Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades. Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja. A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem.
VEIGA, J. J. A máquina extraviada. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000 (fragmento).
A presença do inusitado ou do fantástico na vida cotidiana é frequente na obra de José J. Veiga. No fragmento, a situação de singularidade experimentada pelas personagens constrói-se a partir do
A) afastamento da religião tradicional.
B) medo crescente diante da tecnologia.
C) desrespeito político em âmbito municipal.
D) impacto sociocultural das inovações.
E) conflito entre diferentes classes sociais.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Literário (Conto Fantástico/Realismo Mágico)
- Identificação de Tese e Análise de Elementos Narrativos
- Inferência e Análise Crítica do Discurso
Tema/Objetivo Geral: Analisar um fragmento de conto do realismo fantástico para identificar o elemento central que gera a estranheza e transforma a vida cotidiana dos personagens.
Nível da Questão: Médio.
- Detalhe: A questão é de nível médio. Embora a história seja claramente “estranha”, o candidato precisa ir além da simples percepção do inusitado e diagnosticar sua origem. As alternativas (A) e (B) são distratoras plausíveis porque tocam em consequências (afastamento da religião, potencial medo), mas não na causa raiz, que é o impacto abrangente da inovação no tecido social.
Gabarito: D) impacto sociocultural das inovações.
- Explicação Resumida: A narrativa constrói sua estranheza ao mostrar como uma única inovação tecnológica (“a máquina”) desestrutura e redefine completamente as tradições, as relações de poder e os costumes de uma comunidade, gerando um profundo impacto social e cultural.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos informa que o autor gosta de colocar o “fantástico” no dia a dia. Nossa missão é ler o trecho e descobrir qual é o “ingrediente secreto” que ele usa para criar essa atmosfera de estranheza e singularidade na cidade. Em bom português: de onde vem a “esquisitice” da história?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que, no meio da praça da sua cidade, surge do nada um imenso e misterioso cubo de metal. No início, é só um objeto estranho. Mas, aos poucos, as pessoas param de ir à igreja e passam a se reunir em volta do cubo. Os políticos, em vez de fazerem discursos na prefeitura, fazem discursos ao lado do cubo. As festas da cidade agora acontecem ao pé do cubo. A vida da cidade foi completamente reorganizada em torno desse objeto. O “fantástico” não é o cubo em si, mas o poder que ele passa a ter sobre a vida de todos. Nossa tarefa é dar um nome a esse fenômeno.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nossa perícia vai mapear a transformação da cidade:
- Estabelecer o “Antes”: Vamos identificar como a vida social funcionava antes da chegada da máquina, segundo o texto.
- Analisar o “Depois”: Investigaremos todas as mudanças que a máquina provocou na vida cívica, política e religiosa da comunidade.
- Diagnosticar a Causa: Comparando o “antes” e o “depois”, vamos determinar a natureza exata do fenômeno que causou essa ruptura.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (DIÁLOGO MENTOR-ALUNO)
🕵️♂️: Olá, jovem detetive. O caso de hoje é especial. O enunciado nos diz que a obra de José J. Veiga tem o “inusitado” e o “fantástico”. O que vem à sua mente quando ouve isso?
🧠: Fantasmas, magia, coisas que não existem no nosso mundo…
🕵️♂️: É um bom começo, mas a ferramenta que Veiga usa é mais sutil e poderosa. É o que chamamos de Realismo Fantástico. A regra número um desse gênero é: o mundo é 100% real e normal. As pessoas, as cidades, as rotinas, tudo é como conhecemos. Então, o autor insere UM ÚNICO elemento estranho e inexplicável nesse cenário.
🧠: A “máquina”!
🕵️♂️: Exatamente! Mas aqui está o segredo: o fantástico não está na máquina em si. O autor nem se dá ao trabalho de descrevê-la. Ela poderia ser qualquer coisa. O verdadeiro “fantástico” está em como as pessoas reagem a ela. A mágica não está no objeto, mas no impacto que ele causa na sociedade.
🧠: Entendi! Então a história não é sobre uma invenção maluca, mas sobre como uma invenção maluca pode virar o mundo das pessoas de cabeça para baixo.
🕵️♂️: Perfeito! Você capturou a essência. Veiga não é um engenheiro do fantástico, ele é um sociólogo do fantástico. Ele usa a “máquina” como um catalisador químico: uma substância que, ao ser introduzida em um sistema, provoca uma reação em cadeia que transforma tudo ao redor. Nossa investigação, portanto, não deve focar no mistério da máquina, mas sim nas transformações sociais e culturais que ela provoca. É isso que vamos procurar no Passo 3.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (FLUXOGRAMA DE RACIOCÍNIO)
Agora, detetive, com a lente do “sociólogo do fantástico” que acabamos de construir, vamos aplicar um fluxograma para dissecar, metodicamente, as transformações que a máquina impôs à cidade.
📊 FLUXOGRAMA DA PERÍCIA SOCIOCULTURAL 📊
- ETAPA 1: ESTABELECIMENTO DA LINHA DE BASE (O MUNDO PRÉ-MÁQUINA)
- Pista-Chave no Texto: “Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol…”
- Análise da Pista: O texto estabelece um passado reconhecível. O coreto e o campo de futebol não são apenas lugares, são símbolos. Representam a vida comunitária, a tradição, o lazer humano, a cultura local. Este era o “sistema operacional” da cidade.
- ETAPA 2: O EVENTO DISRUPTIVO (A INOVAÇÃO CHEGA E SE IMPÕE)
- Pista-Chave no Texto: “…mas hoje tudo se passa ao pé da máquina.”
