Questão 48 caderno verde ENEM 2017 Libras 1° Dia

Getúlio libertou o povo, e são 8 horas de trabalho e só. Não tinha que trabalhar dia e noite mais não. Getúlio é que fez as leis. A princesa Isabel assinou a libertação, mas quem nos libertou do jugo da escravatura, do chicote, do tronco, foi Getúlio, Getúlio Dorneles Vargas. Papai falava assim: “Meu filho. Nunca houve no mundo governo igual a esse, meu filho”.

Relato de Cornélio Cancino, 82 anos, descendente de ex-escravos, Juiz de Fora (MG), 9 maio 1995. In: MATTOS, H.; RIOS, A. L. (Org.). Memórias do cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-Abolição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005 (adaptado)

A construção da memória apresentada no texto remete ao seguinte aspecto da referida experiência política:

A)Fortalecimento da ideologia oficial, limitada à dimensão da escola.
B) Legitimação de coligações partidárias, vinculadas à utilização do rádio.
C) Estabelecimento de direitos sociais, associados à propaganda do Estado.
D) Enaltecimento do sentimento pátrio, ligado à consolidação da democracia.
E) Desenvolvimento de serviços públicos, submetidos à direção dos coronéis.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Era Vargas (com foco no Estado Novo: 1937-1945)
    • Trabalhismo e Populismo no Brasil
    • Uso da Propaganda Política
    • Interpretação de Fontes Históricas
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar a construção da memória histórica, conectando um relato pessoal (micro-história) a um projeto político amplo (macro-história).
  • Nível da Questão: Médio.
    • Detalhe: A questão não exige apenas a memorização de fatos (como a criação da CLT), mas a capacidade de interpretar como uma política de Estado foi transformada em uma memória afetiva e pessoal, o que exige um raciocínio mais sofisticado sobre a relação entre governo e sociedade.
  • Gabarito:C) Estabelecimento de direitos sociais, associados à propaganda do Estado.
    • Justificativa Resumida: A alternativa sintetiza perfeitamente o fenômeno descrito: o governo Vargas concedeu direitos trabalhistas (um fato) e usou sua poderosa máquina de propaganda para transformar essa ação em um ato de libertação pessoal, legitimando-se no imaginário popular.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “Olhe para este depoimento cheio de emoção e descubra qual estratégia política do governo Getúlio Vargas foi tão eficaz a ponto de criar esse tipo de memória no povo.”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como analisar o depoimento de um fã de uma marca. O fã não descreve as especificações técnicas do produto, mas a sensação que o produto lhe causa (“mudou minha vida!”). Nosso trabalho é descobrir qual foi a campanha de marketing (a estratégia política) por trás dessa lealdade apaixonada.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Analisar as Pistas no Depoimento: Vamos dissecar o relato do Sr. Cornélio para extrair as palavras-chave e emoções.
  • Conectar com o Contexto Histórico: Vamos cruzar essas pistas com o que sabemos sobre a Era Vargas.
  • Montar o “Retrato Falado”: Antes de olhar os suspeitos (as alternativas), vamos descrever exatamente o que a resposta correta precisa conter.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender como a memória do povo foi forjada, precisamos abrir o dossiê da principal estratégia de Vargas. Vamos usar uma Ficha Técnica para organizar nossas pistas.

🕵️‍♂️ DOSSIÊ DO CASO: O “PAI DOS POBRES”

  • 👤 Sujeito Principal: Getúlio Vargas.
  • 🗓️ Período-Chave: Principalmente o Estado Novo (1937-1945), uma ditadura.
  • 💡 Estratégia Central (Modus Operandi):Trabalhismo.
    • O que é? Uma política de concessão de benefícios e direitos aos trabalhadores urbanos (CLT, salário mínimo, jornada de 8h).
    • Qual o objetivo oculto? Criar uma base de apoio leal ao presidente, atrelar os sindicatos ao Estado e, assim, controlar a classe trabalhadora, evitando greves e agitações sociais. É um controle sutil, disfarçado de proteção.
  • 📣 Ferramenta de Divulgação:Propaganda Estatal (O DIP).
    • O que era? O Departamento de Imprensa e Propaganda, criado para construir e divulgar uma imagem positiva do governo.
    • Como agia? Usava massivamente o rádio, jornais e cartilhas para exaltar Vargas como o grande protetor dos trabalhadores, o “Pai dos Pobres”, aquele que modernizou o Brasil e cuidou do seu povo.
  • 🧠 Efeito na Memória Coletiva: A propaganda transformou uma legislação (leis trabalhistas) em uma dádiva pessoal do líder. A narrativa oficial se sobrepôs à realidade, fazendo com que um direito se parecesse com um favor e um ditador, com um libertador.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos aplicar nosso dossiê ao depoimento do Sr. Cornélio.

