O trabalho não era penoso: colar rótulos, meter vidros em caixas, etiquetá-las, selá-las, envolvê-Ias em papel celofane, branco, verde, azul, conforme o produto, separá-las em dúzias… Era fastidioso. Para passar mais rapidamente às oito horas havia o remédio: conversar. Era proibido, mas quem ia atrás de proibições? O patrão vinha? Vinha o encarregado do serviço? Calavam o bico, aplicavam-se ao trabalho. Mal viravam as costas, voltavam e taramelar. As mãos não paravam, as línguas não paravam. Nessas conversas intermináveis, do linguagem solta e assuntos crus, Loniza se completou. Isabela, Afonsina, Idália, Jurete, Deolinda — foram mestras. O mundo acabou de se desvendar. Leniza perdeu o tom ingênuo que ainda podia ter. Ganhou um jogar de corpo que convida, um quebrar de olhos que promete tudo, à toa, gratuitamente. Modificou-se o timbre de sua voz. Ficou mais quente. A própria inteligência se transformou. Tornou-se mais aguda, mais trepidante.
REBELO,M. A estrela sobe. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.
O romance, de 1939, traz à cena tipos e situações que espelham o Rio de Janeiro daquela década. No fragmento, o narrador delineia esse contexto centrado no
a) julgamento da mulher fora do espaço doméstico.
b) relato sobre as condições de trabalho do Estado Novo.
c) destaque a grupos populares na condição de protagonistas.
d) processo de inclusão do palavrão nos hábitos de linguagem.
e) vínculo entre as transformações urbanas e os papéis femininos.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Literatura Brasileira (Romance de 30 – 2ª Geração Modernista).
- Sociologia (O Trabalho como Agente de Socialização).
- Interpretação de Texto (Relação Indivíduo x Sociedade).
Tema/Objetivo Geral:
Analisar como o ambiente social e o espaço urbano influenciam a formação da personalidade. Compreender o Romance Urbano da década de 30, que sai do campo (seca/engenho) e foca na vida da pequena burguesia e do proletariado no Rio de Janeiro.
Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: O aluno precisa conectar dois pontos: o cenário (fábrica/trabalho urbano) e a consequência psicológica na personagem (mudança de comportamento). As alternativas erradas tocam em temas tangenciais (política, moral), exigindo foco no núcleo do texto.
Gabarito:
Letra E – vínculo entre as transformações urbanas e os papéis femininos.
Resumo: O texto mostra como a inserção da mulher no mercado de trabalho (transformação urbana/industrial) altera sua postura, sua voz e sua malícia, tirando-a da ingenuidade doméstica e inserindo-a na realidade “crua” da rua.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
A Missão:
O enunciado afirma que o romance “espelha o Rio de Janeiro” de 1930. Ele quer saber qual aspecto desse contexto o narrador está desenhando no trecho. Estamos buscando a relação de Causa e Efeito apresentada no parágrafo.
A Analogia Central (A Escola da Vida):
Imagine que a fábrica não é apenas um lugar de “colar rótulos”. Ela é uma “Escola da Vida Real”. Leniza entra lá como uma menina ingênua (caloura) e sai como uma mulher experiente e maliciosa (veterana).
O texto não é sobre a produção de vidros; é sobre a produção de uma nova Leniza.
Nosso Plano de Ataque:
- Observar o ambiente: Trabalho repetitivo, urbano, coletivo.
- Observar a mudança: Leniza perde a ingenuidade, muda a voz, o olhar e a inteligência.
- Conectar os dois: O ambiente urbano transformou a mulher.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ilustração mostra como o trabalho fabril contribuiu para a mudança do papel da mulher na cidade do Rio de Janeiro. No primeiro estágio, ela chega ingênua e com pouca experiência. No segundo, aprende, socializa e cria vínculos com outras operárias. No terceiro estágio, aparece mais segura e independente, simbolizando o nascimento da nova mulher urbana, marcada pela autonomia e participação crescente na vida social.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar a narrativa:
O narrador começa descrevendo o trabalho maçante (“colar rótulos… fastidioso”). Isso situa a cena na modernidade urbana: a mulher saiu de casa e foi para a linha de produção.
