Ácido nítrico é um importante reagente usado no preparo de nitrato de amônio, NH4NO3, um fertilizante nitrogenado. Industrialmente, o ácido nítrico é obtido a partir da reação da amônia com gás oxigênio, um processo que ocorre em três etapas, todas exotérmicas.

Na primeira etapa, forma-se NO, o qual reage com mais oxigênio formando NO2, um óxido ácido, que reage com a água formando HNO3 e NO. O composto NO é, portanto, um subproduto da reação. É importante o seu reaproveitamento, senão ele pode ser liberado para o ambiente, onde reagirá com o oxigênio, formando NO2.
ATKINS, P.; JONES, L. Princípios de química: questionando a vida moderna
e o meio ambiente. Porto Alegre: Bookman, 2006 (adaptado).
O procedimento que permite diminuir a quantidade formada do subproduto NO é aumentar a
A) pressão de oxigênio, na etapa 1.
B) concentração de NO2, na etapa 3.
C) quantidade de amônia, na etapa 1.
D) quantidade de oxigênio, na etapa 2.
E) temperatura dos reagentes, na etapa 1.

Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Equilíbrio Químico (Princípio de Le Chatelier).
- Cinética Química (Fatores que alteram a velocidade e o deslocamento).
- Química Industrial e Ambiental (Processos em etapas consecutivas).
Tema/Objetivo Geral:
A questão aborda a otimização de um processo industrial (produção de ácido nítrico) visando a mitigação de um poluente ambiental (NO) através do deslocamento do equilíbrio químico.
Nível da Questão: Médio.
- A questão exige que o aluno analise um processo sequencial de três etapas, e não apenas uma reação isolada. A dificuldade reside em identificar que o NO atua como um intermediário que deve ser consumido, exigindo a aplicação do Princípio de Le Chatelier especificamente na etapa de consumo (Etapa 2) para reduzir sua concentração final, o que requer uma visão sistêmica do processo.
Gabarito: Alternativa D.
- O aumento da quantidade de oxigênio na segunda etapa desloca o equilíbrio da reação no sentido dos produtos. Como o NO é um reagente nessa etapa, ele será consumido em maior quantidade para formar NO2, diminuindo assim a sobra desse gás poluente que seria liberada para o ambiente.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão pede que identifiquemos, dentre as opções fornecidas, qual alteração nas condições do processo industrial fará com que o subproduto tóxico (NO) seja consumido de forma mais eficiente, evitando que ele sobre e seja liberado na atmosfera.
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você tem uma pia com três fases de escoamento.
Fase 1: A torneira aberta enche a pia de água (produz NO).
Fase 2: Um ralo deve puxar essa água para o encanamento (consome NO).
Fase 3: O tratamento final.
O problema é que a água (NO) está transbordando antes de descer pelo ralo. Para resolver isso, você não fecha a torneira (pois precisa da água para o processo), mas sim “aumenta a sucção” do ralo na Fase 2. Você precisa fazer o ralo trabalhar mais rápido para dar conta de toda a água que chega.
Nosso Plano de Ataque:
- Mapeamento de Fluxo: Identificar em qual reação o NO nasce e em qual ele deve morrer (ser consumido).
- Aplicação da Lei de Ação das Massas: Utilizar o Princípio de Le Chatelier para entender como forçar o consumo de um reagente específico.
- Seleção da Variável de Controle: Analisar qual das alternativas fornece o “combustível” necessário para acelerar o consumo do NO na etapa crítica.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para resolver essa questão com precisão, utilizaremos um Dossiê Técnico de Processos Consecutivos e Equilíbrio.
I. A Dinâmica das Reações em Etapas (O Efeito Dominó)
Em processos industriais como o Processo Ostwald (para fabricação de ácido nítrico), o produto de uma reação serve de reagente para a próxima.
- Etapa 1: Gera NO. (Aqui o NO é Produto).
- Etapa 2: Usa o NO gerado. (Aqui o NO é Reagente).
