Questão 132 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado de juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram?

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: NovaAguilar, 1974 (fragmento).

A repetição é um recurso linguístico utilizado para promover a progressão textual, pois indica entrelaçamento de ideias. No fragmento de romance, as repetições foram utilizadas com o objetivo de

A) marcar a transição entre dois momentos distintos da narrativa, o amor do narrador por Virgília e seu nascimento.

B) tornar mais lento o fluxo de informações, para finalmente conduzir o leitor ao tema principal.

C) reforçar, pelo acúmulo de afirmações, a ideia do quanto é grande o sentimento do narrador por Virgília.

D) representar a monotonia, caracterizadora das etapas da vida do autor: a juventude e a velhice.

E) assegurar a sequenciação cronológica dos fatos representados e a precisão das informações.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Recursos de Coesão e Progressão Textual (Repetição, Concatenação)
  • Figuras de Linguagem (Anadiplose)
  • Interpretação de Texto Literário e Análise do Narrador (Metalinguagem)
  • Literatura Brasileira (Realismo e a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Tema/Objetivo Geral: Identificar a função específica de uma cadeia de repetições (concatenação) como um recurso de progressão textual para realizar uma transição temática na narrativa.

Nível da Questão: Médio.

  • Detalhe: A questão é de nível médio porque, embora o texto seja curto, exige a percepção de uma estratégia de escrita sofisticada. O candidato precisa entender que a repetição aqui não serve apenas para dar ênfase (distratora C), mas tem uma função estrutural e direcional na narrativa, um conceito mais avançado de análise textual.

Gabarito: A) marcar a transição entre dois momentos distintos da narrativa, o amor do narrador por Virgília e seu nascimento.

  • Explicação Resumida: O narrador utiliza a repetição encadeada de palavras para criar uma ponte lógica, quase um “efeito dominó”, que o leva de forma fluida e estilosa de um tópico (Virgília) a um tópico completamente diferente e distante no tempo (seu próprio nascimento).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para atuar como peritos literários e diagnosticar a função de um recurso específico: a repetição em cadeia de palavras. O próprio narrador se gaba de sua “destreza” e “arte” ao fazer uma “grande transição”. Nossa missão é explicar como essa “mágica” funciona.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você está em uma margem de um rio (o tema “Virgília”) e precisa chegar à outra margem (o tema “Nascimento”). Em vez de dar um salto longo e desajeitado, você usa uma série de pedras no meio do caminho. Você pisa na primeira pedra, depois na segunda, na terceira, e assim chega ao outro lado de forma elegante e conectada. As palavras repetidas são essas pedras. Nossa tarefa é descrever essa travessia.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nossa análise seguirá a própria correnteza do texto:

  • Definir a Ferramenta: Vamos primeiro entender tecnicamente o que é “progressão textual” e como a repetição pode servi-la, como você solicitou.
  • Mapear a Ponte: Seguiremos a cadeia de palavras repetidas, pedra por pedra, do ponto de partida (Virgília) ao ponto de chegada (Nascimento).
  • Confirmar o Propósito: Ao final, verificaremos se o objetivo alcançado foi, de fato, uma transição.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (DOSSIÊ ESPECIAL)

Para este caso, precisamos de um dossiê sobre a arma secreta do narrador, um recurso muito mais sofisticado do que a simples repetição.

📜 DOSSIÊ DE RECURSOS LINGUÍSTICOS: O CASO “PROGRESSÃO TEXTUAL”

  • Conceito-Chave: Progressão Textual
    • Definição: É a forma como um texto avança, apresentando novas informações de maneira lógica e conectada, sem ficar “patinando” no mesmo lugar. É o que garante que o texto flua e leve o leitor a algum lugar.
    • Como Funciona?: Através de “ganchos” e “elos”, que são os elementos de coesão. Podem ser conectivos (mas, porque, portanto), pronomes (ele, ela, isso) ou, como no nosso caso, a repetição lexical.
  • A Arma do Crime: Anadiplose (ou Concatenação)
    • O que é?: É uma figura de linguagem em que se repete a última palavra (ou expressão) de uma frase no início da frase seguinte.
    • Exemplo Simples: “O medo leva à raiva. A raiva leva ao ódio. O ódio leva ao sofrimento.” (Mestre Yoda, Star Wars).
    • Função Principal: Não é apenas dar ênfase. A anadiplose cria uma corrente, uma cadeia de raciocínio, onde cada elo se conecta ao anterior, impulsionando o texto para frente. Ela serve para criar uma progressão lógica e fluida, quase como um efeito dominó.
    • No Caso em Análise: Brás Cubas usa uma variação dessa técnica. Ele não repete a palavra exatamente no início da próxima frase, mas a usa como um “trampolim” para a próxima ideia, criando a mesma sensação de encadeamento. Ele não está apenas repetindo, ele está construindo uma ponte com as palavras.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, detetive, vamos aplicar nosso conhecimento técnico e seguir as “pedras no rio” que Brás Cubas tão artisticamente posicionou.

