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Questão 30, caderno azul do ENEM 2019 – DIA 1

TEXTO I

Estratos

Na passagem de uma língua para outra, algo sempre permanece, mesmo que não haja ninguém para se lembrar desse algo. Pois um idioma retém em si mais memórias que os seus falantes e, como uma chapa mineral marcada por camadas de uma história mais antiga do que aquela dos seres viventes, inevitavelmente carrega em si a impressão das eras pelas quais passou. Se as “línguas são arquivos da história”, elas carecem de livros de registro e catálogos. Aquilo que contém pode apenas ser consultado em parte, fornecendo ao pesquisador menos os elementos de uma biografia do que um estudo geológico de uma sedimentação realizada em um período sem começo ou sem fim definido. 

HELLER-ROAZEN, D. Ecolalias: sobre o esquecimento das línguas. Campinas: Unicamp. 2010.

TEXTO II

Na reflexão gramatical dos séculos XVI e XVII, a influência árabe aparece pontualmente, e se reveste sobretudo de item bélico fundamental na atribuição de rudeza aos idiomas português e castelhano por seus respectivos detratores. Parecer com o árabe, assim, é uma acusação de dessemelhança com o latim.

SOUZA, M. P. Linguística histórica. Campinas: Unicamp, 2006.

Relacionando-se as ideias dos textos a respeito da história e memória das línguas, quanto à formação da língua portuguesa, constata-se que

A) a presença de elementos de outras línguas no português foi historicamente avaliada como um índice de riqueza.

B) o estudioso da língua pode identificar com precisão os elementos deixados por outras línguas na transformação da língua portuguesa.

C) o português é o resultado da influência de outras línguas no passado e carrega marcas delas em suas múltiplas camadas.

D) o árabe e o latim estão na formação escolar e na memória dos falantes brasileiros.

E) a influência de outras línguas no português ocorreu de maneira uniforme ao longo da história.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Língua Portuguesa (História da Língua).
  • Variação e Mudança Linguística.
  • Interpretação de Texto (Comparação de Textos).

Tema/Objetivo Geral:

Compreender a língua não como um objeto estático, mas como um “arquivo vivo” que acumula vestígios (memórias) de outros idiomas e culturas com os quais teve contato ao longo da história.

Nível da Questão

Médio.
Exige a capacidade de relacionar dois textos com abordagens diferentes (um filosófico/metafórico e outro histórico) para extrair uma conclusão única sobre a formação do idioma. Requer abstração para entender a metáfora das “camadas geológicas”.

Gabarito

Letra C.
A língua portuguesa é um produto histórico, formado pela sobreposição e mistura de várias influências (latim, árabe, etc.), que deixam marcas (estratos) no vocabulário e na estrutura, mesmo que os falantes atuais não percebam.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer que você cruze as informações dos dois textos para definir como a língua portuguesa se formou. Ela é pura? Ela é misturada? Como essas misturas aparecem hoje?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine a Língua Portuguesa como um Sítio Arqueológico ou um Bolo em Camadas.

  • Texto I: Diz que a língua tem várias camadas de terra (estratos) de eras passadas, guardando memórias antigas.
  • Texto II: Dá um exemplo prático: “Olha, tem uma camada árabe aqui no meio do português”.
  • Conclusão: O Português é um “Frankenstein” histórico (no bom sentido), feito de pedaços de outras línguas que ficaram grudados nele.
    O verdadeiro desafio aqui é entender que a língua é um “arquivo” involuntário. Nós falamos palavras de origem árabe ou latina sem saber, mas a marca histórica está lá.

Plano de Ataque:

  1. Analisar a Metáfora (Texto I): O que significa “chapa mineral marcada por camadas”? (Acúmulo de história).
  2. Analisar o Exemplo (Texto II): O que a presença do árabe prova? (Que houve contato e influência, mesmo que fosse criticada na época).
  3. Sintetizar: Unir “Camadas” + “Influência Árabe” = O Português é resultado de múltiplas influências acumuladas.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta essencial aqui é a Linguística Histórica.

O DNA do Português:

A língua não nasceu pronta. Ela evoluiu.

  1. A Base: O Latim (trazido pelos romanos).
  2. As Influências (Os Estratos):
    • Germânicos (Invasões bárbaras).
    • Árabes (Ocupação da Península Ibérica por séculos – ex: alface, almofada).
    • Línguas Africanas e Indígenas (Mais tarde, no Brasil).

