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Questão 113, caderno azul do ENEM 2010

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas.

LISPECTOR, C. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
 

A autora emprega por duas vezes o conectivo mas no fragmento apresentado. Observando aspectos da organização, estruturação e funcionalidade dos elementos que articulam o texto, o conectivo mas

A) expressa o mesmo conteúdo nas duas situações em que aparece no texto.

B) quebra a fluidez do texto e prejudica a compreensão, se usado no início da frase.

C) ocupa posição fixa, sendo inadequado seu uso na abertura da frase.

D) contém uma ideia de sequência temporal que direciona a conclusão do leitor.

E) assume funções discursivas distintas nos dois contextos de uso.   

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Língua Portuguesa (Morfossintaxe – Conjunções Coordenativas, Funções Discursivas), Interpretação de Texto, Análise Textual.

Tema/Objetivo Geral: Análise da Polifuncionalidade de Conectivos (Conjunções) em Contextos Textuais Diversos.

Nível da Questão: Médio. Esta questão é considerada de nível médio porque exige do estudante não apenas o reconhecimento do conectivo “mas”, mas, crucialmente, a capacidade de analisar seu uso em diferentes contextos dentro do mesmo fragmento, percebendo que uma mesma palavra pode assumir funções discursivas distintas. Isso demanda uma compreensão mais aprofundada da semântica e da sintaxe.

Gabarito: Alternativa E. O conectivo “mas” assume funções discursivas distintas nas duas ocorrências do texto, estabelecendo uma oposição na primeira vez e uma ênfase ou restrição na segunda.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “o conectivo mas”
  • O que está sendo pedido? A questão nos pede para analisar o uso do conectivo “mas” nas duas vezes em que ele aparece no fragmento de Clarice Lispector e identificar qual alternativa descreve corretamente a sua funcionalidade.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é comparar as duas ocorrências do conectivo “mas” no texto, determinar a função específica que ele desempenha em cada contexto e, com base nisso, escolher a alternativa que melhor expressa essa análise.
  • Pergunta de Atenção: Você se lembra que, em português, uma mesma palavra pode ter significados e funções diferentes dependendo do contexto em que é usada?