- Análise da Pista: Esta frase curta é devastadora. Ela não diz que a máquina se tornou mais uma opção de lazer. Ela diz que TUDO agora acontece lá. Isso não é uma adição, é uma substituição. O centro de gravidade social foi deslocado à força. O sistema foi reiniciado com um novo programa.
- ETAPA 3: MAPEAMENTO DO IMPACTO (A REORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE)
- Vamos agora analisar, setor por setor, como a vida foi reconfigurada:
- ➡️ Setor A: O Poder Político
- Pista: “Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela…”
- Análise: A “sombra da máquina” se tornou o novo símbolo de poder. Estar perto dela confere legitimidade. O poder não emana mais do povo (no coreto), mas da proximidade com a tecnologia. Isso é um impacto político e cultural profundo. A máquina virou o novo palanque.
- ➡️ Setor B: A Convivência Social
- Pista: “…nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina ainda não foi danificada…”
- Análise: A disputa pela proximidade com a máquina gera “conflitos”. A coesão social foi abalada. E note a ironia: a preocupação não é com as pessoas que entram em conflito, mas com a integridade da máquina! As relações humanas se tornaram secundárias. Isso é um impacto social claro.
- ➡️ Setor C: O Poder Religioso/Tradicional
- Pista: “A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário…”
- Análise: Esta é a prova final. A palavra “homenagem” é crucial. Não se presta homenagem a um simples eletrodoméstico. Presta-se homenagem a uma entidade de poder, a um ídolo, a um deus. A máquina transcendeu sua função e se tornou um totem, um novo centro de fé que exige devoção, colocando-se em direta oposição ao poder tradicional do vigário e da igreja. Este é o impacto cultural em seu nível mais profundo.
- ETAPA 4: DIAGNÓSTICO FINAL (A SÍNTESE DA INVESTIGAÇÃO)
- Conclusão do Fluxograma: O que observamos não é apenas medo ou desrespeito. O que o fluxograma revela é um processo abrangente e sistemático onde uma inovação (a máquina) causa um impacto profundo, alterando os pilares da sociedade (como as pessoas convivem e disputam poder) e da cultura (os símbolos, as tradições e até a fé). O termo que encapsula perfeitamente este fenômeno é: Impacto Sociocultural das Inovações.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (B), “medo crescente diante da tecnologia”. É fácil associar o fantástico e o desconhecido ao medo. No entanto, o texto não descreve a emoção do medo. Ele descreve conflito (“sempre surgem conflitos”), reverência (querer ficar à sua sombra, prestar homenagem) e resistência (o vigário). As pessoas não parecem ter medo da máquina; elas a aceitaram como o novo centro de tudo e agora disputam por ela. O sentimento não é medo, é uma mistura de fascínio e resignação.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação revela que a singularidade da história não vem de um evento sobrenatural, mas da reação completamente verossímil, ainda que estranha, de uma sociedade a uma inovação disruptiva. A máquina age como um catalisador que transforma a cultura, a política e as relações sociais.
- Expectativa: A alternativa correta deve capturar essa ideia abrangente. Ela precisa falar sobre o impacto de uma inovação na sociedade e na cultura.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) afastamento da religião tradicional.
- Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola. É uma parte do todo.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno foca na figura do vigário, que é a parte final e mais marcante do texto.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descreve a parte, não o todo). O afastamento da religião é um exemplo, um sintoma do impacto sociocultural da máquina, mas não é o impacto inteiro. A mudança na política e nas festas cívicas também faz parte do fenômeno.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) medo crescente diante da tecnologia.
- Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola. É a “Armadilha Clássica”.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno associa o desconhecido e o fantástico com a emoção do medo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Evidência. Como vimos, o texto não fornece evidências da emoção “medo”. Pelo contrário, descreve uma luta pelo poder e pela proximidade com a máquina.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) desrespeito político em âmbito municipal.
- Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno lê sobre “conflitos” entre políticos e interpreta como “desrespeito”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Equivocada. O texto descreve uma disputa pelo poder, não um desrespeito a ele. Os políticos, na verdade, respeitam tanto o novo poder (a máquina) que brigam por ele. O conflito é entre eles, não um ato de insubordinação.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) impacto sociocultural das inovações.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito com a nossa Bússola. “Inovações” (a máquina) causam um “impacto sociocultural” (mudanças nas festas, na política e na religião). É a alternativa que funciona como um guarda-chuva, explicando todas as outras observações.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- E) conflito entre diferentes classes sociais.
- Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pode projetar um conflito de classes na história sem que haja base para isso.
- O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Evidência. O texto não menciona ricos, pobres, patrões ou empregados. O conflito apresentado é entre políticos e, de forma velada, entre o poder tecnológico e o poder religioso, não entre classes sociais.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta, pois a genialidade do conto de José J. Veiga está em usar o fantástico para criar uma poderosa alegoria sobre como as inovações tecnológicas podem, silenciosamente, remodelar toda a estrutura social e cultural de uma comunidade.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): A máquina chegou e virou o novo sol da cidade; todos os planetas (política, festas, religião) pararam de girar em torno de si mesmos e passaram a girar em torno dela.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O fenômeno descrito no conto não é ficção, é uma metáfora precisa do que acontece na realidade. Pense no impacto sociocultural do smartphone. Antigamente, nos reuníamos em mesas de bar para conversar (o “coreto”). Hoje, muitas vezes estamos juntos fisicamente, mas cada um focado em sua tela (“ao pé da máquina”). Os políticos não precisam mais apenas de palanques; eles precisam de presença e engajamento nas redes sociais (“à sombra da máquina”). O smartphone remodelou nossas interações sociais, nossa política e até nossos rituais, exatamente como a máquina do conto. A obra de Veiga é uma profecia atemporal sobre nossa relação com a tecnologia.

