O cântico da terra
Eu sou a terra, eu sou a vida.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste e o pão de tua casa.
E um dia bem distante a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio tranquilo dormirás.
Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
CORALINA, C. Textos e contextos: poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo: Global, 1997 (fragmento).
No contexto das distintas formas de apropriação da terra, o poema de Cora Coralina valoriza a relação entre
A) grileiros e controle territorial.
B) meeiros e divisão do trabalho.
C) camponeses e uso da natureza.
D) indígenas e manejo agroecológico.
E) latifundiários e fertilização do solo.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto Poético
- Figuras de Linguagem (Personificação/Prosopopeia)
- Geografia Agrária (Relações de Trabalho no Campo)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um poema que personifica a Terra para identificar qual relação de apropriação do solo está sendo valorizada.
- Nível da Questão: Fácil.
- A questão se resolve pela identificação dos dois personagens centrais do poema: a Terra, que fala em primeira pessoa (“Eu sou a terra”), e o lavrador, a quem ela se dirige (“A ti, ó lavrador”). A relação descrita entre eles é de trabalho direto, sustento e pertencimento, o que aponta diretamente para o universo camponês.
- Gabarito: C
- A alternativa está correta porque o poema é construído como um diálogo (ou monólogo dirigido) entre a Terra personificada e o “lavrador”. A Terra se oferece como fonte de vida e sustento, e o lavrador é aquele que a trabalha diretamente (“Teu arado, tua foice”). Essa relação íntima e de subsistência, baseada no trabalho manual e no ciclo da vida, é a que define a relação entre os camponeses e o uso da natureza.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “No poema, a própria Terra está falando. Ela se dirige a um tipo específico de pessoa que trabalha nela. Qual é o tipo de relação entre o homem e a terra que o poema está elogiando e valorizando?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que uma casa antiga pudesse falar. Ela não diria: “Eu pertenço ao especulador imobiliário que me comprou e me deixou fechada”. Ela diria: “Eu pertenço à família que vive aqui, que cuida de mim, que conserta meus vazamentos, que cria seus filhos nos meus quartos. Eu dou a eles abrigo, e eles me dão vida”. O poema de Cora Coralina é a “Casa Terra” falando. Ela valoriza a relação com quem mora nela e cuida dela com as próprias mãos (o camponês), e não com quem apenas a possui no papel.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar os Interlocutores: Quem está falando no poema e para quem está falando?
- Analisar a Relação Proposta: Como a Terra se descreve e o que ela oferece ao seu interlocutor?
- Definir o Perfil do Interlocutor: Com base no que ele recebe e nas ferramentas que usa, quem é o “lavrador”?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve a relação entre esses dois personagens.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Análise do “Contrato” entre a Terra e o Lavrador. Vamos dissecar o diálogo para entender os termos dessa relação.
O “CONTRATO” POÉTICO
- A PARTE 1: A TERRA (A Doadora)
- Quem ela é? “Eu sou a terra, eu sou a vida.”
- O que ela oferece? “tudo quanto é meu.”
- Ferramentas: “Teu arado, tua foice, teu machado.” (Ela é a fonte dos materiais).
- Sustento da Família: “O berço pequenino de teu filho.”
- Necessidades Básicas: “O algodão de tua veste e o pão de tua casa.”
- Acolhimento Final: “a mim tu voltarás […] tranquilo dormirás.”
- Natureza da Relação: Maternal, provedora, cíclica.
- A PARTE 2: O LAVRADOR (O Receptor e Cuidador)
- Quem ele é? O interlocutor direto (“A ti, ó lavrador”). É o homem que trabalha a terra.
- O que ele faz? Usa o arado, a foice, o machado.
- O Chamado à Ação: “Plantemos a roça. Lavremos a gleba.”
- Natureza da Relação: De trabalho direto, dependência e, por fim, integração total (retorno à terra).
Conclusão Forense: O “contrato” descrito não é comercial nem de exploração. É um pacto de vida e reciprocidade entre a natureza (a Terra) e o trabalhador que vive dela e para ela (o camponês).
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa análise do “contrato” já resolveu o caso. O poema celebra uma visão idealizada da vida no campo.
- A figura do “lavrador” é a do camponês, o pequeno agricultor que tem uma relação direta e de subsistência com a terra que cultiva.
- A Terra não é vista como uma mercadoria a ser explorada, mas como uma “mãe” provedora.
- As ferramentas citadas (“arado”, “foice”, “machado”) são instrumentos de trabalho manual, reforçando a imagem do camponês.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (E), “latifundiários e fertilização do solo”. O candidato pode associar “terra” e “agricultura” com a imagem poderosa do agronegócio. O erro é não perceber que o perfil do trabalhador descrito no poema (o “lavrador” com sua “foice”) e a relação dele com a terra (quase familiar, de pertencimento) são o exato oposto da figura do latifundiário, que representa a grande propriedade, a produção em larga escala e uma relação impessoal e comercial com a terra.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o poema descreve uma relação de simbiose entre a Terra, personificada como uma mãe, e o pequeno trabalhador rural que a cultiva com suas próprias mãos.
- Expectativa: A alternativa correta deve nomear esse trabalhador (camponês) e descrever sua relação com a Terra (uso da natureza).
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) grileiros e controle territorial.
- A “Narrativa do Erro”: Uma associação aleatória com um problema agrário.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Grileiros representam a apropriação ilegal e predatória da terra. O poema descreve uma relação de amor e reciprocidade, o exato oposto.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) meeiros e divisão do trabalho.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em um tipo específico de trabalhador rural.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A meação é um sistema de parceria onde o trabalhador divide a produção com o dono da terra. O poema não menciona essa relação de trabalho ou qualquer divisão; a relação descrita é direta entre o homem e a Terra, como se ele fosse o dono ou parte dela.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) camponeses e uso da natureza.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. “Camponeses” é o termo que melhor define o “lavrador” descrito. “Uso da natureza” descreve perfeitamente a relação de trabalho e sustento que ele mantém com a Terra.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- D) indígenas e manejo agroecológico.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa a relação harmoniosa com a natureza aos povos indígenas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação Indevida. Embora a relação descrita seja semelhante à de muitas culturas indígenas, o poema usa termos do universo camponês luso-brasileiro (“lavrador”, “roça”, “gleba”) e não faz nenhuma referência explícita a povos indígenas ou a técnicas agroecológicas específicas.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) latifundiários e fertilização do solo.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, associando “terra” com “agronegócio”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Como analisado, a figura do latifundiário (grande proprietário, relação impessoal) é o oposto do “lavrador” a quem a Terra se dirige com afeto no poema.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. “O cântico da terra” é uma ode à visão de mundo camponesa, onde a terra não é um bem a ser possuído, mas um ser vivo com o qual se estabelece uma relação de trabalho, respeito e pertencimento.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A Terra não fala com seu dono, fala com seu parceiro.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de personificar a natureza para valorizar uma relação de cuidado e reciprocidade é uma estratégia central do Marketing Ecológico (Green Marketing). Uma empresa que vende produtos sustentáveis não diz apenas “nosso produto não polui”. Ela cria campanhas onde a “Mãe Natureza” agradece ao consumidor pela sua escolha. Ao dar voz à natureza e mostrá-la como uma entidade que sente e reage às nossas ações, a publicidade busca criar um laço afetivo e de responsabilidade, incentivando um “uso” mais consciente. A técnica poética de Cora Coralina é a mesma de um publicitário engajado na causa ambiental.