Montaigne deu o nome para um novo gênero literário; foi dos primeiros a instituir na literatura moderna um espaço privado, o espaço do “eu”, do texto íntimo. Ele cria um novo processo de escrita filosófica, no qual hesitações, autocríticas, correções entram no próprio texto.
COELHO, M. Montaigne. São Paulo: Publifolha, 2001 (adaptado).
O novo gênero de escrita aludido no texto é o(a)
A) confissão, que relata experiências de transformação.
B) ensaio, que expõe concepções subjetivas de um tema.
C) carta, que comunica informações para um conhecido.
D) meditação, que propõe preparações para o conhecimento.
E) diálogo, que discute assuntos com diferentes interlocutores.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Teoria da Literatura (Gêneros Literários)
- História da Filosofia (Michel de Montaigne, Humanismo)
- Interpretação de Texto
- Tema/Objetivo Geral: Analisar a descrição de um estilo de escrita para identificar o gênero literário correspondente, neste caso, o ensaio de Montaigne.
- Nível da Questão: Fácil.
- A questão se resolve pela identificação de características muito específicas que definem o ensaio. O texto fornece uma “lista de ingredientes” (“espaço do eu”, “hesitações, autocríticas, correções”) e a alternativa (B) apresenta o nome do “prato” que corresponde exatamente a essa receita.
- Gabarito: B
- A alternativa está correta porque o texto descreve as características fundamentais do gênero ensaio, criado por Montaigne: um texto que não busca apresentar uma verdade final, mas que expõe o próprio processo de pensamento do autor (concepções subjetivas), incluindo suas dúvidas, contradições e reflexões íntimas sobre um tema.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto descreve um novo gênero literário inventado por Montaigne. Ele tem três características principais: 1) é um espaço para o ‘eu’, íntimo e privado; 2) é filosófico; 3) mostra o processo de pensar, com dúvidas e correções. Qual das cinco opções é o nome desse gênero?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a diferença entre uma palestra e uma conversa com um amigo inteligente. Na palestra, o orador apresenta um argumento fechado, linear, sem mostrar suas dúvidas. Na conversa, seu amigo explora uma ideia, pensa em voz alta, diz “quer dizer, pensando bem…”, se corrige, hesita. É um processo mais orgânico e pessoal. Montaigne inventou um gênero que é como essa conversa filosófica consigo mesmo, colocada no papel. A questão nos pede o nome dessa “conversa”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Criar o “Retrato Falado”: Vamos listar as características do “novo gênero” descritas no texto.
- Consultar o “Arquivo de Gêneros”: Vamos analisar as definições de cada um dos cinco gêneros suspeitos (as alternativas).
- Fazer a Comparação: Vamos comparar o nosso “retrato falado” com as definições do arquivo para encontrar a correspondência exata.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é construir o raciocínio juntos para identificar o gênero. Vamos usar um Diálogo Mentor-Aluno.
- 🕵️♂️ Mentor: “Detetive, o texto nos dá várias pistas sobre o ‘novo gênero literário’ de Montaigne. Qual é a primeira e mais importante característica?”
- 🧠 Aluno: “O texto diz que é um ‘espaço privado, o espaço do ‘eu’, do texto íntimo’. Então, o foco é na visão pessoal do autor.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Exato. É um gênero subjetivo. Agora, qual a segunda característica? Ele é sobre o quê?”
- 🧠 Aluno: “É um ‘processo de escrita filosófica‘. Então, não é só um diário sobre o que aconteceu no dia, mas uma reflexão sobre um tema.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Perfeito. E a terceira pista, que é a mais inovadora. Como é o estilo dessa escrita? Ele apresenta ideias prontas e perfeitas?”
- 🧠 Aluno: “Não, pelo contrário. O texto diz que ‘hesitações, autocríticas, correções entram no próprio texto’. Ele mostra o pensamento em construção, com suas dúvidas.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Exato. Agora junte as pistas: um gênero que é uma reflexão subjetiva sobre um tema, e que se caracteriza por ser uma tentativa, um experimento de pensar, e não uma verdade final. Qual dos gêneros nas alternativas se encaixa nesse perfil?”