  • Execução 1: O Ponto de Partida (A Primeira Margem do Rio)
    • O narrador começa com a confissão de seu amor: “Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília.”
    • Em seguida, ele ancora essa ideia: “Virgília foi o meu grão pecado de juventude…”
    • Análise: Estamos firmemente no tema do romance com Virgília, que se passa na fase da juventude do narrador.
  • Execução 2: A Travessia (O Encadeamento Lógico)
    • Vamos seguir a corrente, link por link:
      • Link 1: Ele termina a frase anterior com a palavra “juventude“.
      • Link 2: Ele imediatamente usa essa palavra como gancho para a próxima ideia: “…não há juventude sem meninice…”
      • Análise: Com um movimento rápido, ele nos puxou para trás no tempo. Já não estamos mais falando de Virgília, estamos falando da meninice.
      • Link 3: Ele termina essa ideia com a palavra “meninice“.
      • Link 4: Ele usa esse novo gancho para o salto final: “…meninice supõe nascimento…”
      • Análise: Outro salto para trás. Da meninice, fomos arremessados para o ponto zero da existência.
  • Execução 3: O Ponto de Chegada (A Outra Margem)
    • Após a ponte “Virgília → juventude → meninice → nascimento”, ele aterrissa no destino final: “…e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci.”
    • Conclusão da Perícia: A travessia foi um sucesso. O narrador nos levou de um ponto A (seu caso amoroso com Virgília na juventude) a um ponto B completamente distinto (a data exata de seu nascimento), usando a repetição encadeada como um veículo. A função foi, inequivocamente, a de marcar uma transição.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais poderosa aqui é a alternativa (C): “reforçar […] a ideia do quanto é grande o sentimento do narrador por Virgília”. O raciocínio falho é: “Se ele está falando de Virgília, a repetição deve ser para enfatizar esse amor”. Mas isso ignora a direção do movimento. A repetição não serve para nos manter no tema “Virgília”; pelo contrário, ela é o mecanismo usado para nos afastar dele de forma elegante. É uma escada rolante que nos leva para longe do ponto inicial. O foco não é a ênfase, é a jornada.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a repetição não é estática (para reforçar uma ideia), mas dinâmica (para mover a narrativa). Brás Cubas se gaba de sua “arte” e “destreza” precisamente por ter criado uma ponte engenhosa entre dois assuntos muito distantes.
    • Expectativa: A alternativa correta deve capturar essa função de ponte, conexão ou passagem entre dois momentos ou temas distintos.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) marcar a transição entre dois momentos distintos da narrativa, o amor do narrador por Virgília e seu nascimento.
    • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito com nossa Bússola. Descreve com precisão cirúrgica a função da “ponte” que identificamos em nossa análise.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • B) tornar mais lento o fluxo de informações, para finalmente conduzir o leitor ao tema principal.
    • Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Efeito. O encadeamento rápido cria um efeito de aceleração e fluidez, não de lentidão. O leitor é levado “sem esforço” e rapidamente ao destino.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) reforçar, pelo acúmulo de afirmações, a ideia do quanto é grande o sentimento do narrador por Virgília.
    • Análise de Correspondência: É a “Armadilha Clássica”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não o Fim. A repetição parte de Virgília, mas seu objetivo não é ficar nela, e sim usá-la como ponto de partida para chegar a outro lugar. Confunde o ponto de partida com o destino da viagem.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) representar a monotonia, caracterizadora das etapas da vida do autor: a juventude e a velhice.
    • Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O estilo do narrador é tudo menos monótono; é espirituoso, surpreendente e dinâmico. Além disso, o texto fala de juventude, meninice e nascimento, não de velhice.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) assegurar a sequenciação cronológica dos fatos representados e a precisão das informações.
    • Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta com a Obra. Brás Cubas, o “defunto autor”, é famoso por sua narrativa não-linear e digressiva, que salta no tempo constantemente. A transição analisada é um exemplo de quebra, e não de manutenção, da cronologia (ele vai da vida adulta de volta para o nascimento).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa A é a correta, pois o trecho é uma aula magna de Machado de Assis sobre como usar a repetição não como um eco, mas como um motor para a progressão da narrativa.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A repetição de Brás Cubas é um movimento de parkour literário: ele usa uma parede (Virgília) para pegar impulso e saltar para outro telhado (seu nascimento).
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de encadeamento lógico para conectar ideias distantes é a base do funcionamento dos hiperlinks na internet. Quando você clica em uma palavra azul em um artigo da Wikipédia sobre “Machado de Assis” que te leva para uma página sobre “Realismo”, a tecnologia está fazendo digitalmente o que Machado fez textualmente. A palavra-chave funciona como um “gancho” que cria uma transição rápida e “sem esforço” para um novo tópico relacionado. Brás Cubas, com sua “arte” e “destreza”, foi um precursor da navegação não-linear que define nossa experiência digital hoje.

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