Questão 37, caderno azul ENEM 2018

“Acuenda o Pajubá”, conheça o “dialeto secreto” utilizado por gays e travestis

Com origem no iorubá, linguagem foi adotada por travestis e ganhou a comunidade

“Nhaoí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué deixe de equê se não eu puxo teu pícumã!” Entendeu as palavras dessa frase? Se sim, é porque você manja alguma coisa de pajubá, o “dialeto secreto” dos gays e travestis.

Adepto do uso das expressões, mesmo nos ambientes mais formais, um advogado afirma: “É claro que eu não vou falar durante uma audiência ou numa reunião, mas na firma, com meus colegas de trabalho, eu falo de ‘acué’ o tempo inteiro”, brinca. “A gente tem que ter cuidado de falar outras palavras porque hoje o pessoal já entende, né? Tá na internet, tem até dicionário…”, comenta.

O dicionário a que ele se refere é o Aurélia, a dicionário da língua afiada, lançado no ano de 2006 e escrito pelo jornalista Angelo Vip e por Fred Libi. Na obra, há mais de 1 300 verbetes revelando o significado das palavras do pajubá.

Não se sabe ao certo quando essa linguagem surgiu, mas sabe-se que há claramente uma relação entre o pajubá e a cultura africana, numa costura iniciada ainda na época do Brasil colonial.

Disponível em: www.midiamax.com.br. Acesso em 4 de abr. 2017 (adaptado).

Da perspectiva do usuário, o pajubá ganha status de dialeto, caracterizando-se como elemento de patrimônio linguístico, especialmente por

A) ter mais de mil palavras conhecidas.
B) ter palavras diferentes de uma linguagem secreta.
C) ser consolidado por objetos formais de registro.
D) ser utilizado por advogados em situações formais.
E) ser comum em conversas no ambiente de trabalho

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Variação Linguística (Sócio-dialetos e Gírias).
  • Patrimônio Cultural (Material e Imaterial).
  • Interpretação de Texto (Localização de Informação Explícita).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender os processos de legitimação de uma variedade linguística. Entender como o registro escrito (dicionarização) altera o status social de uma linguagem oral.

Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: Embora a resposta esteja no texto, o aluno precisa associar o conceito abstrato de “objetos formais de registro” ao exemplo concreto dado no texto (“dicionário”). Exige uma pequena abstração.

Gabarito:
Letra C – ser consolidado por objetos formais de registro.
Resumo: O texto destaca o lançamento do dicionário Aurélia. Ao colocar o vocabulário oral em um livro (objeto formal), o Pajubá deixa de ser apenas gíria de rua e ganha status de documento cultural/patrimônio.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
A questão pergunta por que o Pajubá ganha status de dialeto e se caracteriza como patrimônio linguístico. Precisamos encontrar no texto o elemento que elevou essa linguagem de um “código secreto” para algo reconhecido e estudado.

A Analogia Central (A Certidão de Nascimento):
Imagine que uma criança nasce (a linguagem surge na rua). Ela existe, brinca, interage. Mas, para o Estado e a História, ela só passa a “existir oficialmente” quando ganha uma Certidão de Nascimento.
Neste caso, o Pajubá é a criança. A questão quer saber: Qual é a certidão de nascimento do Pajubá citada no texto?

Nosso Plano de Ataque:

  1. Ler o texto identificando onde se fala de “status” ou “reconhecimento”.
  2. Localizar o objeto físico mencionado que serve de prova da existência dessa linguagem.
  3. Conectar esse objeto à alternativa que fala sobre “registro”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar o Ciclo de Legitimação Linguística para entender o processo:

  1. Fase Oral/Secreta: A linguagem nasce em um grupo (gays e travestis) para comunicação interna e proteção.
  2. Fase de Expansão: Começa a ser usada fora do grupo estrito (o advogado na firma).
  3. Fase de Consolidação/Registro: 🏛️ Alguém escreve, cataloga e publica as regras e vocábulos. Isso transforma a “fala” em “documento”.

