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Questão 52, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

Durante os anos de 1854-55, o governo brasileiro – por meio de sua representação diplomática em Londres – e os livre-cambistas ingleses – nas colunas do Daily News e na Câmara dos Comuns – aumentaram a pressão pela revogação da Lei Aberdeen. O governo britânico, entretanto, ainda receava que, sem um tratado anglo-brasileiro satisfatório para substituí-la, não haveria nada que impedisse os brasileiros de um dia voltarem aos seus velhos hábitos.

BETHELL, L. A abolição do comércio brasileiro de escravos. Brasília: Senado Federal, 2002 (adaptado).

As tensões diplomáticas expressas no texto indicam o interesse britânico em

A) estabelecer jurisdição conciliadora.

B) compartilhar negócios marítimos.

C) fomentar políticas higienistas.

D) manter a proibição comercial.

E) promover o negócio familiar.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • História do Brasil (Segundo Reinado, Questão Christie, Fim do Tráfico Negreiro)
  • História Geral (Imperialismo Britânico no Século XIX)

Tema/Objetivo Geral: Analisar as tensões diplomáticas entre Brasil e Grã-Bretanha no contexto do fim do tráfico de escravos, identificando o interesse primordial britânico.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige conhecimento prévio do que foi a Lei Aberdeen e o que eram os “velhos hábitos” do Brasil. Sem esse contexto histórico, a interpretação do texto fica comprometida. O leitor precisa saber que “velhos hábitos” é um eufemismo para o tráfico de escravos.

Gabarito: D) manter a proibição comercial.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o texto afirma explicitamente que o receio britânico era que, sem a Lei Aberdeen, “não haveria nada que impedisse os brasileiros de um dia voltarem aos seus velhos hábitos“, que, no contexto, se refere ao comércio de escravos. Portanto, o interesse era manter essa atividade comercial proibida.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é clara: descobrir o que o governo britânico realmente queria ao resistir à pressão para revogar a Lei Aberdeen. Qual era a sua principal preocupação?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o Brasil é um vizinho que tinha o péssimo hábito de fazer festas barulhentas e ilegais (o tráfico de escravos). Você, o síndico britânico, cansado de reclamar, instalou uma câmera de segurança potentíssima na porta dele, que te dava o direito de entrar e acabar com a festa a qualquer momento (a Lei Aberdeen). Agora, o vizinho e outros moradores (os livre-cambistas) pedem para você tirar a câmera. Sua resposta é: “Eu até tiro, mas estou com medo de que, sem a câmera, você volte a dar suas festinhas”. O verdadeiro desafio aqui é entender que o objetivo do síndico não é a câmera em si, mas garantir que as festas ilegais não voltem a acontecer.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Identificar as Partes em Conflito: Quem queria o quê na negociação?
    2. Decodificar o Eufemismo: O que significa a expressão “velhos hábitos” do Brasil?
    3. Determinar o Interesse Britânico: Com base no medo que eles expressavam, qual era seu objetivo final?

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Ficha de Análise Diplomática, que nos ajudará a organizar os interesses de cada ator.

🕵️‍♂️ FICHA DE ANÁLISE: A QUESTÃO ABERDEEN

  • Lei em Disputa: Lei Aberdeen.
  • Função da Lei: Permitir que a Marinha Britânica agisse como uma polícia internacional para reprimir o tráfico de escravos, inclusive em águas brasileiras.
  • Atores e Seus Interesses:
    • Governo Brasileiro: Queria a revogação da lei.
      • Motivo: A lei feria a soberania nacional. O Brasil queria ser o responsável por policiar suas próprias águas.
    • Livre-cambistas Ingleses: Queriam a revogação da lei.
      • Motivo: A lei criava tensões e atrapalhava o comércio geral com o Brasil.
    • Governo Britânico:Resistia à revogação.
      • Motivo (A Pista Chave): “ainda receava que […] não haveria nada que impedisse os brasileiros de um dia voltarem aos seus velhos hábitos.”
  • Decodificação dos “Velhos Hábitos”:
    • O principal “hábito” comercial do Brasil que a Inglaterra vinha combatendo há décadas era o comércio transatlântico de pessoas escravizadas.
  • Conclusão da Análise: A preocupação central do governo britânico não era manter a lei por si só, mas usar a ameaça da lei para garantir que o comércio de escravos permanecesse proibido na prática.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A investigação do texto mostra um cabo de guerra. De um lado, Brasil e uma parte dos ingleses (os livre-cambistas) puxam a corda para acabar com a Lei Aberdeen. Do outro lado, o governo britânico resiste.

