TEXTO I
Macaulay enfatizou o glorioso acontecimento representado pela luta do Parlamento contra Carlos I em prol da liberdade política e religiosa do povo inglês; significou o primeiro confronto entre a liberdade e a tirania real, primeiro combate em favor do Iluminismo e do Liberalismo.
ARRUDA, J. J. A. Perspectiva da Revolução Inglesa. Rev. Bras. Hist. n. 7, 1984 (adaptado)
TEXTO II
A Revolução Inglesa, como todas as revoluções, foi causada pela ruptura da velha sociedade, e não pelos desejos da velha burguesia. Na década de 1640, camponeses se revoltaram contra os cercamentos, tecelões contra a miséria resultante da depressão e os crentes contra o Anticristo a fim de instalar o reino de Cristo na Terra.
HILL. C. Uma revolução burguesa? Rev. Bras. Hist. n. 7. 1984 (adaptado)
A concepção de Revolução Inglesa apresentada no Texto II diferencia-se da do Texto I ao destacar a existência de
A) pluralidade das demandas sociais.
B) homogeneidade das lutas religiosas.
C) unicidade das abordagens históricas.
D) superficialidade dos interesses políticos.
E) superioridade dos aspectos econômicos.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto
- Historiografia (Comparação de Correntes Históricas)
- História Moderna (Revolução Inglesa)
Tema/Objetivo Geral: Comparar duas interpretações historiográficas distintas sobre as causas da Revolução Inglesa, diferenciando uma visão mais focada na elite política de uma visão que valoriza a participação popular e a diversidade de motivações.
Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige a habilidade de ler dois textos, sintetizar a tese de cada um e, então, identificar a principal diferença entre essas teses. Não é uma simples busca por informações, mas um exercício de análise comparativa.
Gabarito: A) pluralidade das demandas sociais.
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o Texto I apresenta a revolução como um conflito singular e de elite (Parlamento vs. Rei por “liberdade”), enquanto o Texto II a descreve como um fenômeno multifacetado, impulsionado por uma variedade de grupos sociais (camponeses, tecelões, crentes), cada um com suas próprias e distintas reivindicações.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A missão é clara: qual é a grande novidade, o ponto de vista diferente que o Texto II (de Christopher Hill) traz para a mesa quando comparado ao Texto I (de Macaulay)?
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que a Revolução Inglesa é um grande incêndio.
- O Historiador 1 (Macaulay) diz: “O incêndio foi causado por um duelo épico entre dois gigantes: o Bombeiro da Liberdade (o Parlamento) e o Dragão da Tirania (o Rei Carlos I). Foi uma briga de gente grande por grandes ideais.”
- O Historiador 2 (Hill) diz: “Não foi bem assim. O ‘duelo dos gigantes’ era só uma parte da história. O incêndio, na verdade, começou com um monte de pequenas chamas espalhadas por toda a cidade. Havia o fogo da revolta dos camponeses no campo, o fogo da fome dos tecelões na oficina e o fogo do fanatismo religioso na igreja. A briga dos ‘gigantes’ foi apenas o que aconteceu quando todos esses pequenos fogos se juntaram.”
- O verdadeiro desafio aqui é entender que a grande diferença é que o Historiador 2 nos mostra que não havia um único foco de incêndio, mas vários.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar o Laudo I: Quem são os protagonistas e qual é o motivo da luta, segundo Macaulay?
- Analisar o Laudo II: Quem são os protagonistas e quais são os motivos da luta, segundo Hill?
- Confrontar os Laudos: Qual é a principal diferença entre os dois elencos de personagens e suas motivações?
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é uma Tabela Comparativa de Teses Historiográficas.
| Aspecto da Análise | TEXTO I (Macaulay – Visão “Whig”/Liberal) | TEXTO II (Christopher Hill – Visão “Marxista”/Social) |
| Protagonistas da Revolução | O Parlamento (representando “o povo inglês” de forma abstrata). | Vários grupos: “camponeses”, “tecelões”, “crentes”. |
| O Inimigo | Carlos I (a “tirania real”). | A “velha sociedade” (a estrutura social e econômica que gerava os problemas). |
| As Causas / Motivações | Uma única e nobre causa: a “luta […] em prol da liberdade política e religiosa“, “em favor do Iluminismo e do Liberalismo”. | Múltiplas e concretas causas:<br>- Camponeses: contra os “cercamentos”.<br>- Tecelões: contra a “miséria”.<br>- Crentes: contra o “Anticristo”. |
| Natureza do Conflito | Um confronto político e ideológico entre elites. | Uma ruptura social impulsionada por diversas frentes de descontentamento. |
Conclusão da Tabela: A divergência é gritante. O Texto I pinta um quadro de um conflito único, de cima para baixo, por ideias abstratas. O Texto II pinta um quadro de múltiplos conflitos, de baixo para cima, por necessidades materiais e espirituais concretas. A palavra que resume a visão de Hill é pluralidade.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A investigação do Texto I revela uma visão “clássica” e heroica. É uma história de bem contra o mal, liberdade contra tirania. Os atores são instituições (Parlamento, Coroa) e os motivos são grandes ideais (Iluminismo, Liberalismo). É uma narrativa limpa, focada na elite política.
