Com efeito, até a destruição de Cartago, o povo e o Senado romano governavam a República em harmonia e sem paixão, e não havia entre os cidadãos luta por glória ou dominação; o medo do inimigo mantinha a cidade no cumprimento do dever. Mas, assim que o medo desapareceu dos espíritos, introduziram-se os males pelos quais a prosperidade tem predileção, isto é, a libertinagem e o orgulho.
SALÚSTIO. A conjuração de Catilina/A guerra de Jugurta. Petrópolis: Vozes, 1990 (adaptado).
O acontecimento histórico mencionado no texto de Salústio, datado de I a.C., manteve correspondência com o processo de
A) demarcação de terras públicas.
B) imposição da escravidão por dívidas.
C) restrição da cidadania por parentesco.
D) restauração de instituições ancestrais.
E) expansão das fronteiras extrapeninsulares.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História Antiga (República Romana, Guerras Púnicas)
- Interpretação de Texto Histórico-Filosófico
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um texto do historiador Salústio para conectar um evento específico (a destruição de Cartago) ao processo histórico mais amplo do qual ele faz parte (a expansão imperial de Roma).
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige um conhecimento prévio de História: saber que Cartago era uma potência rival de Roma, localizada fora da Península Itálica (no norte da África), e que sua destruição foi o clímax das Guerras Púnicas, um conflito pela hegemonia no Mediterrâneo.
- Gabarito: E
- A alternativa está correta porque a “destruição de Cartago” foi o evento que concluiu as Guerras Púnicas, um longo conflito entre Roma e a cidade-estado de Cartago (na atual Tunísia). A vitória romana nesse conflito marcou a consolidação de seu poder fora da Península Itálica, ou seja, foi um momento decisivo na expansão das fronteiras extrapeninsulares de Roma, que se tornou a potência dominante do Mediterrâneo.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto usa o evento ‘destruição de Cartago’ como um ponto de virada na história de Roma. A qual grande processo histórico esse evento pertence?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a história da Guerra Fria. A “queda do Muro de Berlim” foi um evento específico e marcante. Mas a qual processo histórico maior ela corresponde? Corresponde ao processo de colapso da União Soviética e ao fim da bipolaridade mundial. O evento (queda do muro) é um sintoma e um marco do processo (fim da Guerra Fria). A questão nos pede para fazer a mesma conexão: a “destruição de Cartago” foi o evento; qual foi o processo?
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar o Evento-Chave: Qual é o acontecimento histórico que o texto usa como marco temporal?
- Acionar o Banco de Dados Histórico: Quem era Cartago? Onde ficava? Por que Roma a destruiu?
- Conectar o Evento ao Processo: O que a vitória sobre Cartago significou para Roma em termos geográficos e políticos?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas descreve corretamente esse processo maior.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Análise da Tese Histórica de Salústio. Vamos decompor o argumento do autor.
A TESE DE SALÚSTIO: O “MEDO DO INIMIGO”
- FASE 1: ANTES da Destruição de Cartago
- Condição: Havia um grande inimigo externo, poderoso e ameaçador (Cartago).
- Consequência Interna: O “medo do inimigo” mantinha a união. O povo e o Senado governavam “em harmonia”, sem corrupção (“luta por glória ou dominação”). A ameaça externa forçava a coesão interna.
- O PONTO DE VIRADA: A Destruição de Cartago (146 a.C.)
- Análise Histórica: Este evento marca o fim das Guerras Púnicas e a vitória total de Roma sobre sua maior rival. Roma se torna a única superpotência do Mediterrâneo, controlando territórios fora da Itália (extrapeninsulares) como a Sicília, a Hispânia e o Norte da África.
- FASE 2: DEPOIS da Destruição de Cartago
- Condição: “o medo desapareceu dos espíritos”. Não havia mais um inimigo externo à altura.
- Consequência Interna: A prosperidade e a falta de ameaças levaram à decadência moral. Surgiram a “libertinagem e o orgulho”, ou seja, a corrupção e as lutas internas pelo poder.
Conclusão Forense: A tese de Salústio usa a destruição de Cartago como o marco que inicia a crise da República Romana. Mas, para o nosso caso, o fato mais importante é o que esse evento representa objetivamente na história: o clímax da expansão de Roma para fora da Península Itálica.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa análise já revelou a conexão.
- O evento: Destruição de Cartago.
- O contexto: Fim das Guerras Púnicas, um conflito pela dominação do Mediterrâneo.
- A consequência geopolítica: Roma anexa os territórios cartagineses no Norte da África e consolida seu controle sobre outras províncias fora da Itália.
- O nome do processo: Expansão das fronteiras extrapeninsulares (extra = fora; peninsulares = da Península Itálica).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é se concentrar apenas na consequência moral descrita por Salústio (a “libertinagem e o orgulho”) e procurar uma alternativa que fale sobre crise de valores. O erro é não perceber que a questão pergunta sobre o processo histórico ao qual o evento corresponde, e não sobre os efeitos internos que Salústio descreve. O evento é um fato geopolítico, e a resposta deve ser geopolítica.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação histórica mostra que a destruição de Cartago foi o ponto culminante das Guerras Púnicas.
- Expectativa: A alternativa correta deve ser o processo histórico que descreve o resultado dessas guerras para Roma.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) demarcação de terras públicas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em outra questão importante da República Romana, a questão agrária.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora a distribuição de terras fosse um grande problema interno em Roma, ela não é o processo histórico diretamente associado à guerra contra Cartago.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) imposição da escravidão por dívidas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em outra característica social de Roma.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A escravidão por dívidas foi uma questão social importante, mas ligada aos conflitos entre patrícios e plebeus, e não diretamente à guerra externa contra Cartago.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) restrição da cidadania por parentesco.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa nas complexas leis de cidadania romana.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. As regras de cidadania não são o processo histórico correspondente às Guerras Púnicas.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) restauração de instituições ancestrais.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode interpretar a nostalgia de Salústio por uma Roma “pura” como um desejo de restauração.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto descreve uma transformação e o surgimento de novos problemas (“libertinagem e orgulho”), o oposto de uma “restauração” de costumes antigos.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) expansão das fronteiras extrapeninsulares.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente o significado geopolítico da vitória sobre Cartago: a consolidação do poder de Roma para além de suas fronteiras originais na Península Itálica e o início de seu grande império mediterrâneo.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. Este caso ilustra como um único evento histórico pode ser analisado por diferentes ângulos: para o historiador militar, é uma vitória; para o historiador moral como Salústio, é o início da decadência; e para o geógrafo histórico, é um marco na expansão territorial.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Ao destruir Cartago, Roma apagou seu maior rival do mapa e começou a redesenhar o mapa do mundo com suas próprias fronteiras.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A tese de Salústio, de que o “medo de um inimigo externo” promove a união interna, é um conceito central na Ciência Política e nas Relações Internacionais. Durante a Guerra Fria, o “medo do inimigo” comunista uniu os países ocidentais sob a liderança dos EUA (formando a OTAN), e o “medo do inimigo” capitalista uniu os países do leste sob a liderança da URSS (formando o Pacto de Varsóvia). Muitos analistas argumentam que, após o fim da União Soviética (a “destruição de Cartago”), os EUA e a Europa, sem um inimigo claro, passaram a enfrentar mais divisões internas e crises de identidade, um eco da mesma dinâmica que Salústio descreveu há mais de dois mil anos.