Querô
DELEGADO — Então desce ele. Vê o que arrancam desse sacana.
SARARÁ — Só que tem um porém. Ele é menor.
DELEGADO — Então vai com jeito. Depois a gente entrega pro juiz. (Luz apaga no delegado e acende no repórter, que se dirige ao público.)
REPÓRTER — E o Querô foi espremido, empilhado, esmagado de corpo e alma num cubículo imundo, com outros meninos. Meninos todos espremidos, empilhados, esmagados de corpo e alma, alucinados pelos seus desesperos, cegados por muitas aflições. Muitos meninos, com seus desesperos e seus ódios, empilhados, espremidos, esmagados de corpo e alma no imundo cubículo do reformatório. E foi lá que o Querô cresceu.
MARCOS, P. Melhor teatro. São Paulo: Global, 2003 (fragmento).
No discurso do repórter, a repetição causa um efeito de sentido de intensificação, construindo a ideia de
A) opressão física e moral, que gera rancor nos meninos.
B) repressão policial e social, que gera apatia nos meninos.
C) polêmica judicial e midiática, que gera confusão entre os meninos.
D) concepção educacional e carcerária, que gera comoção nos meninos.
E) informação crítica e jornalística, que gera indignação entre os meninos.

✍️ Resolução Em Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Compreender o uso de recursos linguísticos (especialmente a repetição) e seu efeito de sentido em um texto dramático com função crítica e social.
📚 Necessárias para a Solução da Questão:
Interpretação de texto, Figuras de linguagem, Repetição e Intensificação, Análise de discurso, Denúncia social.
🎯 Nível da Questão:
Médio
✅ Gabarito:
A
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
➡️ O que o comando quer?
A questão pede que o aluno analise o discurso do repórter e interprete o efeito de sentido causado pela repetição de expressões como “espremido, empilhado, esmagado de corpo e alma”. Ou seja, o foco está no impacto provocado por essa construção textual.
➡️ Objetivo Cristalino da questão:
Identificar que a repetição serve para acentuar a violência física e emocional sofrida por jovens em situação de exclusão social e que esse sofrimento gera rancor, ódio e trauma, compondo uma crítica ao sistema repressor.
❓Possíveis Armadilhas:
- Confundir a crítica social com uma abordagem jornalística ou educacional.
- Achar que o texto retrata apatia ou comoção, quando ele expressa revolta e sofrimento.
- Tomar a repetição como simples informação, ignorando seu poder de intensificação.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e conteúdos Necessários
| Conceito | Explicação |
|---|---|
| Repetição (figura de linguagem) | Recurso usado para reforçar uma ideia ou sensação; neste caso, enfatiza o sofrimento. |
| Discurso dramático | Trecho que integra uma peça teatral, com falas dirigidas ao público, de função crítica. |
| Denúncia social | Crítica explícita a uma realidade injusta, geralmente envolvendo marginalização e violência. |
| Opressão física e moral | Situação em que se impõem dor corporal e sofrimento emocional ou psicológico. |
| Intensificação linguística | Uso de repetições ou paralelismos para amplificar a carga semântica e emocional do texto. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O trecho faz parte da peça “Querô”, de Plínio Marcos, um autor conhecido por sua abordagem crua e direta sobre a marginalidade e os excluídos sociais.
Na fala do REPÓRTER, há a repetição insistente de expressões como “espremido, empilhado, esmagado de corpo e alma num cubículo imundo”, descrevendo o espaço e as condições em que os menores vivem.
Frases-chave:
- “espremido, empilhado, esmagado de corpo e alma” → metáforas que intensificam o sofrimento físico e psicológico.
- “cubículo imundo” → remete a um espaço inóspito, indigno, insalubre.
- “alucinados pelos seus desesperos, cegados por muitas aflições” → reforça a dor interior que esses meninos enfrentam.
- “e foi lá que o Querô cresceu” → ironiza a ideia de “formação” no reformatório, apontando para um crescimento marcado por traumas.
🟡 Interpretação geral:
A repetição cria um efeito cumulativo de opressão, com foco na denúncia das violências sistêmicas sofridas por meninos marginalizados. O discurso gera compaixão no leitor, mas revela rancor, ódio e trauma nos personagens, como reação à opressão.
✅ Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
🔴 A) opressão física e moral, que gera rancor nos meninos.
🟢 Correta. A repetição das expressões reforça a ideia de aprisionamento e sofrimento físico (“espremido”, “esmagado”) e emocional (“de corpo e alma”). O texto revela que os meninos estão cegos por aflições, alucinados por desesperos, o que indica uma resposta intensa: rancor e ódio.
🔴 B) repressão policial e social, que gera apatia nos meninos.
Errada. Embora a repressão exista, o texto mostra que os meninos estão “alucinados”, “cegos”, “esmagados”, ou seja, o efeito é explosivo e emocionalmente carregado — não há apatia, mas sofrimento e revolta.
✅ Como estaria certa: Se dissesse que a repressão gera “ódio” ou “rancor”, e não apatia.
🔴 C) polêmica judicial e midiática, que gera confusão entre os meninos.
Errada. A questão não discute polêmica judicial ou atuação da mídia. O foco está na experiência traumática dos meninos no reformatório, e não em discussões externas ou institucionais.
✅ Como estaria certa: Se abordasse diretamente o sofrimento causado pelo sistema carcerário.
🔴 D) concepção educacional e carcerária, que gera comoção nos meninos.
Errada. O texto não trata de educação formal e nem de comoção interna dos meninos — a emoção maior é de revolta, dor e trauma.
✅ Como estaria certa: Se apontasse o sistema carcerário como gerador de violência e ódio.
🔴 E) informação crítica e jornalística, que gera indignação entre os meninos.
Errada. Apesar de o personagem se chamar “Repórter”, o texto é teatral, não jornalístico. A função crítica existe, mas é para o leitor/espectador, não os meninos. Estes vivem o sofrimento e não o narram com indignação.
✅ Como estaria certa: Se dissesse que o público sente indignação, mas os meninos reagem com desespero e ódio.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
O discurso do repórter, com uso intencional de repetições, constrói um efeito de intensificação que retrata a brutalidade e a violência enfrentadas pelos meninos institucionalizados. Eles não apenas sofrem fisicamente, mas também são esmagados emocionalmente, o que gera traumas profundos e revolta. A alternativa A é a mais precisa, pois nomeia os dois efeitos principais: opressão física/moral e rancor.