A propriedade compreende, em seu conteúdo e alcance, além do tradicional direito de uso, gozo e disposição por parte de seu titular, a obrigatoriedade do atendimento de sua função social, cuja definição é inseparável do requisito obrigatório do uso racional da propriedade e dos recursos ambientais que lhe são integrantes. O proprietário, como membro integrante da comunidade, se sujeita a obrigações crescentes que, ultrapassando os limites do direito de vizinhança, no âmbito do direito privado, abrangem o campo dos direitos da coletividade, visando o bem-estar geral, no âmbito do direito público.
JELINEK, R. O princípio da função social da propriedade e sua repercussão sobre o sistema do Código Civil.
Disponível em: www.mp.rs.gov.br. Acesso em: 20 fev. 2013.
Os movimentos em prol da reforma agrária, que atuam com base no conceito de direito à propriedade apresentado no texto, propõem-se a:
A) reverter o processo de privatização fundiária.
B) ressaltar a inviabilidade da produção latifundiária.
C) defender a desapropriação dos espaços improdutivos.
D) impedir a produção exportadora nas terras agricultáveis.
E) coibir o funcionamento de empresas agroindustriais no campo

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Direito Constitucional (Função Social da Propriedade)
- Geografia Agrária (Reforma Agrária, Estrutura Fundiária Brasileira)
- Sociologia (Movimentos Sociais)
- Interpretação de Texto Jurídico/Filosófico
- Tema/Objetivo Geral: Conectar o conceito jurídico de “função social da propriedade” com a principal reivindicação dos movimentos sociais pela reforma agrária.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige a capacidade de traduzir um conceito legal abstrato (“atendimento de sua função social”, “uso racional”) para uma proposta política concreta (“desapropriação”). O candidato precisa entender que a consequência lógica de não cumprir a função social é a possibilidade de perder a propriedade.
- Gabarito: C
- A alternativa está correta porque o texto define a “função social” como uma obrigação, incluindo o “uso racional da propriedade”. Se uma propriedade não cumpre essa função (ou seja, é um espaço improdutivo), ela está em desacordo com a lei. Os movimentos de reforma agrária se baseiam exatamente nesse princípio para defender a desapropriação (a tomada pelo Estado) dessas terras e sua redistribuição para quem possa torná-las produtivas.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto explica que ter uma propriedade não é só um direito, é também uma responsabilidade. O dono é obrigado a usá-la de forma racional para o bem da coletividade (a ‘função social’). Os movimentos de reforma agrária usam essa ideia como base para suas lutas. Qual das cinco opções é a principal proposta desses movimentos, baseada nessa lógica?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que a propriedade de uma terra é como ter uma concessão para operar um restaurante. Você tem o direito de usar, alugar e vender o restaurante. Mas há uma condição no contrato: o restaurante não pode ficar fechado, abandonado. Ele precisa cumprir sua “função social”, que é servir comida à comunidade. Se um fiscal (o Estado) descobre que seu restaurante está abandonado há anos, apenas acumulando poeira e servindo para especulação imobiliária, ele pode tomar a sua concessão (desapropriar) e passá-la para alguém que queira cozinhar. Os movimentos de reforma agrária são como os grupos que apontam para o fiscal: “Olha! Aquele restaurante gigante está abandonado há anos! Tome a concessão e dê para famílias que querem abrir uma cozinha comunitária!”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Decifrar a “Função Social”: O que o texto diz que o proprietário é obrigado a fazer?
- Identificar o “Crime”: O que acontece quando um proprietário não cumpre essa obrigação?
- Conectar com a Reforma Agrária: Como os movimentos sociais usam essa falha (o “crime”) para justificar sua principal reivindicação?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas descreve corretamente essa reivindicação.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Análise Lógica do Direito de Propriedade, que desmembra o conceito apresentado no texto.
A ANATOMIA DO DIREITO DE PROPRIEDADE (Segundo o Texto)
- PARTE 1: O DIREITO do Titular (O que ele PODE fazer)
- Uso
- Gozo (aproveitar os frutos)
- Disposição (vender, alugar)
- PARTE 2: A OBRIGAÇÃO do Titular (O que ele DEVE fazer) – A CONDIÇÃO
- Atendimento da função social.
- Uso racional da propriedade e dos recursos.
- Visar o bem-estar geral e os direitos da coletividade.
