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Questão 115, caderno azul do ENEM 2010

Resta saber o que ficou nas línguas indígenas no Português do Brasil. Serafim da Silva Neto afirma: “No Brasil não há, positivamente, influência das línguas africanas ou ameríndias”. Todavia, é difícil de aceitar que um longo período de bilinguismo de dois séculos não deixasse marcas no português do Brasil.

ELIA, S. Fundamentos Histórico-Linguísticos do Português do Brasil. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003 (adaptado).

No final do século XVIII, no norte do Egito, foi descoberta a Pedra de Roseta, que continha um texto escrito em egípcio antigo, uma versão desse texto chamada “demótico”, e o mesmo texto escrito em grego. Até então, a antiga escrita egípcia não estava decifrada. O inglês Thomas Young estudou o objeto e fez algumas descobertas como, por exemplo, a direção em que a leitura deveria ser feita. Mais tarde, o francês Jean-François Champollion voltou a estudá-la e conseguiu decifrar a antiga escrita egípcia a partir do grego, provando que, na verdade, o grego era a língua original do texto e que o egípcio era uma tradução.

Com base na leitura dos textos conclui-se, sobre as línguas, que

A) cada língua é única e intraduzível

B) elementos de uma língua são preservados, ainda que não haja mais falantes dessa língua.

C) a língua escrita de determinado grupo desaparece quando a sociedade que a produzia é extinta.

D) o egípcio antigo e o grego apresentam a mesma estrutura gramatical, assim como as línguas indígenas brasileiras e o português do Brasil.

E) o egípcio e o grego apresentavam letras e palavras similares, o que possibilitou a comparação linguística, o mesmo que aconteceu com as línguas indígenas brasileiras e o português do Brasil.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Linguística Histórica, Interpretação de Texto, História da Escrita e Decifração, Influência Linguística e Preservação Cultural.

Tema/Objetivo Geral: Compreensão da Persistência e Influência de Elementos Linguísticos ao Longo do Tempo, Mesmo com a Ausência de Falantes Ativos.

Nível da Questão: Médio. Esta questão é considerada de nível médio porque exige a capacidade de conectar ideias de dois textos aparentemente distintos (um sobre influência linguística no Brasil, outro sobre a decifração de uma língua antiga) e extrair uma conclusão comum que abranja ambos os cenários. A resposta não está explícita em um único trecho, mas é uma inferência que se baseia na síntese das informações apresentadas.

Gabarito: Alternativa B. A leitura dos textos permite concluir que elementos de uma língua podem ser preservados, mesmo que não haja mais falantes ativos dessa língua, o que é demonstrado pela decifração do egípcio antigo e pela sugestão de marcas das línguas indígenas no português do Brasil.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “Com base na leitura dos textos conclui-se, sobre as línguas, que”
  • O que está sendo pedido? A questão nos pede para extrair uma conclusão geral sobre as línguas, baseando-nos nas informações e ideias apresentadas em ambos os textos fornecidos. Devemos buscar um ponto em comum ou uma ideia que seja validada por ambas as passagens.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é sintetizar as mensagens dos dois textos para formular uma conclusão sobre como as línguas (ou seus elementos) se comportam e sobrevivem ao longo do tempo e das interações culturais.
  • Pergunta de Atenção: Você consegue identificar qual é a ideia principal que o primeiro texto levanta sobre a permanência de influências linguísticas e qual é o exemplo concreto de “permanência” que o segundo texto nos dá?

