A Herança Cultural da Inquisição
A Inquisição gerou uma série de comportamentos humanos defensivos na população da época, especialmente por ter perdurado na Espanha e em Portugal durante quase 300 anos, ou no mínimo quinze gerações.
Embora a Inquisição tenha terminado há mais de um século, a pergunta que fiz a vários sociólogos, historiadores e psicólogos era se alguns desses comportamentos culturais não poderiam ter-se perpetuado entre nós.
Na maioria, as respostas foram negativas, ou seja, embora alterasse sem dúvida o comportamento da época, nenhum comportamento permanece tanto tempo depois, sem reforço ou estímulo continuado.
Não sou psicólogo nem sociólogo para discordar, mas tenho a impressão de que existem alguns comportamentos estranhos na sociedade brasileira, e que fazem sentido se você os considerar resquícios da era da Inquisição.
[…] KANITZ, S. A Herança Cultural da Inquisição. In: Revista Veja. Ano 38, no 5, 2 fev. 2005 (fragmento).
Considerando-se o posicionamento do autor do fragmento a respeito de comportamentos humanos, o texto
A) enfatiza a herança da Inquisição em comportamentos culturais observados em Portugal e na Espanha.
B) contesta sociólogos, psicólogos e historiadores sobre a manutenção de comportamentos gerados pela Inquisição.
C) contrapõe argumentos de historiadores e sociólogos a respeito de comportamentos culturais inquisidores.
D) relativiza comportamentos originados na Inquisição e observados na sociedade brasileira.
E) questiona a existência de comportamentos culturais brasileiros marcados pela herança da Inquisição.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Texto, Coesão e Coerência Textual, Argumentação, História e Sociologia da Cultura.
Tema/Objetivo Geral: Análise do Posicionamento do Autor e da Tese Argumentativa em um Texto de Opinião.
Nível da Questão: Médio. Esta questão é considerada de nível médio porque exige do estudante a capacidade de identificar o posicionamento do autor, que não é explicitado de forma linear, mas construído através de uma dialética entre a opinião dos especialistas e a impressão pessoal do autor. A análise requer a compreensão das nuances argumentativas e da forma como o autor se posiciona frente a uma questão controversa.
Gabarito: Alternativa B. O autor, ao expressar sua “impressão” pessoal que contraria as respostas negativas de sociólogos, historiadores e psicólogos, está, de fato, contestando a conclusão desses especialistas sobre a não manutenção dos comportamentos gerados pela Inquisição.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
- Transcrição Essencial: “Considerando-se o posicionamento do autor do fragmento a respeito de comportamentos humanos, o texto”
- O que está sendo pedido? A questão nos pede para analisar qual é o posicionamento ou a atitude do autor do texto em relação aos comportamentos humanos, com base no que ele escreve sobre a herança da Inquisição.
- Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é identificar a tese ou a perspectiva principal que o autor defende no texto, especialmente no que diz respeito à influência da Inquisição em comportamentos contemporâneos, confrontando sua visão com a de outros especialistas.
- Pergunta de Atenção: Você consegue diferenciar entre o que é um fato ou uma opinião de terceiros e o que é a posição pessoal do autor, que ele expressa com suas próprias palavras?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo | Classificação | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano |
| Posicionamento do Autor | Elemento Textual | É a atitude, a opinião, a tese ou o ponto de vista que o autor de um texto defende sobre um determinado assunto. Ele pode ser explícito (dito diretamente) ou implícito (sugerido pelas escolhas de palavras e argumentos). | Em um artigo de jornal, o autor pode se posicionar a favor ou contra uma política pública, usando argumentos para sustentar sua visão. |
| Inquisição | Conceito Histórico | Foi uma instituição da Igreja Católica que funcionou por séculos (especialmente na Idade Média e Moderna) para combater e punir o que considerava heresia. Na Espanha e em Portugal, teve grande poder e impacto social, gerando medo e comportamentos de conformidade ou defesa. | Imagina um período da história onde a sua forma de pensar ou acreditar poderia te levar a ser julgado e punido por uma instituição religiosa muito poderosa. |
| Herança Cultural | Conceito Cultural | São os costumes, crenças, valores, conhecimentos e comportamentos de uma sociedade que são transmitidos de geração em geração, influenciando o presente. Pode se referir tanto a aspectos positivos quanto negativos. | Festas tradicionais, receitas de família, lendas passadas de avós para netos, ou até certos modos de se comportar que vêm de tempos antigos. |
| Comportamentos Humanos | Conceito Psicológico/Social | São as ações, reações, atitudes e modos de agir das pessoas, que são influenciados por fatores individuais, sociais, culturais e históricos. | Como as pessoas reagem ao medo, como se relacionam com a autoridade, como expressam suas opiniões em público. |
| Contestar | Ação Argumentativa | É o ato de questionar, refutar, opor-se ou desafiar uma afirmação, uma ideia, um argumento ou uma decisão de outra pessoa ou grupo. Implica apresentar uma visão diferente ou colocar em dúvida o que foi dito. | Se alguém diz “o céu é verde”, e você responde “não, o céu é azul”, você está contestando. Ou se um cientista apresenta um resultado e outro cientista apresenta dados que o contradizem. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
- Contextualização Simplificada: O autor do texto começa falando sobre a Inquisição e como ela durou muito tempo em Portugal e na Espanha, criando “comportamentos defensivos”. Ele pergunta se alguns desses comportamentos não teriam continuado até hoje, especialmente na sociedade brasileira. A maioria dos especialistas (sociólogos, historiadores, psicólogos) respondeu que não, dizendo que esses comportamentos não durariam tanto tempo sem um “reforço contínuo”. Aí o autor diz que não é especialista para “discordar”, MAS que tem a impressão de que existem “comportamentos estranhos na sociedade brasileira” que “fazem sentido” se vistos como “resquícios da era da Inquisição”. A questão quer saber qual é a posição do autor sobre tudo isso.