Ferramenta Textual:
O texto cita explicitamente: “O dicionário a que ele se refere é o Aurélia… Na obra, há mais de 1.300 verbetes”.
Dicionário = Objeto Formal de Registro.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear as pistas:

  • Pista 1: O texto diz que é um “dialeto secreto”.
  • Pista 2: O advogado diz que “tem até dicionário”.
  • Pista 3: O texto descreve o dicionário Aurélia, com autores e número de verbetes.

A pergunta é sobre o caráter de patrimônio. Patrimônio é algo que se preserva para o futuro. A fala se perde com o vento; a escrita (o livro/dicionário) fica.
Portanto, o que garante o status sólido de dialeto e patrimônio não é apenas o fato de as pessoas falarem (isso é uso), mas o fato de haver um registro formal (o dicionário) que prova sua complexidade e história.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a Quantidade (Alternativa A)!
Muitos alunos pensam: “Ah, tem 1.300 palavras, é muita coisa, então é um dialeto!”. Cuidado. A quantidade mostra a riqueza, mas não é o fator legitimador principal segundo a ótica de patrimônio. Uma lista de compras tem muitas palavras e não é patrimônio. O que torna patrimônio é a sistematização e o registro histórico dessas palavras em uma obra de referência.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto apresenta o Pajubá e utiliza a existência de um dicionário publicado como prova de sua relevância e consolidação.
  • Expectativa: Devemos buscar a alternativa que fale sobre livros, documentos, dicionários ou registros escritos.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) ter mais de mil palavras conhecidas.

  • Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / O DISTRATOR QUANTITATIVO.
    • Por que atrai: O texto cita “1.300 verbetes”.
    • Por que falha: Ter muitas palavras é uma característica interna do dialeto, mas o que confere o status de patrimônio (algo preservado e reconhecido externamente) é o ato de registrar essas palavras. A quantidade é o conteúdo; o registro é a legitimação.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

b) ter palavras diferentes de uma linguagem secreta.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição.
  • Análise: O texto diz justamente que ele é (ou era) um “dialeto secreto”. O fato de ser secreto ou ter palavras estranhas não o torna patrimônio automaticamente; pelo contrário, patrimônios costumam ser de conhecimento público ou preservados para o público.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

c) ser consolidado por objetos formais de registro.

  • Análise: Perfeito.
    • Objeto formal de registro: O Dicionário Aurélia.
    • Consolidado: Deixou de ser apenas oralidade volátil e virou documento histórico. Isso garante a perenidade necessária para ser considerado patrimônio.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

d) ser utilizado por advogados em situações formais.

  • Diagnóstico do Erro: Erro de Leitura (Falsidade).
  • Análise: O texto diz explicitamente o contrário: “É claro que eu não vou falar durante uma audiência ou numa reunião”. O advogado usa em situações informais na firma, não formais.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

e) ser comum em conversas no ambiente de trabalho.

  • Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / DISTRATOR DE USO.
    • Por que atrai: O texto menciona o uso na firma.
    • Por que falha: O uso no trabalho mostra a popularização do dialeto, mas não necessariamente seu status de patrimônio. Gírias corporativas são comuns no trabalho e não viram patrimônio linguístico nacional. O “dicionário” é a prova cabal da patrimonialização.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Para que uma cultura oral sobreviva à história e seja respeitada como saber estruturado, ela frequentemente precisa atravessar a ponte da escrita. O dicionário é essa ponte.

Resumo-flash: ⚡
“Verba volant, scripta manent: as palavras voam, o dicionário as torna patrimônio.”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O Pajubá é um exemplo incrível de Língua de Resistência e de influência africana (Iorubá/Nagô) no Brasil, assim como o Candomblé. Linguisticamente, ele mostra como grupos marginalizados criam códigos complexos para sobreviver e criar identidade. Estudar Pajubá é estudar a história da resistência LGBTQIA+ e negra no Brasil.

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