- O grande desafio da engenharia química é o “Gargalo de Conversão”. Se a Etapa 2 for lenta ou ineficiente, o NO se acumula. Como o sistema é aberto para a atmosfera em algum ponto ou o gás residual é liberado, esse acúmulo vira poluição.
II. O Princípio de Le Chatelier: A Ferramenta de Ajuste Fino
Este princípio dita que “quando uma perturbação externa é aplicada a um sistema em equilíbrio dinâmico, o equilíbrio tende a se ajustar para minimizar o efeito da perturbação”.
Vamos aprofundar nas variáveis:
A. Concentração (A Chave desta questão):
- Aumentar a concentração de um Reagente: O sistema entende que há “excesso” de matéria-prima. Para aliviar esse excesso, a velocidade da reação direta aumenta. O equilíbrio desloca-se para a direita (formação de produtos).
- Raciocínio molecular: Mais moléculas do reagente A significam maior probabilidade de colisões efetivas com o reagente B, acelerando o consumo de ambos.
- Aumentar a concentração de um Produto: O sistema entende que a saída está “entupida”. O equilíbrio desloca-se para a esquerda (formação de reagentes), o que é indesejado na maioria das indústrias.
B. Pressão (Para gases):
- Aumentar a pressão favorece o lado da reação com menor volume molar (menos mols de gás).
- Diminuir a pressão favorece o lado com maior volume molar (mais mols de gás).
- Nota: A pressão afeta o sistema como um todo, mas sua eficácia depende da estequiometria (contagem de mols de gás nos reagentes vs. produtos).
C. Temperatura:
- Em reações exotérmicas (que liberam calor, como as do enunciado), aumentar a temperatura prejudica a formação de produtos, pois o calor funciona como um “produto”. O sistema tenta absorver o calor extra deslocando-se para os reagentes (endotermicamente).
Conclusão Teórica para o Caso do NO:
Para “sumir” com o NO, precisamos olhar para a reação onde ele é Reagente (Etapa 2: 2 NO + O2 -> 2 NO2). Precisamos forçar essa reação a acontecer o máximo possível. Pelo princípio das concentrações, a maneira mais direta de forçar o consumo de NO é inundar o meio reacional com seu parceiro de reação: o Oxigênio (O2).
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos aplicar a teoria diretamente às equações fornecidas.
Análise da Cadeia de Eventos:
- O Problema: O enunciado diz explicitamente: “O composto NO é, portanto, um subproduto… É importante o seu reaproveitamento, senão ele pode ser liberado para o ambiente”.
Isso define nossa meta: Maximizar o consumo de NO. - Localizando o Alvo:
- Na Etapa 1 (4 NH3 + 5 O2 -> 4 NO + 6 H2O), o NO está sendo criado. Mexer aqui para reduzir o NO significaria reduzir a produção da fábrica inteira, o que não faz sentido econômico.
- Na Etapa 2 (2 NO + O2 -> 2 NO2), o NO está sendo consumido. É aqui que devemos agir.
- Executando a Estratégia (Le Chatelier na Prática):
Olhemos para a equação da Etapa 2:
2 NO(g) + O2(g) <-> 2 NO2(g)Nosso objetivo é diminuir a concentração de NO. Para isso, precisamos que o equilíbrio se desloque para a Direita (->), transformando NO e O2 em NO2.Como fazer o equilíbrio ir para a direita?- Opção A: Remover NO2 assim que ele é formado (difícil de controlar instantaneamente).
- Opção B: Aumentar a concentração dos reagentes.
- Não podemos aumentar a concentração de NO (pois o objetivo é justamente diminuí-lo).
- Logo, a única opção viável é aumentar a concentração de O2.
Ao injetar mais oxigênio na Etapa 2, aumentamos a frequência de choques entre as moléculas de O2 e as moléculas de NO que chegaram da etapa anterior. Estatisticamente, mais moléculas de NO reagirão, transformando-se em NO2 e deixando de existir como poluente livre.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
O erro mais comum é tentar resolver o problema na “fonte” (Etapa 1). O estudante pensa: “Se o NO é ruim, vamos parar de produzi-lo na Etapa 1”. Porém, o NO é a matéria-prima essencial para fazer o ácido nítrico nas etapas seguintes. Se você inibe a Etapa 1, você fecha a fábrica. O gerenciamento de poluentes industriais foca no tratamento e conversão (Etapa 2 e filtros), não na interrupção da produção.
