Questão 77, caderno azul do ENEM 2018

A presunção de que a superfície das chapadas e chapadões representa uma velha peneplanície é
corroborada pelo fato de que ela é coberta por acumulações superficiais, tais como massas de areia, camadas de
cascalhos e seixos e pela ocorrência generalizada de concreções ferruginosas que formam uma crosta laterítica,
denominada “canga”.

WEIBEL, L. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br. Acesso em: 8 jul. 2015 (adaptado).

Qual tipo climático favorece o processo de alteração do solo descrito no texto?

A) árido, com déficit hídrico.
B) subtropical, com baixas temperaturas.
C) temperado, com invernos frios e secos.
D) tropical, com sazonalidade das chuvas.
E) equatorial, com pluviosidade abundante.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Geografia Física (Geomorfologia e Pedologia).
  • Climatologia (Climas do Brasil).
  • Processos de Intemperismo (Laterização).

Tema/Objetivo Geral:
Relacionar a formação de estruturas pedológicas específicas (Canga/Laterita) com o regime de chuvas e temperaturas do clima Tropical Típico (Cerrado).

Nível da Questão:
Médio.
Por que? O aluno precisa saber o que é “canga” (laterita) e conhecer o processo químico que a forma (laterização), associando-o obrigatoriamente à alternância de estações (chuva e seca).

Gabarito:
Letra D.
A alternativa está correta pois o Clima Tropical (quente e com estações bem marcadas) fornece os dois ingredientes para a formação da canga: muita chuva no verão para “lavar” o solo (lixiviação) e uma seca forte no inverno para oxidar e endurecer o ferro na superfície.


🕵️‍♂️ Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: O texto descreve o topo de uma chapada. Lá em cima, o solo é cheio de ferro, duro como pedra (a tal “canga” ou crosta laterítica). A questão pergunta: Qual clima tem a “receita” certa para cozinhar esse tipo de chão?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central):
    • Imagine que você quer fazer um tijolo.
    • Primeiro, você precisa de água e barro para fazer a massa (intemperismo químico/chuva).
    • Depois, você precisa de sol/calor seco para assar o tijolo e deixá-lo duro (estação seca).
    • Se só chover (Equatorial), vira lama. Se só fizer sol (Árido), vira poeira. Para fazer a “crosta dura” (canga), você precisa de Chuva E Sol alternados.
  • Nosso Plano de Ataque:
    1. Entender o que é a “Canga” (ferrugem acumulada).
    2. Analisar o processo de Laterização (a lavagem do solo).
    3. Encontrar o clima que tem a característica “Chove-Seca-Chove-Seca”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a formação da laterita, vamos usar a Tabela da Química do Solo.

Processo O que acontece? Clima Necessário Resultado Visual
Intemperismo Físico A rocha quebra em pedaços (areia). Árido / Desértico. Areia solta, dunas.
Intemperismo Químico (Lixiviação) A água dissolve e leva embora os minerais leves (Silício, Potássio). Muito Úmido (Tropical/Equatorial). Solo profundo e pobre.
Laterização (Formação de Canga) Após a lavagem, sobra o “pesado” (Ferro e Alumínio). Na seca, isso “enferruja” e endurece. Tropical Sazonal (Chuva intensa + Seca intensa). Solo vermelho, duro, crosta de ferro.

