Parecia coisa de encanto. A gente deixava de ir uns poucos meses num lugar e quando aparecia lá ficava de boca aberta vendo tudo mudado: casas novas, negócios sortidos como os da Corte, igreja, circo de cavalinhos, botica, e o mato, o que é dele? Trem de ferro ia comendo tudo, tal e qual como na terra brava depois do roçado quando a plantação brota.
COELHO NETTO. Banzo. Porto: Lello e Irmão, 1912.
O relato do texto ressalta o uso da técnica como um instrumento para
A) simplificar o trabalho humano.
B) registrar os hábitos cotidianos.
C) aumentar a produtividade fabril.
D) fortalecer as culturas tradicionais.
E) transformar os elementos paisagísticos

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto.
- Relação entre Tecnologia, Sociedade e Meio Ambiente.
- Tema/Objetivo Geral: Identificar a função da técnica (tecnologia) conforme descrita no fragmento literário.
- Nível da Questão:Médio
- Detalhe: Embora o vocabulário seja simples, a questão exige que o candidato diferencie a ideia central (a transformação do espaço) de ideias secundárias ou tangenciais (como os hábitos ou o trabalho). A alternativa B funciona como um distrator eficaz para quem faz uma leitura mais superficial, elevando o nível de fácil para médio.
- Gabarito:E) transformar os elementos paisagísticos.
- Explicação Resumida: O gabarito está correto porque o foco narrativo do texto é o espanto do observador diante da mudança física e visual do lugar: o “mato” desaparecendo para dar lugar a “casas novas”, “igreja” e outros elementos urbanos, um processo impulsionado pela tecnologia (“trem de ferro”).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pede para identificar qual é o principal resultado ou consequência do uso da tecnologia (a “técnica”) segundo o narrador do texto. O que a tecnologia faz nesse cenário?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como assistir a um vídeo em time-lapse de uma floresta sendo transformada em uma cidade. O vídeo não foca em como os operários trabalham (simplificar o trabalho) ou na vida diária dos novos moradores (hábitos cotidianos), mas sim na mudança drástica da paisagem. A questão quer saber: qual é o grande evento que esse time-lapse está mostrando?
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Identificar o Conflito Central: Vamos encontrar no texto a principal fonte de espanto do narrador. O que o deixa de “boca aberta”?
- Apontar o Agente da Mudança: Qual é a “ferramenta” ou “força” que causa essa mudança?
- Definir a Consequência Final: Juntando os dois pontos, vamos descrever o resultado final dessa ação, que será o perfil da nossa resposta correta.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa que organiza o “Antes e Depois” descrito no texto. Isso nos ajudará a visualizar o impacto da técnica.
| ELEMENTO DE ANÁLISE | O CENÁRIO ORIGINAL (O Passado) | O CENÁRIO NOVO (O Presente) |
| A Paisagem Dominante | O “mato”. Natureza, espaço não modificado. | “Casas novas”, “igreja”, “circo”, “botica”. Espaço construído, urbanizado. |
| A Sensação do Narrador | Familiaridade, um lugar conhecido. | Espanto, surpresa (“boca aberta”). Um lugar que parece “coisa de encanto”. |
| O Motor da Mudança | (Implícito) Ausência da técnica moderna. | A Técnica: O “trem de ferro”, que “ia comendo tudo”. |
| A Conclusão Lógica | Um ambiente natural ou rural. | Um ambiente transformado, urbanizado pela ação humana e tecnológica. |
Essa tabela deixa claro que a história é sobre uma substituição de cenário. A técnica não é um detalhe; ela é a força motriz que redesenha o mapa.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano:
- O Conflito Central: A emoção que guia o texto é o choque com a mudança: “…quando aparecia lá ficava de boca aberta vendo tudo mudado”. O que mudou? O cenário físico. Onde antes havia “mato”, agora há construções humanas.
- O Agente da Mudança: O texto é explícito ao nomear o culpado por essa transformação radical: “Trem de ferro ia comendo tudo”. O trem, um ícone da tecnologia da época, é a personificação da “técnica” mencionada no enunciado.
- A Consequência Final: A ação do trem de ferro (“comer tudo”) resulta na substituição da paisagem natural por uma paisagem urbana, que imita os “negócios sortidos como os da Corte”.
🚨 ARMADILHA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (B) sobre “registrar os hábitos cotidianos”. Por quê? Porque o texto começa com uma lembrança pessoal (“A gente deixava de ir…”), o que nos remete à vida cotidiana. No entanto, esse é apenas o ponto de partida, o gatilho da história. O clímax, o verdadeiro foco do espanto do narrador, não é a mudança nos hábitos, mas a transformação física e visual do lugar. O erro é confundir o contexto inicial com a mensagem principal.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o texto descreve a tecnologia (trem de ferro) como uma força avassaladora que altera fundamentalmente a composição física de um ambiente, substituindo elementos naturais por elementos construídos.
- Expectativa: A alternativa correta DEVE, obrigatoriamente, falar sobre mudança, alteração ou transformação do espaço físico, da paisagem, do cenário.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos confrontar os suspeitos (as alternativas) com o perfil que traçamos.
- A) simplificar o trabalho humano.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que construções como casas e ferrovias são frutos de um trabalho que a tecnologia tornou mais fácil.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não descreve o processo de trabalho ou como ele foi realizado. Ele foca exclusivamente no resultado final: a mudança na paisagem.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) registrar os hábitos cotidianos.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor se apega à primeira frase, que fala sobre a experiência pessoal de voltar a um lugar, o que parece relacionado a hábitos.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever a parte, não o todo). Esta alternativa captura o ponto de partida da narrativa, mas ignora completamente a conclusão e o ponto central do texto, que é o espanto com a transformação física.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) aumentar a produtividade fabril.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “trem de ferro” e “negócios” com a Revolução Industrial e, consequentemente, com fábricas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação. Não há absolutamente nenhuma menção a fábricas ou produção industrial no texto. A análise deve se ater às evidências apresentadas.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) fortalecer as culturas tradicionais.
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura muito desatenta poderia associar “igreja” a algo tradicional.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto sugere o oposto. O “mato” (elemento tradicional/natural) está sendo destruído e substituído por uma modernidade que imita a “Corte”, ou seja, um modelo externo, e não fortalecendo a cultura local.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) transformar os elementos paisagísticos.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa se encaixa perfeitamente na nossa “Expectativa”. O texto descreve a substituição do “mato” (um elemento da paisagem) por “casas novas, negócios, igreja” (novos elementos paisagísticos). A técnica (“trem de ferro”) é o agente direto dessa transformação.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Portanto, a alternativa E é a resposta inquestionável, pois o texto de Coelho Netto utiliza a figura do trem de ferro para ilustrar o poder avassalador da técnica em redesenhar completamente o cenário físico, ou seja, transformar os elementos paisagísticos.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): A tecnologia é o pincel que apaga o mato do quadro e desenha uma cidade por cima.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de transformação da paisagem pela tecnologia pode ser visto na Biologia, especificamente no conceito de espécies invasoras. Assim como o “trem de ferro” é uma força externa que “come” o ecossistema nativo (“mato”) e permite que novas “espécies” (casas, comércios) dominem o ambiente, uma espécie invasora (como um capim exótico) pode ser introduzida em um novo habitat e superar as espécies nativas, alterando radicalmente a paisagem e o funcionamento do ecossistema original. Em ambos os casos, um agente externo remodela a estrutura de um ambiente.