- A LÓGICA IMPLÍCITA (A Consequência da Quebra de Contrato):
- Se a Parte 2 (a Obrigação) não é cumprida, a Parte 1 (o Direito) pode ser questionada.
- Uma propriedade que NÃO cumpre o “uso racional” é uma propriedade IMPRODUTIVA.
- A principal reivindicação dos movimentos de reforma agrária é que o Estado aplique a consequência legal para essa quebra de contrato. Essa consequência é a DESAPROPRIAÇÃO.
Conclusão Forense: O texto estabelece que a propriedade é um direito condicional. A luta pela reforma agrária se concentra na aplicação da penalidade quando essa condição não é cumprida.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa análise já revelou a conexão. O conceito de função social é a “arma” legal e filosófica dos movimentos agrários.
- Eles não argumentam que a propriedade privada deve acabar (A).
- Eles não dizem que toda grande propriedade é inviável (B).
- Eles focam em um critério específico: a produtividade.
- A lógica é: “Se a lei diz que a terra deve ser usada racionalmente, e esta enorme propriedade está abandonada (improdutiva), então a lei deve ser cumprida, e essa terra deve ser desapropriada para quem vai usá-la”.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (B), “ressaltar a inviabilidade da produção latifundiária”. O erro é de precisão. Os movimentos de reforma agrária não criticam o latifúndio por ser “inviável” para produzir — muitos latifúndios são extremamente produtivos (como os de soja para exportação). A crítica central é direcionada ao latifúndio IMPRODUTIVO, aquele que é mantido apenas para especulação ou reserva de valor, sem cumprir sua função social. A improdutividade, e não o tamanho, é o critério para a desapropriação.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o princípio da função social serve de base legal para questionar a manutenção de propriedades que não são utilizadas de forma racional.
- Expectativa: A alternativa correta deve ser a proposta que visa aplicar uma consequência a essas propriedades não utilizadas, ou seja, as improdutivas.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) reverter o processo de privatização fundiária.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa a crítica à propriedade com uma proposta de estatização total.
- O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. A reforma agrária, baseada na função social, não propõe o fim da propriedade privada, mas a sua redistribuição e regulamentação para que ela seja produtiva.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) ressaltar a inviabilidade da produção latifundiária.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, generalizando a crítica a todos os latifúndios.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual. O alvo da reforma agrária não é o latifúndio produtivo, mas o improdutivo. A crítica não é sobre a “inviabilidade”, mas sobre a “ociosidade”.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) defender a desapropriação dos espaços improdutivos.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve com precisão a principal proposta concreta dos movimentos de reforma agrária, que é a aplicação da consequência legal (desapropriação) para as propriedades que não cumprem sua função social (os espaços improdutivos).
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- D) impedir a produção exportadora nas terras agricultáveis.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa a crítica ao latifúndio com uma crítica ao agronegócio exportador.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora haja debates sobre o modelo de produção, a pauta central da reforma agrária baseada na função social é a improdutividade, e não o destino da produção. Um lote de reforma agrária pode, em tese, produzir para exportação.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) coibir o funcionamento de empresas agroindustriais no campo.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato vê a reforma agrária como um movimento anti-empresa.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O alvo não são as “empresas agroindustriais” em si, mas as propriedades improdutivas, que podem ou não pertencer a empresas. A crítica é sobre o uso da terra, não sobre a natureza jurídica do proprietário.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. Este caso ilustra como os movimentos sociais se apropriam de conceitos jurídicos e constitucionais para legitimar suas lutas, transformando um princípio do direito em uma poderosa ferramenta de transformação social.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A função social é a cláusula de “use ou perca” no contrato de propriedade da terra.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio da “função social” como uma limitação a um direito de propriedade é aplicado no campo do Direito Autoral e da Propriedade Intelectual. O direito de um autor sobre sua obra não é absoluto. Ele é limitado no tempo (geralmente 70 anos após a morte do autor, quando a obra entra em domínio público) e no uso (existem exceções para uso educacional, paródia, etc. – o “fair use”). A lógica é a mesma: a sociedade concede um monopólio temporário ao criador (o “direito de propriedade”), mas essa propriedade tem uma função social, que é a de, eventualmente, enriquecer toda a cultura humana. A ideia de que a propriedade deve, em última instância, servir à coletividade, atravessa do campo físico ao intelectual.