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Questão 53, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

Famoso por ser o encantador de viúvas da cidade de Cabaceiras, na Paraíba, Zé de Sila é um contador de histórias parecido com o personagem Chicó, do Auto da Compadecida. Ele defende veementemente que a oração da avó sustentava mais a chuva. “Quando era pequeno e chovia por aqui, ajudava minha avó colocando os pratos emborcados no terreiro para diminuir o vento. Ela fazia isso e rezava para a chuva durar mais”, diz Zé de Sila.

GALDINO, V.; BARBOSA, R. C. Artistas por um dia? João Pessoa: Editora Universitária, 2009.

A destacar expressões e vivências populares do cotidiano, o texto mobiliza os seguintes aspectos da diversidade regional:

A) Alianças afetivas conectadas a ritual matrimonial.

B) Práticas místicas associadas a patrimônio cultural.

C) Manifestações teatrais atreladas a imaginário político.

D) Narrativas filmicas relacionadas às intempéries climáticas.

E) Argumentações literárias interligadas às catástrofes ambientais.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Antropologia Cultural (Rituais, Misticismo, Patrimônio Imaterial)
  • Cultura Popular Brasileira

Tema/Objetivo Geral: Identificar e classificar as manifestações culturais populares descritas em um texto.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige que o leitor traduza uma cena concreta (rezar e virar pratos para a chuva) em conceitos abstratos (práticas místicas, patrimônio cultural). A alternativa (C) é uma distratora inteligente, pois a menção a “Chicó” pode levar o leitor a focar no aspecto teatral, exigindo discernimento para perceber o foco principal do relato.

Gabarito: B) Práticas místicas associadas a patrimônio cultural.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o ato de rezar e de manipular objetos (pratos emborcados) com o objetivo de influenciar um fenômeno natural (a chuva) é, por definição, uma prática mística. E o fato de ser um saber passado pela avó, ligado à vida da comunidade, a caracteriza como parte do patrimônio cultural daquela região.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é clara: temos que olhar para a história contada por Zé de Sila e dar o “nome técnico” aos fenômenos que ela descreve. O que é, em termos culturais, uma avó que reza e vira pratos para a chuva durar mais?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você é um antropólogo visitando uma tribo desconhecida e observa um ritual: o pajé dança, canta e faz oferendas para invocar a chuva. Você anota em seu caderno: “Observei hoje uma prática mística (a crença de que a dança influencia o tempo) que faz parte do patrimônio cultural desta comunidade (é um conhecimento tradicional, passado de geração em geração)”. A história de Zé de Sila é exatamente um relato desse tipo, só que a “tribo” é o sertão da Paraíba e a “pajé” é a sua avó.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Isolar a Prática: Qual é a ação central descrita na memória de Zé de Sila?
    2. Classificar a Natureza da Prática: Essa ação é de que tipo? Científica? Artística? Religiosa/Mística?
    3. Determinar a Origem da Prática: É um conhecimento individual e inventado na hora, ou algo tradicional e coletivo?

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Análise Antropológica do Relato, que nos ajudará a classificar os elementos da cena.

🕵️‍♂️ ANÁLISE ANTROPOLÓGICA: O RITUAL DA CHUVA

  • O Agente: A avó de Zé de Sila.
  • O Objetivo do Ritual: Influenciar um fenômeno natural (“para a chuva durar mais”).
  • Os Procedimentos do Ritual:
    1. Componente Mágico/Simbólico: “colocando os pratos emborcados no terreiro para diminuir o vento”. (Não há uma relação de causa e efeito científica aqui. É um ato simbólico, baseado em uma crença).
    2. Componente Religioso/Espiritual: “Ela fazia isso e rezava“. (Apelo a uma força superior).
  • Classificação da Prática:
    • A combinação de reza e atos simbólicos para interagir com o sobrenatural ou influenciar a natureza é a definição de uma prática mística.
  • Análise da Origem:
    • É um saber da avó, o que indica uma tradição familiar e comunitária. É uma “vivência popular”.
    • Conhecimentos, práticas e crenças passados de geração em geração, que formam a identidade de um povo, são a definição de patrimônio cultural (neste caso, imaterial).