O Texto II chega para “sujar” essa narrativa. Christopher Hill, um historiador de tradição marxista, joga o holofote para fora do Parlamento e olha para o povo comum. Ele nos diz que a revolução não foi causada pelos “desejos da burguesia”, mas pela “ruptura da velha sociedade”.
E o que causou essa ruptura? Não foi uma ideia, mas uma série de dores muito reais de grupos diferentes:
- A dor do camponês perdendo sua terra.
- A dor do tecelão passando fome.
- A dor (ou fervor) do crente querendo instalar o reino de Deus.
A grande diferença, portanto, é que Hill não vê uma única revolução, mas várias revoluções acontecendo ao mesmo tempo, cada uma com sua própria pauta, sua própria demanda social. A concepção de Hill é pluralista.
🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (E): “superioridade dos aspectos econômicos”. Por ser um historiador de inspiração marxista, é fácil assumir que Hill daria primazia total à economia. Mas a armadilha é não ler o texto com atenção. Hill lista os tecelões (motivação econômica), mas também lista os camponeses (motivação de terra/social) e os crentes (motivação religiosa). Seu argumento é sobre a pluralidade das causas, não sobre a superioridade de uma sobre as outras.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O Texto I apresenta uma visão monolítica da revolução, focada em um único conflito político. O Texto II apresenta uma visão multifacetada, destacando a existência de vários conflitos sociais simultâneos.
- Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, capturar essa ideia de multiplicidade, variedade ou pluralidade de causas e atores, que é a marca da segunda visão.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
A) pluralidade das demandas sociais.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Pluralidade” (várias) de “demandas sociais” (as diferentes pautas dos camponeses, tecelões e crentes). É exatamente o que diferencia a visão de Hill da de Macaulay.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
B) homogeneidade das lutas religiosas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na menção aos “crentes”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O Texto II mostra que as lutas não eram homogêneas, pois havia também as lutas dos camponeses e dos tecelões, que eram de natureza socioeconômica.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) unicidade das abordagens históricas.
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente invertida do propósito da questão.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A questão parte do pressuposto de que as abordagens são diferentes, e não únicas ou iguais.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) superficialidade dos interesses políticos.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor acha que, por focar no social, Hill despreza o político.
- O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência. Hill não diz que os interesses políticos são “superficiais”. Ele diz que a revolução foi causada também por outros fatores. Ele complexifica, não superficializa.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) superioridade dos aspectos econômicos.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. O argumento de Hill é sobre a pluralidade de causas, incluindo a religiosa, e não sobre a primazia exclusiva da economia.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (A) é a correta, pois a grande contribuição da visão de Christopher Hill é nos mostrar que a Revolução Inglesa não foi uma peça de teatro com dois atores principais no palco do Parlamento, mas um drama caótico com um elenco enorme espalhado por todo o país.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Macaulay viu a revolução como um duelo de esgrima; Hill a viu como uma briga de bar, com todo mundo quebrando cadeiras por motivos diferentes.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A divergência entre as duas visões é um exemplo clássico da tensão entre a “História Política” tradicional e a “História Social” (ou “História vista de baixo”). A conexão surpreendente é com a Medicina. Por muito tempo, a história de uma doença era contada a partir da perspectiva dos grandes médicos e cientistas (Pasteur, Fleming) – uma “história vista de cima”. Hoje, a Epidemiologia Social faz um trabalho análogo ao de Christopher Hill: ela estuda como as doenças se manifestam de forma diferente em diferentes classes sociais, etnias e gêneros, mostrando que a “ruptura da velha sociedade” (pobreza, falta de saneamento, desigualdade) é, muitas vezes, uma causa mais profunda da disseminação de uma epidemia do que o próprio micróbio. Em ambos os casos, a análise sai do laboratório/parlamento e vai para a rua, para entender as múltiplas causas sociais do fenômeno.