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Questão 131 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

A sua concepção de governo [do Marechal Floriano Peixoto] não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a coisa ao grande o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não há dinheiro no tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água.

BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Brasiliense, 1956 (fragmento).

A obra literária de Lima Barreto faz uma crítica incisiva ao período da Primeira República no Brasil. No fragmento do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, a expressão “tirania doméstica”, como concepção do governo florianista, significa que

A) o regime político era omisso e elitista.

B) a visão política de governo era infantilizada.

C) o presidente empregava seus parentes no governo.

D) o modelo de ação política e econômica era patriarcal.

E) o presidente assumiu a imagem populista de pai da nação.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Literário e Análise de Metáforas
  • Contexto Histórico: Brasil (Primeira República e Governo de Floriano Peixoto)
  • Literatura Brasileira (Pré-Modernismo e a obra de Lima Barreto)
  • Conceitos de Sociologia e Ciência Política (Patriarcalismo)

Tema/Objetivo Geral: Decodificar a metáfora “tirania doméstica” para compreender a crítica de Lima Barreto ao modelo de poder autoritário e personalista de Floriano Peixoto.

Nível da Questão: Difícil.

  • Detalhe: A questão é difícil porque sua resolução plena não depende apenas da interpretação do fragmento, mas exige um conhecimento prévio significativo de história do Brasil e de sociologia. A expressão “tirania doméstica” é uma chave que só abre a porta correta se o leitor souber o que foi o governo florianista e o que significa o conceito de patriarcalismo.

Gabarito: D) o modelo de ação política e econômica era patriarcal.

  • Explicação Resumida: A expressão “tirania doméstica” é uma metáfora precisa para descrever um governo que rege a nação com a mesma lógica autoritária, personalista e simplista de um chefe de família tradicional (o pater familias) controlando sua casa, sem distinção entre o público e o privado.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para sermos tradutores de uma metáfora histórica. Temos uma expressão-chave criada por Lima Barreto: “tirania doméstica”. Nossa missão é decifrá-la, entender exatamente o que o autor quis dizer ao comparar o governo de um presidente a uma forma de opressão familiar.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que governar um país é como pilotar um avião complexo, com centenas de botões, manuais e procedimentos (a Constituição, as leis, a economia). O texto de Lima Barreto acusa Floriano Peixoto de ignorar todo esse painel de controle e tentar pilotar o avião-nação como se estivesse empinando uma pipa no quintal de casa. Ele usa a intuição, a força e regras simples de “punição” e “improviso”, como um pai faria com um filho ou uma dona de casa com a despensa. Nossa tarefa é dar o nome técnico a esse jeito de “pilotar”.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nossa perícia será uma análise profunda da metáfora central:

  • Contextualizar a Cena do Crime: Vamos primeiro entender quem foi Floriano Peixoto e o que foi sua época, como você sabiamente solicitou.
  • Analisar a Lógica da Metáfora: Investigaremos as duas analogias específicas que o texto usa (a do castigo ao bebê e a da sopa rala) para extrair a lógica por trás do termo “doméstica”.
  • Conectar Lógica e Conceito: Por fim, daremos o nome técnico a esse modelo de poder que mistura o público com o privado.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (DIÁLOGO MENTOR-ALUNO)

🕵️‍♂️: Olá, jovem detetive. Antes de analisarmos o texto, precisamos preparar nosso kit de investigação com informações que não estão nele. O caso de hoje exige que sejamos historiadores e sociólogos.

🧠: Por onde começamos? Quem é o “Marechal Floriano Peixoto”?

🕵️‍♂️: Ótima pergunta. Ele foi o segundo presidente do Brasil (1891-1894), em um período conhecido como República da Espada, logo no início da nossa República. Ele era conhecido como “Marechal de Ferro” por seu estilo de governo extremamente autoritário, centralizador e enérgico. Ele consolidou a República com mão de ferro, esmagando revoltas como a Revolução Federalista e a Revolta da Armada. Para ele, a ordem nacional estava acima dos direitos individuais.

🧠: Entendi. E a “testemunha”, Lima Barreto? O que ele estava fazendo ali?

🕵️‍♂️: Lima Barreto é um dos grandes escritores do Pré-Modernismo. Ele era um mulato pobre, funcionário público, que viveu no Rio de Janeiro e sentiu na pele as contradições e injustiças da Primeira República. Sua obra-prima, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, é uma crítica feroz ao nacionalismo ufanista e à realidade brutal da política brasileira da época. Ele não era um historiador frio; ele era um crítico social apaixonado, usando a literatura como sua arma.

🧠: Certo. Temos o governante autoritário e o escritor crítico. E qual é o conceito-chave para entendê-los? Você mencionou “patriarcalismo”.

🕵️‍♂️: Exato. Patriarcalismo é a chave mestra aqui. É um sistema social onde o poder se concentra na figura do homem mais velho, o pater familias (o pai de família). Suas características são cruciais:
1. Autoridade Inquestionável: A palavra do patriarca é a lei dentro da família.
2. Confusão entre Público e Privado: A propriedade da família é vista como propriedade pessoal do patriarca. Ele a administra como bem entende.
3. Lógica Doméstica: Problemas são resolvidos de forma simplista, baseada em castigo, recompensa e improviso, não em leis ou regras formais.
4. Relação de Dependência: Os outros membros da família não são cidadãos com direitos, mas dependentes que devem obediência.
Quando essa lógica transborda para a política, um presidente passa a tratar o país como sua propriedade e os cidadãos como seus filhos (ou servos).

🧠: Uau! Agora eu vejo. Lima Barreto está acusando Floriano de ser um “pai de família” tirânico, governando o Brasil como se fosse o seu quintal. A “tirania doméstica”!