A chave para entender a resistência britânica está no medo que eles sentiam. Qual era o medo? Que o Brasil voltasse aos “velhos hábitos”. O Brasil tinha muitos “hábitos”, mas no contexto da Lei Aberdeen – uma lei especificamente criada para combater o tráfico de escravos – o “velho hábito” em questão só pode ser um: o comércio de africanos escravizados.

Portanto, a lógica britânica era simples: a Lei Aberdeen era o cadeado que mantinha a porta do tráfico fechada. Eles só aceitariam tirar o cadeado se tivessem certeza de que o Brasil não iria reabrir aquela porta. Seu interesse primordial era, portanto, manter a proibição comercial do tráfico de escravos.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais comum aqui é se perder nos termos e não fazer a conexão histórica necessária. Um leitor que não sabe o que foi a Lei Aberdeen pode ficar confuso sobre quais “negócios” ou “proibições” o texto se refere. A armadilha é ler o texto de forma isolada, sem ativar o conhecimento prévio sobre o tema, que é o combate ao tráfico negreiro, a principal pauta da política externa britânica para o Brasil no século XIX.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a resistência britânica em revogar a Lei Aberdeen era estratégica. A lei era um instrumento de pressão para garantir o cumprimento de um objetivo maior: o fim definitivo do tráfico de escravos para o Brasil.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, refletir esse objetivo de manter o fim do tráfico de escravos, que era uma proibição de um tipo específico de comércio.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) estabelecer jurisdição conciliadora.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a busca por um “tratado satisfatório” como um desejo de conciliação.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A Lei Aberdeen era o oposto de uma jurisdição conciliadora; era uma imposição unilateral de poder. O interesse britânico era manter o poder de coerção.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) compartilhar negócios marítimos.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa que o conflito era sobre comércio em geral.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão. O conflito não era sobre “compartilhar” negócios, mas sobre proibir um negócio específico e altamente lucrativo (o tráfico).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) fomentar políticas higienistas.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor associa a época com ideias de “higiene social”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não tem nenhuma relação com políticas de saúde ou higienismo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) manter a proibição comercial.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. O “velho hábito” era um comércio. O objetivo britânico era garantir que ele permanecesse proibido. A alternativa descreve a situação com precisão.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) promover o negócio familiar.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor faz uma associação sem base no texto.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Não há nenhuma menção a “negócio familiar” no contexto da disputa.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois o texto mostra que, para o Império Britânico, a Lei Aberdeen era menos uma questão de legalidade internacional e mais uma ferramenta pragmática para garantir que a porta para o comércio de escravos no Brasil permanecesse fechada e trancada.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A Inglaterra estava disposta a devolver as chaves da casa (revogar a lei), desde que o Brasil prometesse nunca mais dar aquela festa ilegal (o tráfico).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A postura da Grã-Bretanha no texto é um exemplo clássico do conceito de “Soft Power” e “Hard Power” na teoria das Relações Internacionais, de Joseph Nye. A Lei Aberdeen era um instrumento de Hard Power: o uso da força militar (a Marinha) para coagir o Brasil. No entanto, a pressão britânica também tinha uma dimensão de Soft Power: o discurso humanitário e a pressão moral contra a escravidão. O texto mostra a tensão entre esses dois instrumentos. Os livre-cambistas preferiam usar apenas o Soft Power (a influência econômica e cultural) para não prejudicar os negócios. O governo, mais cético, acreditava que sem a ameaça do Hard Power, o Brasil não cumpriria os acordos, mostrando como as nações poderosas frequentemente combinam força e influência para atingir seus objetivos de política externa.

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