  1. Execução do Plano (Análise das Pistas):
    • Pista N° 1: “Getúlio libertou o povo, e são 8 horas de trabalho e só.” -> Isso aponta diretamente para um direito social específico, a jornada de trabalho, um dos pilares da CLT.
    • Pista N° 2: “quem nos libertou do jugo da escravatura… foi Getúlio”. -> Aqui está o pulo do gato! Ele compara a CLT à Lei Áurea. Essa hipérbole, essa elevação de uma lei trabalhista ao status de abolição da escravidão, é o resultado direto da eficácia da propaganda que martelou a imagem de Vargas como o grande “libertador”.
    • Pista N° 3: “Papai falava assim: ‘Nunca houve no mundo governo igual a esse’”. -> Isso mostra como a legitimação do governo se tornou algo pessoal, familiar, passado de pai para filho, consolidando a memória construída pelo Estado.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é ler “libertou o povo” e pensar em democracia ou liberdade política. A armadilha é a alternativa (D), que fala em “consolidação da democracia”. Lembre-se, o Estado Novo era uma DITADURA. A “libertação” mencionada no texto é estritamente social e econômica (das longas jornadas de trabalho), não política (de expressão, de voto, etc.).

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O depoimento é um exemplo perfeito de como a concessão de direitos sociais (trabalhistas) foi amplificada pela propaganda do Estado para criar uma memória afetiva e legitimar um governo autoritário.
    • Expectativa: A alternativa correta TEM que conectar esses dois elementos centrais: DIREITOS SOCIAIS + PROPAGANDA ESTATAL.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar nosso “retrato falado” com os suspeitos.

  • A) Fortalecimento da ideologia oficial, limitada à dimensão da escola.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa “Sim, Vargas tinha uma ideologia oficial”, e a escola era um dos meios.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. O erro está na palavra “limitada”. A propaganda varguista era massiva e onipresente (rádio, jornais, trabalho), não se restringia à escola. Além disso, o texto não menciona a educação.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) Legitimação de coligações partidárias, vinculadas à utilização do rádio.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato lembra que o rádio era importante na Era Vargas.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Erro Histórico e Fuga ao Tema. Durante o Estado Novo, os partidos políticos foram extintos. Não havia “coligações partidárias” para legitimar. O foco do texto não é o meio (rádio), mas a mensagem e seu impacto.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) Estabelecimento de direitos sociais, associados à propaganda do Estado.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa se encaixa perfeitamente na nossa “Expectativa”. Ela menciona o “estabelecimento de direitos sociais” (a causa, a CLT) e os associa à “propaganda do Estado” (o mecanismo que construiu a memória). É a descrição exata do fenômeno.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) Enaltecimento do sentimento pátrio, ligado à consolidação da democracia.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa Vargas ao nacionalismo (“sentimento pátrio”) e à ideia de “libertação” com democracia.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Esta é a armadilha que previmos. O Estado Novo foi uma ditadura, o oposto da “consolidação da democracia”. Embora houvesse um sentimento pátrio, o núcleo do depoimento é a gratidão por um benefício social, não cívico.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) Desenvolvimento de serviços públicos, submetidos à direção dos coronéis.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato mistura vagamente a história do Brasil, lembrando do poder dos coronéis.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Erro Histórico (Anacronismo). O projeto de Vargas foi justamente o de centralizar o poder no Estado federal, diminuindo a autonomia e o poder dos coronéis, que eram uma marca da República Velha (anterior a Vargas).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (C) é a correta, pois o depoimento do Sr. Cornélio é um testemunho vivo do sucesso da estratégia varguista de combinar a concessão de direitos sociais com uma massiva propaganda estatal para construir uma imagem de “pai dos pobres”.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Vargas não entregou apenas uma lei; ele embalou a lei como um presente e usou o rádio para ler o cartão em voz alta para toda a nação.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de associar um produto ou serviço a um valor emocional profundo é a base do Branding Moderno. Pense em como uma empresa de tecnologia não vende apenas um celular, ela vende “status”, “inovação” e “pertencimento a uma tribo”. Vargas fez o “branding” de si mesmo, vendendo não apenas leis trabalhistas, mas a ideia de “libertação” e “paternidade”, criando uma das “marcas” políticas mais duradouras da história do Brasil.

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