Conclusão da Análise: A cena descrita é a de uma prática mística que pertence ao patrimônio cultural da região.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A chave da investigação é a ação da avó. Ela não está usando um barômetro ou um anemômetro. Suas ferramentas são pratos e orações. A crença de que virar um prato pode “diminuir o vento” não se baseia na física, mas na fé, em um conhecimento tradicional que conecta o mundo doméstico (o prato) ao mundo cósmico (o vento). Isso é misticismo popular.

Da mesma forma, a oração para a chuva durar mais é um ato de fé. Juntas, essas ações formam um pequeno ritual doméstico.

Onde entra o patrimônio cultural? Zé de Sila, ao contar essa história, está agindo como um guardião da memória. Ele está garantindo que essa prática, essa “vivência popular” de sua avó, não se perca. Ele a transforma em narrativa e a passa adiante, garantindo sua permanência como parte da cultura daquele lugar.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C): “Manifestações teatrais atreladas a imaginário político”. A comparação inicial de Zé de Sila com “o personagem Chicó, do Auto da Compadecida” é a isca. O leitor pode focar nessa referência e desviar toda a sua análise para o campo do teatro. Mas a armadilha é confundir a descrição do narrador (Zé de Sila) com a história que ele conta. A comparação com Chicó serve para caracterizar Zé de Sila como um “contador de causos”, mas o “causo” em si não é sobre teatro nem sobre política; é sobre a avó e a chuva.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que o núcleo do texto é a descrição de um ritual popular que mistura crença, religiosidade e uma relação particular com a natureza, sendo este um saber tradicional da comunidade.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, combinar os conceitos de crença/misticismo com os de tradição/cultura/patrimônio.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) Alianças afetivas conectadas a ritual matrimonial.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor associa “ritual” com “casamento”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não fala de casamento nem de alianças, a não ser a do neto com a avó, que não é matrimonial.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) Práticas místicas associadas a patrimônio cultural.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Práticas místicas” (rezar e virar pratos para controlar o tempo). “Patrimônio cultural” (saber popular, da avó, que reflete a identidade da região).
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) Manifestações teatrais atreladas a imaginário político.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir o Narrador com a Narrativa. A comparação com Chicó descreve o contador de histórias, mas não a história em si, que não tem elementos teatrais ou políticos.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) Narrativas filmicas relacionadas às intempéries climáticas.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor associa “Auto da Compadecida” com o filme, e “chuva” com “intempéries”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Não há menção a “narrativas fílmicas” no relato de Zé de Sila.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) Argumentações literárias interligadas às catástrofes ambientais.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a preocupação com a chuva como um tema de catástrofe ambiental.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência. O texto não fala de catástrofe (pelo contrário, a chuva é bem-vinda), nem se trata de uma “argumentação literária”, mas de um relato de memória popular.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois o relato de Zé de Sila é uma pequena janela para a riqueza do imaginário popular, onde a fé e o gesto simbólico são ferramentas tão concretas quanto a enxada para lidar com as incertezas da natureza.

Resumo-flash (A Imagem Mental): No sertão, a meteorologia da avó era feita com um prato na terra e uma prece no céu.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A prática descrita no texto é um exemplo de Pensamento Mágico, um conceito estudado pela Antropologia e pela Psicologia. O pensamento mágico, definido por teóricos como Frazer e Piaget, é a crença de que os pensamentos ou ações simbólicas de uma pessoa podem influenciar o curso de eventos no mundo físico. Longe de ser “primitivo” ou “infantil”, o pensamento mágico é uma ferramenta cognitiva poderosa para dar um senso de controle e agência em situações de grande incerteza, como a dependência da chuva para a sobrevivência. O ritual da avó não é apenas uma superstição; é uma estratégia psicológica para lidar com a ansiedade e afirmar a capacidade humana de interagir com o cosmos, mesmo quando a ciência diz que isso é impossível.

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