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Questão 48, caderno azul ENEM 2020

Nas últimas décadas, uma acentuada feminização no mundo do trabalho vem ocorrendo. Se a participação masculina pouco cresceu no período pós-1970, a intensificação da inserção das mulheres foi o traço marcante. Entretanto, essa presença feminina se dá mais no espaço dos empregos precários, onde a exploração, em grande medida, se encontra mais acentuada.

NOGUEIRA, C. M. As trabalhadoras do telemarketing: uma nova divisão sexual do trabalho? In: ANTUNES, R. et al.
Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009.

A transformação descrita no texto tem sido insuficiente para o estabelecimento de uma condição de igualdade de oportunidade em virtude da(s):

A)  estagnação de direitos adquiridos e do anacronismo da legislação vigente.

B)  manutenção do status quo gerencial e dos padrões de socialização familiar.

C)  desestruturação da herança patriarcal e das mudanças do perfil ocupacional.

D)  disputas na composição sindical e da presença na esfera político-partidária.

E)  exigências de aperfeiçoamento profissional e de habilidades na competência diretiva.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Sociologia do Trabalho (Divisão Sexual do Trabalho, Precarização)
    • Estudos de Gênero (Patriarcado, Status Quo)
    • Interpretação de Texto
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar o paradoxo da inserção feminina no mercado de trabalho, compreendendo que o aumento quantitativo (mais mulheres trabalhando) não se traduziu em igualdade qualitativa, devido à persistência de estruturas de poder.
  • Nível da Questão: Difícil.
    • A dificuldade não está no texto-base, que é claro, mas na linguagem altamente técnica e abstrata das alternativas. O candidato precisa ser capaz de “traduzir” conceitos como “status quo gerencial” e “padrões de socialização familiar” e conectá-los à realidade da precarização do trabalho feminino.
  • Gabarito: B
    • A alternativa está correta porque a persistência da desigualdade, mesmo com mais mulheres no mercado, se explica por duas frentes: 1) a manutenção do status quo gerencial (os cargos de chefia e poder continuam majoritariamente masculinos, perpetuando a lógica de exploração) e 2) os padrões de socialização familiar (a cultura patriarcal que ainda atribui à mulher a dupla jornada e a responsabilidade primária pelo lar, empurrando-a para empregos mais flexíveis e, consequentemente, mais precários).

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto diz que temos um paradoxo: mais mulheres estão trabalhando (o que parece bom), mas elas continuam presas nos piores empregos (o que é ruim). Por que essa entrada no mercado de trabalho não foi suficiente para criar uma igualdade de verdade? Qual é a causa de fundo que mantém a desigualdade?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que um clube que antes só aceitava homens finalmente abre as portas para as mulheres. Avanço? Sim. Mas, lá dentro, as mulheres descobrem que só podem usar a piscina infantil, que os melhores equipamentos são reservados aos homens e que elas nunca são convidadas para o conselho que toma as decisões. A entrada no clube não foi suficiente para garantir a igualdade. Por quê? Porque as regras de poder não mudaram. A diretoria continua a mesma (manutenção do status quo gerencial) e a cultura do clube ainda acha que “lugar de mulher é na piscina infantil” (padrões de socialização).

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Identificar o Paradoxo: Qual é a contradição apresentada no texto?
  • Analisar a Causa do Problema: Por que a presença feminina se concentra nos “empregos precários”? Vamos usar um dossiê para decifrar os termos-chave.
  • Conectar as Causas: Como a estrutura de poder no trabalho e em casa se combinam para manter a desigualdade?
  • Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve essas causas estruturais.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é um Dossiê de Termos Sociológicos. Ele nos ajudará a “traduzir” a linguagem complexa da alternativa correta.

DOSSIÊ: DECIFRANDO A DESIGUALDADE

  • O PARADOXO:
    • Fato Positivo: “acentuada feminização no mundo do trabalho”.
    • Fato Negativo: Essa presença se dá em “empregos precários” com “exploração mais acentuada”.
  • INVESTIGANDO AS CAUSAS (Tradução da Alternativa B):
    • “Manutenção do status quo gerencial”
    • Status Quo: A situação como ela está, o estado atual das coisas.
    • Gerencial: Relativo aos gerentes, às posições de chefia e poder.
    • Tradução: A estrutura de poder dentro das empresas continua a mesma, com os cargos de decisão majoritariamente ocupados por homens, que tendem a perpetuar um sistema que os beneficia.