Conceito-Chave: O Texto I chama isso de Sedimentação. Assim como a terra se acumula sobre um fóssil, novas palavras e regras se acumulam sobre as antigas. O Texto II confirma isso mostrando o “conflito” entre o Latim (prestígio) e o Árabe (visto como rude na época), provando que essas camadas coexistem.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos escavar os textos:

  1. Texto I (A Teoria):“Um idioma retém em si mais memórias que os seus falantes… carrega em si a impressão das eras pelas quais passou”.
    • Isso significa que a língua é um museu. Mesmo que você não saiba quem inventou a palavra “café” (origem árabe: qahwa), a palavra está lá, carregando a história.
  2. Texto II (A Prática):“A influência árabe aparece… item bélico fundamental na atribuição de rudeza”.
    • Isso mostra que o português recebeu influências externas (árabes) e que, no passado, as pessoas brigavam por isso (“Ah, o português é feio porque parece árabe, não latim!”).
  3. A Fusão: Se o Texto I diz que a língua tem camadas e o Texto II mostra a camada árabe no português, a conclusão é: O português carrega marcas de outras línguas em sua estrutura.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O aluno pode focar na parte da “rudeza” ou “item bélico” do Texto II e achar que a influência estrangeira era sempre vista como algo bom (riqueza).
Como não cair: O Texto II diz explicitamente que parecer com o árabe era uma acusação (algo ruim na época). Portanto, cuidado com alternativas que falam em “índice de riqueza” ou valorização positiva histórica. A história real foi cheia de preconceitos linguísticos.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A língua é um palimpsesto (um texto escrito sobre outro), acumulando vestígios de diversas culturas que formaram sua identidade atual.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre “resultado de influências”, “marcas do passado”, “camadas” ou “múltiplas origens”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) a presença de elementos de outras línguas no português foi historicamente avaliada como um índice de riqueza.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição com o Texto II.
  • Análise: O Texto II diz que a influência árabe era usada como “item bélico” para atribuir “rudeza” ao idioma. Ou seja, era vista como um defeito, uma sujeira, e não como riqueza ou beleza na época.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) o estudioso da língua pode identificar com precisão os elementos deixados por outras línguas na transformação da língua portuguesa.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição com o Texto I.
  • Análise: O Texto I é poético e cauteloso: diz que as línguas “carecem de livros de registro” e que é um estudo de “um período sem começo ou sem fim definido”. Ele sugere que não temos precisão absoluta, pois muitas memórias se perderam (“mesmo que não haja ninguém para se lembrar”).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) o português é o resultado da influência de outras línguas no passado e carrega marcas delas em suas múltiplas camadas.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
    • “Resultado da influência” = Conecta com o Texto II (influência árabe).
    • “Carrega marcas em suas múltiplas camadas” = Conecta com a metáfora do Texto I (“chapa mineral marcada por camadas”, “estratos”).
    • Essa alternativa une a teoria de um texto com o exemplo histórico do outro.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

D) o árabe e o latim estão na formação escolar e na memória dos falantes brasileiros.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação (Fuga ao tema).
  • Análise: O texto fala da memória da língua (intrínseca ao sistema), não da memória consciente dos falantes (o que eu e você lembramos). O Texto I diz expressamente: “um idioma retém em si mais memórias que os seus falantes”. Além disso, não se discute “formação escolar”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) a influência de outras línguas no português ocorreu de maneira uniforme ao longo da história.

  • Diagnóstico do Erro: Generalização Indevida.
  • Análise: Processos históricos nunca são uniformes (iguais e constantes). O Texto I fala em “sedimentação realizada em um período sem começo ou sem fim definido”, sugerindo processos complexos e irregulares, não uma linha de montagem uniforme. O Texto II cita séculos específicos (XVI e XVII), indicando momentos pontuais de tensão.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa C é a correta pois reconhece a língua portuguesa como um organismo vivo e histórico, composto por “cicatrizes” e “camadas” deixadas pelo contato com outros povos (como os árabes) ao longo dos séculos.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
A língua não é uma pedra única; é uma rocha sedimentar, feita de grãos de areia romanos, árabes e muitos outros, compactados pelo tempo.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa lógica se aplica perfeitamente ao Português Brasileiro atual. Hoje, estamos adicionando novas “camadas” com a influência do Inglês (delete, mouse, feedback). Daqui a 500 anos, linguistas olharão para trás e verão o “estrato do século XXI” marcado pela tecnologia americana, assim como hoje vemos o “estrato árabe” (século VIII-XV) em palavras como arroz e açúcar. A história se repete.

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