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo Classificação Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Conectivo Elemento Textual É uma palavra ou expressão que liga partes de um texto (palavras, frases, orações, parágrafos), estabelecendo uma relação de sentido entre elas. Ajuda a dar fluidez e coerência ao que se escreve ou fala. Palavras como “e”, “mas”, “porque”, “entretanto”, “assim”, “portanto”, que conectam as ideias.
“Mas” (Conjunção) Conjunção Coordenativa Adversativa É um conectivo que, tradicionalmente, indica uma ideia de oposiçãocontraste ou adversidade entre duas partes de uma frase ou entre frases. Ele apresenta um fato que se contrapõe ao que foi dito antes. “Estudei muito, mas não passei no exame.” (Apesar de ter estudado, o resultado foi o contrário do esperado).
Função Discursiva Linguística/Textual Refere-se ao papel que uma palavra ou expressão desempenha na construção do sentido de um texto, ou seja, para que ela serve dentro da comunicação (ex: introduzir uma causa, uma oposição, uma consequência, uma ênfase, etc.). O “e” pode somar ideias (“li e escrevi”) ou indicar uma consequência (“caiu e quebrou a perna”).
Oposição/Contraste Relação de Sentido É quando uma ideia se coloca contra outra, mostrando uma diferença ou um impedimento. O que vem depois do conectivo é diferente ou contrário ao que veio antes. “Ele é alto, mas ela é baixa.” (Um se contrapõe ao outro em relação à altura).
Ênfase/Restrição Relação de Sentido É quando o conectivo serve para destacar, realçar uma informação, ou para limitar/especificar o que foi dito, em vez de simplesmente opor. Geralmente aparece em construções como “não só… mas também”, ou “não X, mas Y”. “Não quero café, mas sim chá.” (O “mas sim” enfatiza a escolha pelo chá). No exemplo da questão, “não outras, mas essas apenas” enfatiza a exclusividade.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: O trecho da Clarice Lispector nos mostra a vida da Ana com seus filhos, a casa, o calor. Duas vezes, a palavra “mas” aparece. A primeira vez é quando ela fala do fogão estourando e, de repente, do vento que a faz pensar em parar. A segunda é quando ela diz que plantou “não outras, mas essas apenas” sementes. A questão quer que a gente olhe para essas duas ocorrências do “mas” e diga: ele significa a mesma coisa nas duas frases ou ele tem funções diferentes em cada uma?
  • Estratégia Geral: Nosso plano é analisar cada frase onde o “mas” aparece individualmente. Vamos tentar substituir o “mas” por sinônimos ou paráfrases para entender a relação de sentido que ele estabelece em cada contexto. Depois, compararemos essas duas funções para ver se são iguais ou distintas, e assim, escolher a alternativa correta.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado
  • Analisar a primeira ocorrência do “mas”:
    • “A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte.”
    • Neste trecho, as frases anteriores descrevem uma realidade de trabalho, problemas domésticos (fogão enguiçado, calor) e responsabilidades financeiras (apartamento pagando). O “Mas” introduz uma ideia que contrasta com essa realidade pesada. O vento traz um lembrete de liberdade, de uma possibilidade de pausa, de um respiro, que se opõe à condição de Ana. Aqui, o “mas” tem um valor claramente adversativo, introduzindo um elemento de contraste ou oposição. Poderíamos substituí-lo por “No entanto”, “Contudo”.
  • Analisar a segunda ocorrência do “mas”:
    • “Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas.”
    • Nesta frase, o “mas” aparece na construção “não X, mas Y”. Ele não está introduzindo uma ideia que se opõe à anterior no sentido de um obstáculo ou contraste forte. Em vez disso, ele está enfatizando ou especificando as sementes que ela realmente plantou, excluindo as outras. Ele reforça a exclusividade de “essas apenas”. É como dizer “não as outras, e sim essas apenas”. Aqui, o “mas” tem um valor de ênfase, restrição ou retificação, mais do que de oposição direta.
  • Verificação Intermediária: A diferença entre os dois usos é clara. No primeiro caso, há um contraste entre o ambiente opressivo e a possibilidade de escape. No segundo, há uma especificação excludente (“apenas essas”), com um tom de ênfase. As funções semânticas são distintas.
  • Possível armadilha: A armadilha aqui seria pensar que, por “mas” ser uma conjunção adversativa, ela sempre terá o mesmo valor de oposição. No entanto, o contexto e a estrutura da frase são cruciais para definir a função exata. No segundo caso (“não outras, mas essas apenas”), o “mas” não indica uma quebra na expectativa, mas sim uma confirmação enfática da particularidade das sementes plantadas. Se você apenas memorizou que “mas” é adversativo, sem analisar a sutileza de cada uso, poderia errar. Lembre-se que a língua é viva e as palavras se adaptam aos contextos!
  • Fechamento e expectativa: A análise detalhada das duas ocorrências revela que o “mas” assume funções semânticas diferentes. A primeira introduz uma ideia de contraste, enquanto a segunda enfatiza e restringe. Portanto, esperamos que a alternativa que destaca essa distinção seja a correta.

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • (🔴) Alternativa A: Incorreta. Como demonstramos na análise, o “mas” expressa ideias distintas nos dois contextos: uma de oposição e outra de ênfase/restrição.
  • (🔴) Alternativa B: Incorreta. O conectivo “mas” não quebra a fluidez do texto nem prejudica a compreensão quando usado no início da frase, desde que faça sentido contextual. Gramaticalmente, é aceitável iniciar frases com “Mas” em certas construções, e no fragmento, seu uso é fluído.
  • (🔴) Alternativa C: Incorreta. O conectivo “mas” não ocupa uma posição fixa na frase. Embora seja mais comum em posição intermediária, pode sim iniciar uma frase, especialmente em contextos de adversidade ou transição discursiva, sem ser inadequado.
  • (🔴) Alternativa D: Incorreta. O conectivo “mas” é uma conjunção coordenativa adversativa (ou com função similar), não temporal. Ele não indica uma sequência de tempo.
  • (🟢) Alternativa E: Correta. O conectivo “mas” assume funções discursivas distintas. Na primeira ocorrência, ele estabelece uma oposição (apesar do calor e dos problemas, há um alívio trazido pelo vento). Na segunda, ele tem uma função de ênfase ou restrição, complementando a negação anterior (“não outras, mas essas apenas” = somente essas, com a exclusão das outras realçada).

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: A questão nos pediu para analisar as duas ocorrências do conectivo “mas” no texto. Descobrimos que a primeira vez ele indica uma oposição (contraste), enquanto a segunda vez ele serve para enfatizar uma restrição. Essa diferença de sentido mostra que uma mesma palavra pode ter funções variadas.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a E) assume funções discursivas distintas nos dois contextos de uso.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Não se prenda apenas à classificação gramatical! Um mesmo conectivo, como o “mas”, pode ter diferentes funções discursivas (o que ele faz para o sentido do texto) dependendo do contexto em que é empregado. Sempre analise a relação que ele estabelece entre as ideias!

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