Conceito Chave: A Canga é basicamente uma carapaça de óxidos de ferro e alumínio. Ela protege o topo da chapada da erosão, mantendo-a plana enquanto o entorno desgasta. É a “armadura” do Planalto Central.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  • O Cenário: O texto fala de “Chapadas”. No Brasil, quando falamos de Chapadas (Guimarães, Veadeiros, Diamantina), estamos geralmente no domínio do Cerrado.
  • O Indício Forense: O texto cita “concreções ferruginosas” e “crosta laterítica”. Isso é o resultado da concentração de metais no solo.
  • A Mecânica:
    • No Verão (Chuva): A água infiltra, dissolve os nutrientes bons e leva embora (lixiviação). O solo fica ácido e com muito metal (Ferro/Alumínio).
    • No Inverno (Seca): A água evapora ou desce o lençol freático. O ferro que sobrou oxida e cimenta a superfície, criando a crosta dura.
  • A Dedução: Precisamos de um clima com sazonalidade (uma estação úmida para lavar e uma seca para endurecer).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a Letra E (Equatorial). O clima equatorial também gera latossolos (solos profundos e lixiviados), mas como chove o ano todo, o processo de endurecimento superficial (formação da crosta de canga) é menos favorecido do que no clima Tropical, onde a estação seca drástica atua como um “forno” para consolidar os óxidos de ferro.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O processo descrito é a laterização. Ele exige calor e alternância hídrica (molha/seca).
  • Expectativa: Procuramos o clima “Tropical” ou algo que mencione “sazonalidade” ou “verão chuvoso e inverno seco”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) árido, com déficit hídrico.

  • Análise: No clima árido, falta o ingrediente principal: água. Sem água, não há intemperismo químico nem lixiviação. A rocha apenas se quebra mecanicamente (termoclastia), não formando crostas químicas ferruginosas.
  • Diagnóstico do Erro: Falta de Reagente. Sem água, não há reação química para formar laterita.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) subtropical, com baixas temperaturas.

  • Análise: O intemperismo químico adora calor. Temperaturas baixas desaceleram as reações químicas. Além disso, o clima subtropical tem chuvas bem distribuídas, sem a estação seca marcante necessária para a formação da canga típica das chapadas centrais.
  • Diagnóstico do Erro: Incompatibilidade Térmica. Frio inibe a laterização intensa.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

C) temperado, com invernos frios e secos.

  • Análise: Similar ao anterior. Climas temperados formam outros tipos de solo (como podzóis), mas não favorecem a concentração massiva de óxidos de ferro e alumínio na superfície, processo típico de zonas intertropicais quentes.
  • Diagnóstico do Erro: Localização Geográfica. Laterização é fenômeno tropical, não temperado.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) tropical, com sazonalidade das chuvas.

  • Análise: Perfeito. O clima Tropical Típico (ou Continental) tem duas estações definidas: Verão chuvoso (intensa lixiviação/lavagem dos minerais leves) e Inverno seco (oxidação e endurecimento dos minerais metálicos pesados que sobraram, formando a canga). É o clima do Cerrado, onde estão as chapadas.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

E) equatorial, com pluviosidade abundante.

  • Análise: O clima equatorial gera solos lixiviados (pobres), sim. Porém, a falta de uma estação seca definida dificulta a formação da crosta dura superficial descrita (canga). A umidade constante mantém o solo sempre úmido, favorecendo a formação de latossolos profundos, mas sem a “cimentação” típica da sazonalidade tropical.
  • Diagnóstico do Erro: Ausência de Ciclo de Secagem. Falta a estação seca para consolidar a crosta.
  • Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / DISTRATOR. (Ambos são climas quentes e úmidos que geram solos ácidos, mas a sazonalidade é a chave da canga).

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A crosta de ferro (“canga”) que blinda o topo das chapadas é a cicatriz geológica deixada pelo ritmo do Clima Tropical, que lava a terra na chuva e a assa na seca.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🧱 O Forno do Cerrado: Chuva faz a massa, Seca assa o tijolo. Resultado: Chão duro e vermelho.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Economia (Mineração)!
Sabe o que é essa “crosta laterítica” rica em ferro e alumínio? Muitas vezes é minério puro! As grandes jazidas de Bauxita (alumínio) e Ferro (Carajás e Quadrilátero Ferrífero) são resultados desse processo de laterização que ocorreu ao longo de milhões de anos em climas tropicais. O “defeito” do solo para a agricultura (dureza/acidez) é a riqueza da mineração.

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