Pela primeira vez na vida teve pena de haver tantos assuntos no mundo que não compreendia e esmoreceu. Mas uma mosca fez um ângulo reto no ar, depois outro, além disso, os seis anos são uma idade de muitas coisas pela primeira vez, mais do que uma por dia e, por isso, logo depois, arribou. Os assuntos que não compreendia eram uma espécie de tontura, mas o Ilídio era forte.
Se calhar estava a falar de tratar da cabra: nunca esqueças de tratar da cabra. O Ilídio não gostava que a mãe o mandasse tratar da cabra. Se estava ocupado a contar uma história a um guarda-chuva, não queria ser interrompido. Às vezes, a mãe escolhia os piores momentos para chamá-lo, ele podia estar a contemplar um segredo, por isso, assustava-se e, depois, irritava-se. Às vezes, fazia birras no meio da rua. A mãe envergonhava-se e, mais tarde, em casa, dizia que as pessoas da vila nunca tinham visto um menino tão velhaco. O Ilídio ficava enxofrado, mas lembrava-se dos homens que lhe chamavam reguila, diziam ah, reguila de má raça. Com essa memória, recuperava o orgulho. Era reguila, não era velhaco. Essa certeza dava-lhe forças para protestar mais, para gritar até, se lhe apetecesse.
PEIXOTO, J. L. Livro. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.
No texto, observa-se o uso característico do português de Portugal, marcadamente diferente do uso do português do Brasil. O trecho que confirma essa afirmação é:
A) “Pela primeira vez na vida teve pena de haver tantos assuntos no mundo que não compreendia e esmoreceu.”
B) “Os assuntos que não compreendia eram uma espécie de tontura, mas o Ilídio era forte.”
C) “Essa certeza dava-lhe forças para protestar mais, para gritar até, se lhe apetecesse.”
D) “Se calhar estava a falar de tratar da cabra: nunca esqueças de tratar da cabra.”
E) “O Ilídio não gostava que a mãe o mandasse tratar da cabra.”

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de texto, Variação linguística, Diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal.
📝 Tema/Objetivo Geral: Identificar marcas do português europeu em um texto literário e compreender como a variação linguística se manifesta nas expressões e estruturas gramaticais.
📊 Nível da Questão: Fácil
🎯 Gabarito: D
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
A questão pede para reconhecer no texto um trecho que contenha marcas típicas do português de Portugal, ou seja, expressões e construções que não fazem parte do uso comum do português brasileiro. O objetivo, portanto, é perceber como a variação linguística se revela em elementos lexicais e sintáticos específicos do português europeu.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
A variação linguística ocorre quando diferentes formas de uma mesma língua são utilizadas em contextos distintos, como entre países ou regiões. No caso do português europeu, há vocabulário, construções verbais e expressões idiomáticas diferentes do português brasileiro.
Um exemplo é a expressão “se calhar”, amplamente usada em Portugal com o sentido de “talvez”. Outro traço é o uso de formas verbais como “esqueças” no imperativo negativo, que segue uma norma diferente da brasileira.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O trecho examinado mostra o cotidiano de uma criança portuguesa, com reflexões e pequenas ações descritas em tom poético e subjetivo.
O uso do vocabulário e de certas estruturas verbais entrega a origem europeia do texto. A expressão “se calhar”, por exemplo, não é usada no português do Brasil, o que denuncia claramente a origem lusitana da narrativa.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Para resolver essa questão, o caminho mais seguro é localizar expressões que não soariam naturais no português do Brasil, mesmo mantendo o sentido compreensível.
📌 Entre todas as alternativas, apenas a letra D contém elementos diretamente associados ao português europeu:
– “Se calhar”, que significa “talvez”;
– O uso da forma verbal “esqueças” no imperativo negativo, que seria substituída por “esqueça” no Brasil.
As demais alternativas, embora tenham um tom mais literário, não apresentam construções gramaticais ou vocabulário que evidenciem de forma clara a variação europeia.
Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) “Pela primeira vez na vida teve pena de haver tantos assuntos no mundo que não compreendia e esmoreceu.”
❌ Frase gramaticalmente neutra quanto à variação. Nada que indique o português europeu de forma clara.
B) “Os assuntos que não compreendia eram uma espécie de tontura, mas o Ilídio era forte.”
❌ Linguagem neutra, comum a ambas as variantes da língua.
C) “Essa certeza dava-lhe forças para protestar mais, para gritar até, se lhe apetecesse.”
❌ A forma “lhe apetecesse” é mais frequente em Portugal, mas não é exclusiva. Pode aparecer em registros formais do português brasileiro.
D) “Se calhar estava a falar de tratar da cabra: nunca esqueças de tratar da cabra.”
✅ Correta. Contém duas marcas claras do português europeu: “se calhar” (em vez de “talvez”) e “esqueças” (forma verbal que segue as normas lusitanas).
E) “O Ilídio não gostava que a mãe o mandasse tratar da cabra.”
❌ Estrutura compatível com o português do Brasil, sem marcas evidentes da variante europeia.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 A alternativa correta é a D, pois apresenta duas marcas linguísticas típicas do português europeu: o uso da expressão “se calhar” e a forma verbal “esqueças”. Esses elementos confirmam a origem da fala portuguesa e a proposta da questão de identificar variação linguística entre os usos da língua em diferentes países.
🔍 Resumo Final: A questão exige que o aluno identifique expressões características do português de Portugal. A alternativa D é a única que apresenta duas evidências claras dessa variante: “se calhar” e “esqueças”. As demais são neutras ou aplicáveis ao português do Brasil. Gabarito: D.