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo Classificação Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Influência Linguística Fenômeno Linguístico É quando uma língua afeta outra, seja incorporando palavras, sons, estruturas gramaticais ou até modos de pensar. Geralmente ocorre por contato entre povos. A palavra “pizza” do italiano no português, ou “churrasco” do português no inglês brasileiro.
Bilinguismo Fenômeno Social/Linguístico É a capacidade de uma pessoa ou uma comunidade falar duas línguas. Um longo período de bilinguismo pode levar a influências mútuas entre as línguas. Uma criança que cresce em casa falando português e na escola falando inglês, ou uma região de fronteira onde duas línguas convivem.
Decifração de Línguas Processo Linguístico/Histórico É o processo de compreender e traduzir uma escrita ou língua antiga que não é mais falada ou compreendida. Geralmente envolve encontrar “chaves” (como a Pedra de Roseta) que contenham o mesmo texto em uma língua conhecida. Os arqueólogos desvendando os hieróglifos egípcios, que ninguém sabia ler, usando outras línguas como guia.
Língua Extinta Classificação Linguística É uma língua que não possui mais falantes nativos ou que não é mais utilizada ativamente em nenhuma comunidade. Apesar de não ser mais falada, seus registros (escritos, artefatos) podem existir e ser estudados. O Latim, que não é falado como língua materna hoje, mas é estudado em textos antigos e influenciou muitas línguas modernas.
Elementos Linguísticos Preservados Conceito Linguístico São partes de uma língua (palavras, sons, estruturas, ou sistemas de escrita) que, de alguma forma, sobreviveram ao tempo ou à extinção da língua, seja por meio de registros escritos, influências em outras línguas ou em artefatos culturais. Palavras em português como “pipoca” ou “capivara” que vêm do Tupi, mostrando que elementos de línguas indígenas foram preservados e incorporados.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: O primeiro texto fala sobre a dúvida de se línguas indígenas e africanas deixaram “marcas” no português do Brasil, mesmo que um especialista tenha dito que não. O autor do texto questiona isso, pensando que um longo tempo de convívio (bilinguismo) deveria ter deixado influências. O segundo texto nos conta a história da Pedra de Roseta, uma pedra antiga que tinha o mesmo texto em três línguas, e como isso permitiu que a escrita egípcia antiga (que ninguém mais sabia ler) fosse decifrada usando o grego. A pergunta quer que a gente junte essas duas ideias e tire uma conclusão geral sobre como as línguas funcionam.
  • Estratégia Geral: Nosso plano é identificar o ponto principal de cada texto. O primeiro texto sugere que, mesmo que uma língua não seja mais tão presente, ela pode ter deixado influências. O segundo texto mostra que uma língua pode ser compreendida mesmo depois de não ter mais falantes vivos, graças à preservação de seus registros. Vamos buscar uma alternativa que generalize essas duas ideias sobre a persistência dos elementos linguísticos.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado
  • Analisar o Texto 1: Este texto aborda a questão da influência de línguas indígenas e africanas no português do Brasil. O autor questiona a afirmação de que “não há, positivamente, influência”, argumentando que um “longo período de bilinguismo de dois séculos não deixasse marcas”. A ideia central aqui é que, mesmo que as línguas não sejam mais dominantes ou amplamente faladas, é difícil aceitar que seus elementos (suas “marcas”) não tenham permanecido na língua dominante.
  • Analisar o Texto 2: Este texto narra a história da Pedra de Roseta, que permitiu a decifração da antiga escrita egípcia. O crucial é que a escrita egípcia não estava decifrada (ou seja, a língua não era compreendida e, presume-se, não havia mais falantes vivos que a usassem para comunicação diária). No entanto, graças à preservação do texto na pedra e à comparação com o grego (uma língua viva e conhecida), a antiga escrita pôde ser compreendida. Isso demonstra que os elementos de uma língua (sua escrita, seu conteúdo) podem ser preservados e compreendidos muito tempo depois de a língua ter deixado de ser falada ativamente.
  • Conectar os dois textos: Ambos os textos, de maneiras diferentes, tratam da persistência ou preservação de aspectos de uma língua, mesmo quando sua vitalidade original diminui. O Texto 1 sugere que “marcas” deveriam ter sido deixadas (persistência de elementos por influência). O Texto 2 mostra que a escrita de uma língua foi decifrada mesmo “ainda que não haja mais falantes dessa língua” (preservação de elementos). A conclusão comum é que os elementos das línguas podem se manter ou ser recuperados, independentemente da existência de falantes ativos.
  • Verificação Intermediária: O ponto chave é a ideia de que a ausência de falantes não significa o desaparecimento total de uma língua ou de seus elementos. O primeiro texto questiona isso, e o segundo texto exemplifica isso de forma concreta com a decifração do egípcio.
  • Possível armadilha: Você poderia se focar apenas em um dos textos. Por exemplo, se só olhasse o Texto 1, poderia tender a uma alternativa sobre a influência linguística. Se só olhasse o Texto 2, talvez se concentrasse na decifração. A questão pede uma conclusão que se extraia da leitura dos textos, ou seja, que seja validada ou reforçada por ambos. A alternativa que une a ideia de que elementos (marcas, escrita) permanecem, mesmo sem falantes, é a mais completa. Outra armadilha seria confundir a decifração da escrita com a permanência da estrutura gramatical ou similaridade de letras, que não são abordadas diretamente para uma conclusão geral.
  • Fechamento e expectativa: A capacidade de uma língua ou seus elementos de se manterem presentes, seja por influência ou por registros físicos, mesmo sem falantes ativos, é o ponto de convergência dos dois textos. Nossa expectativa é que a alternativa que aborda a preservação de elementos linguísticos seja a correta.

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • (🔴) Alternativa A: Incorreta. O Texto 2 explicitamente descreve a decifração do egípcio antigo a partir do grego, provando que o grego era a língua original e o egípcio uma tradução. Isso contradiz a ideia de que as línguas são intraduzíveis.
  • (🟢) Alternativa B: Correta. O Texto 2 é um exemplo direto disso: a escrita egípcia antiga foi decifrada e compreendida (seus “elementos” foram lidos) mesmo “Até então, a antiga escrita egípcia não estava decifrada”, o que implica que não havia falantes ativos da língua. O Texto 1, ao questionar por que “não deixasse marcas” um período de bilinguismo, também reforça a ideia de que elementos (as “marcas”) podem se preservar mesmo sem a língua ser falada.
  • (🔴) Alternativa C: Incorreta. O Texto 2 contradiz essa afirmação. A escrita egípcia antiga não desapareceu, mas foi preservada na Pedra de Roseta e pôde ser decifrada, mesmo depois que a sociedade (ou a prática de uso ativo dessa escrita e língua) havia mudado ou sido extinta em sua forma original.
  • (🔴) Alternativa D: Incorreta. Os textos não fornecem informações para concluir que o egípcio antigo e o grego, ou as línguas indígenas e o português, apresentam a mesma estrutura gramatical. A decifração se deu por comparação de conteúdo, não necessariamente de estrutura gramatical idêntica.
  • (🔴) Alternativa E: Incorreta. O Texto 2 fala do mesmo texto em diferentes escritas, não de “letras e palavras similares” entre o egípcio e o grego em geral. A comparação linguística foi do conteúdo do texto. Além disso, o Texto 1 discute a influência, não a similaridade de letras ou palavras entre línguas indígenas e o português.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: Ao analisar as duas passagens, percebemos que ambas abordam a persistência de aspectos linguísticos. O primeiro texto questiona a ausência de “marcas” de línguas indígenas no português, e o segundo demonstra concretamente como uma língua antiga pôde ser compreendida através de seus registros, mesmo sem falantes vivos.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a B) elementos de uma língua são preservados, ainda que não haja mais falantes dessa língua.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Quando se fala em línguas e tempo, lembre-se: mesmo que uma língua pare de ser falada, seus rastros (sejam palavras em outra língua, sejam registros escritos) podem permanecer e nos permitir compreendê-la ou reconhecer sua influência!

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