual de “Enclave”, que nos ajudará a definir o perfil do suspeito.

🕵️‍♂️ ANÁLISE CONCEITUAL: O PERFIL DO ENCLAVE

  • Característica 1 (Isolamento Local): “plantas industriais que estabelecem relações escassas com o entorno“.
    • Análise: O enclave não se mistura. Ele não compra localmente, não contrata localmente (pelo menos não de forma significativa ou para cargos importantes), não participa da vida comunitária. É um corpo estranho no território.
  • Característica 2 (Conexão Extralocal): “exercem grande influência na economia extralocal“.
    • Análise: O enclave está conectado a uma rede maior, global ou nacional. Seus produtos, seus lucros, suas decisões e, consequentemente, seus recursos (como capital, tecnologia e pessoal especializado) vêm de fora e vão para fora.

Lógica Comportamental Deduzida: Uma empresa que funciona como um enclave tenderá a realizar ações que reforcem seu isolamento do entorno e sua conexão com o mundo exterior. Ela buscará fora o que não quer ou não pode obter localmente.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A investigação do conceito é clara. Um enclave é uma “ilha”. Ele está ali, mas não é “dali”. Pense em uma grande mineradora na Amazônia ou em uma plataforma de petróleo no litoral. Frequentemente, a tecnologia, os engenheiros, os gerentes e até parte da comida vêm de São Paulo ou do exterior. O lucro gerado vai para acionistas em Nova York ou Londres. A relação com a pequena cidade ao lado é “escassa”.

Qual das ações listadas nas alternativas reflete essa lógica de “trazer de fora”?

  • Criar vilas operárias, promover eventos comunitários, recuperar áreas degradadas e incorporar saberes tradicionais são todas ações que AUMENTAM a relação com o entorno, que integram a empresa à comunidade. Elas são o oposto da lógica do enclave.
  • Importar mão de obra qualificada, por outro lado, é a ação que personifica o enclave. Em vez de investir na formação da população local, a empresa traz seus especialistas de fora. Isso reforça a barreira entre a empresa e a comunidade, mantém o conhecimento técnico “dentro de casa” e solidifica a imagem de que a empresa é um mundo à parte.

🚨 ARMADilha CLÁ-SSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais comum aqui é ter uma visão idealizada do que uma grande empresa deveria fazer. Ao ler as alternativas, nosso “bom-mocismo” nos atrai para as opções (B) e (C), “promoção de eventos comunitários” e “recuperação de áreas degradadas”. Essas são ações de responsabilidade social que gostaríamos que as empresas fizessem. Mas a armadilha é não responder ao que a questão pede. A questão não pergunta o que seria bom, mas sim qual ação reflete a forma de territorialização apresentada no texto, que é a do enclave isolado.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O enclave industrial se caracteriza por sua baixa integração local e alta integração extralocal. Portanto, suas ações típicas envolverão a busca de recursos (humanos, tecnológicos, financeiros) fora do seu entorno imediato.
    • Expectativa: A alternativa correta deve descrever uma ação que demonstre essa dependência de recursos externos e a falta de engajamento com os recursos locais.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) Criação de vilas operárias.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Ação de Integração, não de Isolamento. A construção de moradia para os trabalhadores, embora possa criar um espaço controlado, gera uma forte interação e dependência do território local.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) Promoção de eventos comunitários.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Ação de Integração, não de Isolamento. É a definição de estabelecer relações com o entorno, o oposto de “relações escassas”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) Recuperação de áreas degradas.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Ação de Integração, não de Isolamento. Demonstra um compromisso com o ambiente local, o que contradiz a lógica do enclave.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) Incorporação de saberes tradicionais.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Ação de Integração, não de Isolamento. Seria a forma mais profunda de se relacionar com o entorno, valorizando sua cultura. O oposto do enclave.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) Importação de mão de obra qualificada.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. É a ação que demonstra que a empresa não depende e não investe nos recursos humanos locais para suas funções estratégicas, buscando-os em sua rede “extralocal”.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (E) é a correta, pois a importação de cérebros é a assinatura de uma empresa que se instala em um território não para se integrar a ele, mas para usá-lo como uma mera plataforma para suas operações globais.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O enclave industrial é uma nave espacial que aterrissa em um planeta, mas nunca abre as escotilhas para os nativos entrarem.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O conceito de enclave econômico se conecta diretamente com a Teoria dos Sistemas-Mundo, do sociólogo Immanuel Wallerstein. Para Wallerstein, o capitalismo global é dividido em um “centro” (países desenvolvidos), uma “periferia” (países subdesenvolvidos) e uma “semiperiferia”. Os enclaves industriais, muitas vezes, são “pedaços” do centro instalados na periferia. Uma fábrica de alta tecnologia em um país em desenvolvimento funciona com a lógica, a tecnologia e o pessoal do “centro”. Ela não transfere tecnologia nem desenvolve a economia local de forma integrada; ela apenas extrai recursos (matéria-prima, mão de obra barata, incentivos fiscais) da periferia e envia o lucro para o centro. A “importação de mão de obra qualificada” é um mecanismo que garante que o know-how e o controle permaneçam nas mãos do centro, perpetuando a relação de dependência.

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