- 🧠 Aluno: “A palavra ‘ensaio’ vem do francês essai, que significa ‘tentativa’. Parece ser a única que se encaixa em todas as características, especialmente na ideia de ser um processo, e não um resultado final.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Caso encerrado. Você identificou o suspeito com precisão. O gênero é o ensaio. É com essa certeza que vamos analisar as outras alternativas.”
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nosso diálogo já resolveu o caso. O texto descreve com precisão a revolução de Montaigne.
- Antes dele, a filosofia era escrita em tratados sistemáticos (como os de Aristóteles) ou em diálogos (como os de Platão), sempre buscando uma verdade objetiva e final.
- Montaigne inaugura uma nova forma: a filosofia do “eu”. Ele parte de si mesmo, de suas experiências e incertezas, para refletir sobre a condição humana.
- O fato de as “hesitações e autocríticas” fazerem parte do texto é a grande novidade. Ele não nos dá o peixe, ele nos mostra o ato de pescar, com todas as suas dificuldades.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (A), “confissão”. O candidato lê “espaço privado, do eu” e pode pensar nas Confissões de Santo Agostinho ou Rousseau. O erro é não perceber a diferença de propósito. A confissão é, em geral, uma narrativa da vida do autor, focada em uma transformação moral ou espiritual. O ensaio não é uma autobiografia; é uma reflexão sobre um tema (a amizade, a morte, a educação) a partir da perspectiva do eu.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o texto descreve um gênero filosófico, subjetivo e que expõe o processo de pensamento do autor.
- Expectativa: A alternativa correta deve ser “ensaio”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) confissão, que relata experiências de transformação.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. A confissão é focada na narrativa da vida do autor. O ensaio é focado na reflexão sobre um tema, usando a vida do autor como ponto de partida. O texto não menciona “transformação” como elemento central.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) ensaio, que expõe concepções subjetivas de um tema.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente o gênero: a exposição de “concepções subjetivas” (“espaço do eu”) sobre um “tema” (a parte “filosófica” do processo).
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- C) carta, que comunica informações para um conhecido.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em outra forma de escrita íntima.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Estrutura. A carta pressupõe um interlocutor específico (“um conhecido”). O ensaio, embora íntimo, é um texto público, dirigido a um leitor universal.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) meditação, que propõe preparações para o conhecimento.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca no aspecto reflexivo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. A meditação (no sentido filosófico, como as de Descartes) é um exercício metódico para se chegar a uma certeza. O ensaio de Montaigne é o oposto: é a celebração da dúvida, da “hesitação”, e não uma preparação para a certeza.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) diálogo, que discute assuntos com diferentes interlocutores.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em um gênero filosófico clássico.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto enfatiza o “espaço privado, o espaço do ‘eu’”. O ensaio é um monólogo interior, um diálogo consigo mesmo, e não com “diferentes interlocutores” externos, como no diálogo platônico.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. Este caso celebra a genialidade de Montaigne, que, ao criar o ensaio, inventou não apenas um gênero, mas uma forma de pensar: a filosofia como uma jornada de autoconhecimento, e não como a posse de uma verdade final.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O filósofo tradicional te entrega um mapa; Montaigne te convida para caminhar com ele enquanto ele desenha o mapa.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo espírito do ensaio de Montaigne — pessoal, reflexivo, mostrando o pensamento em processo — é a base do blog moderno e do “textão” de rede social em sua melhor forma. Quando um autor escreve um post longo e pessoal, compartilhando suas dúvidas, experiências e reflexões sobre um tema (seja política, tecnologia ou a vida), ele está, essencialmente, escrevendo um ensaio. O blog e a timeline se tornaram os novos “espaços privados” onde a escrita do “eu” encontra um público, seguindo a tradição que Montaigne inaugurou há mais de 400 anos.