- Estratégia Geral: Nosso plano é focar na parte do texto onde o autor expressa sua própria visão, especialmente após mencionar as opiniões dos especialistas. Vamos procurar o que ele diz que se diferencia ou se opõe à visão predominante, para assim identificar seu posicionamento.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Passo a Passo Detalhado
- Analisar a pergunta do autor: O autor questiona se “alguns desses comportamentos culturais não poderiam ter-se perpetuado entre nós” (referindo-se à sociedade brasileira, como o final do texto indica).
- Identificar a resposta dos especialistas: As respostas dos sociólogos, historiadores e psicólogos foram “negativas”, ou seja, eles acreditam que esses comportamentos não permanecem sem reforço.
- Perceber a quebra do “mas”: O autor então afirma: “Não sou psicólogo nem sociólogo para discordar, mas tenho a impressão de que existem alguns comportamentos estranhos na sociedade brasileira, e que fazem sentido se você os considerar resquícios da era da Inquisição.”
- Interpretar o posicionamento do autor: A frase “Não sou… para discordar, mas tenho a impressão” é crucial. O “mas” introduz uma ideia que se contrapõe diretamente à conclusão dos especialistas. Embora ele se ressalve por não ser um especialista, sua “impressão” é, na prática, uma hipótese pessoal que desafia a visão predominante. Ele está, portanto, apresentando uma perspectiva que contesta a ideia de que esses comportamentos não se perpetuaram. Ele não afirma com certeza (por isso “impressão”), mas sua “impressão” é um contraponto ativo. Ele não está apenas “relativizando”, mas ativamente sugerindo uma permanência onde os especialistas veem uma ausência.
- Verificação Intermediária: O núcleo do posicionamento do autor está em sua “impressão” de que há sim resquícios da Inquisição na sociedade brasileira, o que vai de encontro à visão dos especialistas.
- Possível armadilha: Você poderia ter se prendido à frase “Não sou psicólogo nem sociólogo para discordar”, interpretando-a como uma aceitação total da opinião dos especialistas. No entanto, o “mas” que segue é um dos conectivos mais importantes da língua portuguesa para indicar uma quebra, uma oposição à ideia anterior. Mesmo sem a autoridade de especialista, o autor apresenta uma visão que contesta a conclusão dos outros, baseada em sua observação. Ele não discorda academicamente, mas contesta a afirmação deles com sua impressão.
- Fechamento e expectativa: O posicionamento do autor, ao apresentar sua “impressão” que contradiz a conclusão dos especialistas, é de contestar a ideia de que os comportamentos da Inquisição não se mantiveram. Assim, esperamos que a alternativa que reflita essa contestação seja a correta.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- (🔴) Alternativa A: Incorreta. O texto menciona a duração da Inquisição em Portugal e na Espanha como base histórica, mas o posicionamento do autor sobre a perpetuação de comportamentos é focado na sociedade brasileira e em sua impressão que contraria os especialistas, não em enfatizar comportamentos observados especificamente em Portugal e na Espanha no presente.
- (🟢) Alternativa B: Correta. O autor, ao dizer que “tem a impressão” de que existem resquícios da Inquisição em comportamentos na sociedade brasileira, está apresentando uma ideia que se opõe diretamente às “respostas negativas” dos sociólogos, psicólogos e historiadores. Ou seja, ele está contestando, com base em sua percepção, a conclusão desses especialistas sobre a não manutenção desses comportamentos.
- (🔴) Alternativa C: Incorreta. Embora o autor contraponha sua impressão aos argumentos dos especialistas, a alternativa B (“contesta”) é mais precisa ao indicar que ele está de fato desafiando a conclusão deles, mesmo que de forma “impressiva” e não acadêmica. A palavra “contrapõe” é mais neutra, enquanto “contesta” capta melhor a ideia de desafio à conclusão negativa dos especialistas.
- (🔴) Alternativa D: Incorreta. O autor não “relativiza” (torna menos absoluto ou importante) esses comportamentos. Pelo contrário, ele os valoriza como possíveis “resquícios” da Inquisição, sugerindo uma permanência e uma relevância que os especialistas negam.
- (🔴) Alternativa E: Incorreta. O autor não questiona a existência de comportamentos culturais brasileiros marcados pela Inquisição. Na verdade, ele sugere que eles existem e que “fazem sentido” se considerados como herança, indo contra a negação dos especialistas.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
- Resumo do Raciocínio: O autor, ao expressar sua “impressão” de que comportamentos da Inquisição persistem na sociedade brasileira, mesmo após a maioria dos especialistas ter negado essa possibilidade, adota um posicionamento que contesta a conclusão dos sociólogos, historiadores e psicólogos.
- Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a B) contesta sociólogos, psicólogos e historiadores sobre a manutenção de comportamentos gerados pela Inquisição.
- Resumo Final para Revisão 🔍: Em um texto de opinião, preste atenção aos conectivos como “mas”, “porém”, “no entanto”! Eles são a chave para identificar a quebra na linha de raciocínio e o posicionamento do autor, especialmente quando ele contraria uma ideia anterior.