Mas o foco muda rapidamente para as conversas.
“Nessas conversas intermináveis… Leniza se completou.”
Aqui está a chave. O trabalho (ambiente urbano) proporcionou o encontro. O encontro proporcionou a troca de experiências (“assuntos crus”).
E o resultado final?
“Leniza perdeu o tom ingênuo… Ganhou um jogar de corpo… A própria inteligência se transformou.”
Ou seja, ao sair do isolamento doméstico e entrar na engrenagem da cidade (trabalho), o papel feminino de Leniza mudou. Ela deixou de ser a menina recatada para ser a mulher que sabe se virar, que tem malícia (“inteligência aguda”). Há um vínculo direto entre estar na cidade trabalhando e mudar quem ela é.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com o julgamento moral!
Ao ler “perdeu o tom ingênuo” ou “jogar de corpo que convida”, o aluno pode achar que o texto está criticando a mulher (chamando-a de vulgar). Não! O narrador está descrevendo um processo de amadurecimento e adaptação. Não projete moralismo onde há apenas análise social.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto narra como a experiência do trabalho coletivo na cidade moldou a personalidade e o corpo da protagonista.
- Expectativa: Devemos buscar a alternativa que une “cidade/trabalho” com “mudança da mulher”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
a) julgamento da mulher fora do espaço doméstico.
- Diagnóstico do Erro: Interpretação Subjetiva (Moralismo).
- Análise: O narrador diz que ela ganhou inteligência “aguda” e voz “quente”. Ele descreve a mudança, mas não emite um veredito de condenação moral (julgamento). Ele expõe o fato, não o condena.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
b) relato sobre as condições de trabalho do Estado Novo.
- Diagnóstico do Erro: Foco no Detalhe Histórico (Extrapolação).
- Análise: Embora o livro seja de 1939 (Estado Novo), o texto foca na socialização das operárias (conversas, comportamento), não nas leis trabalhistas, salários ou repressão política de Vargas.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
c) destaque a grupos populares na condição de protagonistas.
- Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / O GRANDE DISTRATOR.
- Por que atrai: De fato, Leniza e as colegas são de grupos populares e são protagonistas.
- Por que falha: A questão pede o foco da delineação do contexto. O texto não serve apenas para dizer “olha, existem pobres aqui”. Ele serve para mostrar o processo de transformação dessa protagonista. A alternativa (E) é mais completa porque explica o que acontece com esse grupo (a mudança de papéis devido ao meio urbano). A (C) é estática; a (E) é dinâmica, como o texto.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
d) processo de inclusão do palavrão nos hábitos de linguagem.
- Diagnóstico do Erro: Reducionismo.
- Análise: O texto fala de “assuntos crus” e “linguagem solta”, o que sugere palavrões ou temas tabus. Porém, isso é apenas um detalhe da conversa. A mudança em Leniza foi muito maior: física (“jogar de corpo”), vocal (“timbre”) e intelectual. Resumir tudo a “palavrão” é limitar o texto.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
e) vínculo entre as transformações urbanas e os papéis femininos.
- Análise: Perfeito.
- “Transformações urbanas”: O trabalho na fábrica, a vida moderna no Rio.
- “Papéis femininos”: A saída da esfera doméstica para a pública, a perda da ingenuidade, a aquisição de malícia e autonomia intelectual.
- O texto é a ponte entre essas duas coisas.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
A cidade não é apenas um cenário de tijolos; ela é um agente que molda a alma. No Modernismo de 30, o Rio de Janeiro “ensina” seus habitantes a sobreviver, muitas vezes endurecendo a ternura.
Resumo-flash: ⚡
“A fábrica produzia vidros, mas também produzia uma nova mulher: mais esperta, menos santa.”
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este texto dialoga com o conceito de Socialização Secundária da Sociologia. A família faz a socialização primária (ensina valores básicos). O trabalho e a cidade fazem a secundária (ensinam a malandragem, a sobrevivência e os códigos sociais reais). Leniza passou por uma “reprogramação” social ao entrar na fábrica.