🕵️‍♂️: Precisamente! Agora, com essas três ferramentas — o contexto histórico, o literário e o sociológico —, estamos prontos para ir ao texto e provar nossa tese.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (FLUXOGRAMA DE RACIOCÍNIO)

Detetive, vamos aplicar nosso conhecimento em um fluxograma que disseca a lógica de Lima Barreto, provando metodicamente como ele constrói a acusação de patriarcalismo.

📊 FLUXOGRAMA DE ANÁLISE DA METÁFORA 📊

  • PONTO DE PARTIDA: A EXPRESSÃO-CHAVE
    • Texto: “A sua concepção de governo… era a de uma tirania doméstica.”
    • Análise: O autor estabelece a tese. O governo de Floriano não se encaixa em categorias políticas tradicionais como despotismo ou aristocracia. É algo diferente, cuja lógica vem da esfera privada, da casa (domus).
  • ETAPA 1: INVESTIGAÇÃO DA ANALOGIA POLÍTICA
    • Pista 1 (A Lógica Doméstica):“O bebê portou-se mal, castiga-se.”
      • Análise: Esta é a regra fundamental do poder doméstico patriarcal: a desobediência é resolvida com punição direta, imediata e sem direito à defesa.
    • Pista 2 (A Transposição para o Estado):“Levada a coisa ao grande, o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas…”
      • Análise: O autor “traduz” o comportamento. O “portar-se mal” do cidadão é simplesmente discordar do governante. A oposição política é infantilizada, tratada como uma birra de criança.
    • Pista 3 (A Consequência da Transposição):“…e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte.”
      • Análise: Aqui vemos a escala da tirania. A mesma lógica simplista do castigo doméstico é aplicada com a força total do Estado. O “pai” agora tem o poder de prender e matar seus “filhos” desobedientes.
    • Conclusão da Etapa 1: O modelo de ação política é patriarcal: o presidente se vê como o pai, a nação como a família, e a dissidência como indisciplina infantil a ser esmagada.
  • ETAPA 2: INVESTIGAÇÃO DA ANALOGIA ECONÔMICA
    • Pista 1 (A Lógica Doméstica):“assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água.”
      • Análise: Esta é a lógica da improvisação doméstica. É uma solução simplista, de curto prazo, que resolve a aparência do problema (a falta de sopa), mas degrada a qualidade do produto (a sopa fica rala).
    • Pista 2 (A Transposição para o Estado):“Não há dinheiro no tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação…”
      • Análise: O autor mostra Floriano aplicando a mesma lógica de “botar água na sopa” à economia nacional. A falta de recursos do Tesouro é “resolvida” com uma medida improvisada e simplista (recolocar dinheiro em circulação, o que na época era uma política inflacionária conhecida como Encilhamento). Ele ignora a complexidade da ciência econômica.
    • Conclusão da Etapa 2: O modelo de ação econômica é patriarcal: o Tesouro Nacional é tratado como a despensa de casa, e a crise econômica, como um problema de falta de ingredientes para o jantar.
  • DIAGNÓSTICO FINAL:
    • O fluxograma prova que, tanto na política quanto na economia, o governo florianista é descrito como operando sob uma única e mesma lógica: a do patriarca, o chefe de família que governa sua casa de forma absoluta, personalista e simplificadora. A “tirania doméstica” não é um insulto vago, é um diagnóstico preciso desse modelo de ação.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) o regime político era omisso e elitista.
    • Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto descreve um regime hiperativo e interventor (“castiga-se”, “põe-se em circulação”), o exato oposto de “omisso”.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) a visão política de governo era infantilizada.
    • Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. A visão do governo não é infantilizada; ela trata os cidadãos e a oposição como infantis. A visão em si é descrita como tirânica e paternalista, não como imatura.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) o presidente empregava seus parentes no governo.
    • Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Evidência. Isso descreve o nepotismo, que é uma característica comum em sistemas patriarcais. No entanto, o fragmento de texto não menciona essa prática. A crítica é ao modo de governar, não a quem foi contratado.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) o modelo de ação política e econômica era patriarcal.
    • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito com a nossa Bússola. É a síntese exata de toda a nossa investigação histórica, literária e textual, validada pelo fluxograma.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) o presidente assumiu a imagem populista de pai da nação.
    • Análise de Correspondência: Distratora forte, mas não corresponde à Bússola.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Conceitos. A imagem do “pai da nação” populista geralmente envolve carisma e a busca de apoio popular (o pai “bom”). A imagem descrita no texto é a do patriarca severo e tirânico (o pai “mau”), que governa pela força e pelo castigo, não pelo afeto ou pela persuasão.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta, pois a genialidade de Lima Barreto foi criar a metáfora “tirania doméstica” como um diagnóstico preciso e devastador do modelo de poder patriarcal que moldou a política brasileira.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Floriano não governava com a Constituição na mão, mas com um cinto: o país era seu filho rebelde, e o tesouro, a despensa de casa.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo conceito de aplicar uma lógica simplista e “doméstica” a um sistema complexo é uma das maiores armadilhas no mundo da Gestão Empresarial. Pense no fundador de uma pequena empresa familiar que, mesmo depois de a empresa se tornar uma corporação multinacional, continua a tomar todas as decisões sozinho, baseando-se em intuição e controlando as finanças como se fossem seu talão de cheques pessoal. Esse “CEO patriarcal” impede a profissionalização, a inovação e o crescimento, levando a empresa à crise. A crítica de Lima Barreto a um modelo de governança do século XIX é, portanto, uma lição atemporal sobre os perigos do personalismo na gestão de qualquer sistema complexo.

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