Mal secreto
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
CORREIA, R. In: PATRIOTA, M. Para compreender Raimundo Correia. Brasília: Alhambra, 1995
Coerente com a proposta parnasiana de cuidado formal e racionalidade na condução temática, o soneto de Raimundo Correia reflete sobre a forma como as emoções do indivíduo são julgadas em sociedade. Na concepção do eu lírico, esse julgamento revela que
A) a necessidade de ser socialmente aceito leva o indivíduo a agir de forma dissimulada.
B) o sofrimento íntimo torna-se mais ameno quando compartilhado por um grupo social.
C) a capacidade de perdoar e aceitar as diferenças neutraliza o sentimento de inveja.
D) o instinto de solidariedade conduz o indivíduo a apiedar-se do próximo.
E) a transfiguração da angústia em alegria é um artifício nocivo ao convívio social.

✍️ Resolução Em Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Expressão do sofrimento humano dissimulado em sociedade — crítica social sob o viés da estética parnasiana.
📚 Habilidades Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de texto literário
- Análise da voz lírica e seu posicionamento
- Estudo do contexto parnasiano
- Leitura crítica de sentidos figurados e antíteses
🎯 Nível da Questão:
Médio
✅ Gabarito:
Alternativa A
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
Comando da questão:
“O soneto de Raimundo Correia reflete sobre a forma como as emoções do indivíduo são julgadas em sociedade. Na concepção do eu lírico, esse julgamento revela que…”
➡️ O que o comando quer?
Quer identificar a principal crítica do poema em relação à sociedade, com foco no contraste entre aparência e realidade emocional.
➡️ Objetivo cristalino da questão:
Compreender como o eu lírico critica a dissimulação das emoções humanas na vida em sociedade, revelando o conflito entre o ser e o parecer.
❓Possíveis armadilhas:
- Achar que o poema valoriza o sofrimento compartilhado ou a empatia explícita, o que não ocorre.
- Interpretar literalmente o riso como expressão de felicidade verdadeira.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e conteúdos Necessários
| Conceito | Explicação |
|---|---|
| Soneto parnasiano | Poema de 14 versos, estrutura fixa, com foco em forma, estética e razão. |
| Máscara social | Imagem simbólica de como os indivíduos ocultam emoções para se adequar. |
| Ironia / antítese | Contraste entre aparência (riso) e realidade (dor, sofrimento interior). |
| Crítica social velada | O poema denuncia a hipocrisia social sem usar linguagem direta e agressiva. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
Contexto:
O poema “Mal secreto” mostra o sofrimento invisível que muitos carregam, apesar da aparência serena ou alegre. A máscara da face esconde um “espírito que chora”. O eu lírico reflete sobre como, se fosse possível ver além da aparência, sentimentos de inveja dariam lugar à compaixão.
Frases-chave:
- “Se se pudesse, o espírito que chora, / Ver através da máscara da face…”
- “Quanta gente que ri, talvez, consigo / Guarda um atroz, recôndito inimigo…”
Esses trechos mostram que o verdadeiro estado emocional das pessoas é ocultado, e essa dissimulação é motivada por pressões sociais.
✅ Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
🟢 A) a necessidade de ser socialmente aceito leva o indivíduo a agir de forma dissimulada.
✔ Correta! O poema trata da dissimulação das emoções — tristeza, dor, raiva — em nome da aparência. A sociedade valoriza o “parecer bem”, e isso obriga muitos a esconderem seus males. O uso da máscara é metáfora clara dessa dissimulação social.
🔴 B) o sofrimento íntimo torna-se mais ameno quando compartilhado por um grupo social.
✘ Errada. O poema mostra o contrário: o sofrimento é oculto, não compartilhado. A dor é descrita como recôndita e invisível.
👉 Como ficaria correta: “O sofrimento íntimo torna-se mais opressor quando precisa ser escondido da sociedade.”
🔴 C) a capacidade de perdoar e aceitar as diferenças neutraliza o sentimento de inveja.
✘ Errada. O poema não trata de perdão ou aceitação de diferenças, mas sim de aparência e julgamento superficial.
👉 Como ficaria correta: “A dissimulação de sentimentos impede o julgamento empático das diferenças.”
🟡 D) o instinto de solidariedade conduz o indivíduo a apiedar-se do próximo.
➖ Parcialmente certa, mas incompleta e deslocada. O eu lírico sugere que se víssemos a dor alheia, sentiríamos piedade, mas não que esse sentimento de compaixão já esteja presente.
👉 Como ficaria correta: “O julgamento baseado nas aparências pode impedir a solidariedade, que só surgiria se a dor fosse visível.”
🔴 E) a transfiguração da angústia em alegria é um artifício nocivo ao convívio social.
✘ Errada. A crítica não é à alegria fingida como sendo nociva ao convívio, mas ao fato de que essa alegria esconde sofrimentos profundos.
👉 Como ficaria correta: “A transfiguração da angústia em aparência de alegria revela a hipocrisia imposta pela sociedade.”
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
O poema trabalha com a metáfora da máscara para mostrar como os sentimentos verdadeiros, como a dor e a angústia, são disfarçados para manter uma aparência de normalidade e aceitação social. A sociedade não enxerga a dor, mas julga pela superfície. O eu lírico, de modo sensível, propõe uma reflexão: talvez aqueles que invejamos mereçam, na verdade, nossa compaixão.
A alternativa correta é a letra A, pois evidencia a dissimulação como mecanismo de sobrevivência e adequação social — coerente com o tom crítico e reflexivo do poema.