Bússola (Síntese do Raciocínio):
Precisamos consumir o NO residual. O NO é consumido na Etapa 2 reagindo com O2. Logo, adicionar mais O2 na Etapa 2 forçará o desaparecimento do NO.
Expectativa: Procurar uma alternativa que mencione “aumentar oxigênio” especificamente na “Etapa 2”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Análise Individual:
(A) aumentar a pressão de oxigênio, na etapa 1.
Diagnóstico do Erro: Efeito Reverso (Aumento da Poluição).
Na Etapa 1, o oxigênio é reagente para a produção de NO (4 NH3 + 5 O2 -> 4 NO…). Aumentar o oxigênio aqui deslocaria o equilíbrio para a direita, produzindo mais NO. Embora isso possa aumentar a produtividade, agrava o problema ambiental se o sistema de conversão (Etapa 2) não der conta do volume extra. Não resolve a “sobra”, apenas cria mais.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
(B) aumentar a concentração de NO2, na etapa 3.
Diagnóstico do Erro: Deslocamento para o lado indesejado.
Na Etapa 3 (3 NO2 + H2O -> 2 HNO3 + NO), o NO2 é reagente. Aumentar sua concentração empurra o equilíbrio para a direita, produzindo ácido nítrico e mais NO como subproduto. Isso aumenta a quantidade de NO que precisa ser reciclada, sobrecarregando o sistema em vez de limpá-lo.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
(C) aumentar a quantidade de amônia, na etapa 1.
Diagnóstico do Erro: Foco na Fonte errada.
Assim como na alternativa (A), aumentar a amônia (reagente da Etapa 1) apenas aumenta a produção total de NO. Isso não melhora a eficiência de conversão do NO em NO2; apenas coloca mais NO na tubulação.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
(D) aumentar a quantidade de oxigênio, na etapa 2.
Análise de Correspondência: Esta alternativa segue perfeitamente a lógica de Le Chatelier aplicada à reação de consumo. Na reação 2 NO + O2 -> 2 NO2, o O2 atua como o agente que “empurra” o equilíbrio para a direita. Ao aumentar sua quantidade (concentração/pressão parcial), garantimos que uma maior fração das moléculas de NO encontre um par para reagir, reduzindo a sobra de NO.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
(E) aumentar a temperatura dos reagentes, na etapa 1.
Diagnóstico do Erro: Contradição Termodinâmica.
O enunciado afirma que todas as etapas são exotérmicas (liberam calor). Pelo princípio de Le Chatelier, aumentar a temperatura desfavorece reações exotérmicas (o equilíbrio desloca para a esquerda, para os reagentes). Isso diminuiria a produção de NO na Etapa 1, mas faria isso reduzindo a eficiência global da fábrica, sendo uma solução antieconômica e tecnicamente incorreta para “diminuir o subproduto formado” (o objetivo é converter o subproduto, não destruir a produtividade).
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A mitigação de poluentes em processos de múltiplas etapas exige o deslocamento do equilíbrio químico na fase de consumo do intermediário, saturando o sistema com o co-reagente (neste caso, o oxigênio) para garantir a conversão total.
Resumo-flash:
“Para limpar o reagente tóxico (NO), inunde a reação de consumo com seu parceiro (O2).”
Para ir Além (Ponte Interdisciplinar):
Este conceito conecta-se diretamente à Biologia e Fisiologia (Transporte de Oxigênio). Nos pulmões, a alta concentração (pressão parcial) de O2 desloca o equilíbrio da hemoglobina para a formação de Oxiemoglobina (Hb + O2 -> HbO2). Nos tecidos, onde a concentração de O2 é baixa, o equilíbrio inverte, liberando o O2 para as células. É o mesmo Princípio de Le Chatelier regendo tanto chaminés industriais quanto a respiração humana.