Uma imagem poderosa pode transformar um conceito abstrato em uma memória inesquecível. A ilustração a seguir foi criada para visualizar a essência da nossa análise, tornando a ideia central clara e impactante:

(O Teto de Vidro: A Manutenção do Status Quo Gerencial)
A imagem materializa a crítica social da questão ao dividir o ambiente de trabalho em dois mundos opostos: a base, superlotada por mulheres em baias de telemarketing sob luz fria, representa a “feminização” em empregos precários descrita no texto, enquanto o topo, ocupado exclusivamente por homens em uma sala de reuniões luxuosa, ilustra a “manutenção do status quo gerencial” da alternativa B. Esse contraste vertical, separado por um “teto de vidro”, evidencia didaticamente que, embora as mulheres tenham entrado massivamente no mercado de trabalho, elas permanecem retidas em posições de subordinação e exploração, ao passo que o privilégio de comando e decisão continua sendo preservado como um reduto masculino.

Conclusão Forense: O dossiê e a ilustração mostram que a desigualdade persiste porque as estruturas de poder — tanto no trabalho (status quo gerencial) quanto em casa (socialização familiar) — não foram alteradas na mesma velocidade em que as mulheres entraram no mercado.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nosso dossiê já conectou as pistas. A entrada das mulheres no mercado de trabalho foi uma mudança, mas as estruturas de poder resistiram à mudança.

  • A estrutura dentro do trabalho (chefes, diretores) permaneceu a mesma, canalizando as mulheres para as posições de menor prestígio e maior exploração.
  • A estrutura fora do trabalho (a família, a sociedade) também não mudou o suficiente, continuando a sobrecarregar as mulheres com a jornada doméstica e limitando suas opções profissionais.

Essas duas forças, a manutenção do poder masculino no trabalho e a manutenção da divisão sexual do trabalho em casa, explicam por que a maior presença feminina não resultou em igualdade.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha aqui é a alternativa (C). A expressão “desestruturação da herança patriarcal” soa como algo positivo e alinhado à luta feminista. O erro é não perceber que o texto argumenta justamente o contrário: a herança patriarcal ainda não foi desestruturada o suficiente, e é por isso que a desigualdade persiste.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o problema não é a falta de mulheres no mercado, mas a persistência de estruturas de poder (no trabalho e na família) que as mantêm em posições precárias.
  • Expectativa: A alternativa correta deve apontar para a manutenção dessas estruturas de poder como a causa da desigualdade.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) estagnação de direitos adquiridos e do anacronismo da legislação vigente.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca em uma causa legal para a desigualdade.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não discute leis ou direitos. A análise é sociológica, focada na estrutura do trabalho e da sociedade, e não jurídica.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • B) manutenção do status quo gerencial e dos padrões de socialização familiar.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente as duas causas estruturais (poder no trabalho e papéis de gênero em casa) que, conforme nosso dossiê, explicam a persistência da desigualdade.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • C) desestruturação da herança patriarcal e das mudanças do perfil ocupacional.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, lendo a alternativa de forma positiva.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto argumenta que a herança patriarcal ainda não foi desestruturada. Se ela já tivesse sido desestruturada, a igualdade teria sido alcançada.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • D) disputas na composição sindical e da presença na esfera político-partidária.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em outras esferas de luta política das mulheres.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto foca na dinâmica do mercado de trabalho e da família, e não faz nenhuma menção a sindicatos ou partidos políticos.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • E) exigências de aperfeiçoamento profissional e de habilidades na competência diretiva.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode interpretar que a precarização se deve à falta de qualificação das mulheres.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Inversão da Lógica. O texto não sugere que as mulheres são menos qualificadas. Pelo contrário, a canalização para empregos precários ocorre apesar da qualificação. O problema é estrutural, não de competência individual.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. Este caso ilustra uma lição central da sociologia: a mudança social é lenta e desigual; enquanto algumas portas se abrem (acesso ao mercado), outras, as das salas de poder, permanecem teimosamente fechadas.

Resumo-flash (A Imagem Mental): As mulheres entraram na festa, mas o clube do Bolinha continua controlando o som e as bebidas.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de que aumentar a diversidade na base não garante a igualdade no topo é um grande desafio na área de Tecnologia (TI). Muitas empresas de tecnologia fizeram grandes progressos na contratação de mulheres e minorias para cargos de nível júnior. No entanto, ao se olhar para os cargos de liderança (gerentes, diretores, CEOs), a representatividade cai drasticamente. Esse fenômeno, conhecido como “leaky pipeline” (duto furado), mostra que a diversidade “vaza” à medida que se sobe na hierarquia. A causa? A mesma do texto: a manutenção de um status quo gerencial e de uma cultura corporativa (os “padrões de socialização” da empresa) que, sutilmente ou não, dificulta a ascensão de grupos minoritários.

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