Questão 112 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

“Um programa de inclusão digital com foco na redução de preços favorece mais a indústria do que os usuários. Dizer que preços baixos podem ajudar na resolução do problema é como afirmar que um indivíduo estará alfabetizado quando ganhar uma caneta. Será que uma questão tão abrangente pode ser resolvida com micros mais baratos?” No Brasil há cinco meses, onde trabalha como professor visitante da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Roberto Aparici defende a inclusão com foco na alfabetização digital — só assim, as pessoas saberão como tirar o melhor proveito da tecnologia. “A informática, por si só, não transforma vidas. É necessário que as pessoas vejam a internet como uma ferramenta que melhore seu trabalho, sua vida pessoal. Para isso, elas precisam ser ensinadas com uma metodologia que inclua processos mais complexos do que o uso do teclado e do mouse”, diz.

CARPANEZ, J. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 2 dez. 2012 (fragmento).

A leitura do texto evidencia que, para convencer o leitor a respeito das ideias apresentadas sobre a inclusão digital, o autor

A) aborda uma temática que constitui interesse da população economicamente favorecida.

B) orienta sobre a utilização dos recursos oferecidos nos programas de computadores.

C) informa sobre a recente redução de preços de computadores no Brasil.

D) apoia-se no posicionamento de um pesquisador renomado na área.

E) defende que as pessoas devem saber usar o teclado e o mouse.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto
  • Estratégias Argumentativas
  • Tipos de Argumentos (com foco em Argumento de Autoridade)

Tema/Objetivo Geral: Identificar o recurso retórico utilizado pelo autor para conferir credibilidade à sua tese e persuadir o leitor.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: A questão exige um passo além da simples compreensão do conteúdo. O candidato precisa realizar uma análise metalinguística, ou seja, entender não apenas o que o texto diz, mas como ele constrói sua argumentação para ser convincente. Identificar a estratégia por trás do discurso é uma habilidade mais complexa do que apenas localizar informações.

Gabarito: D) apoia-se no posicionamento de um pesquisador renomado na área.

  • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a principal tática do autor para validar sua opinião é citar diretamente a fala e as credenciais de um especialista no assunto, Roberto Aparici, transferindo a autoridade acadêmica dele para o seu próprio texto.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pergunta: “Qual foi a ‘arma secreta’ ou a principal jogada do autor para fazer você, leitor, acreditar no ponto de vista dele sobre inclusão digital?”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o autor é um advogado em um tribunal tentando provar um caso. Ele tem uma opinião forte (sua tese), mas só a opinião dele pode não ser suficiente para convencer o júri (nós, os leitores). O que um bom advogado faz? Ele chama uma testemunha especialista – alguém com um currículo impressionante, um doutor, um perito – para depor e dizer: “Sim, o que este advogado está dizendo é verdade, e eu posso provar com base na minha experiência e conhecimento”. Nossa missão é identificar quem é essa “testemunha especialista” no texto e entender como o autor a utiliza.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será uma perícia textual em três fases:

  • Isolar a Tese do Autor: Primeiro, vamos identificar qual é a opinião central que o autor está defendendo com unhas e dentes.
  • Localizar a “Testemunha”: Em seguida, vamos procurar no texto o momento exato em que ele convoca um reforço, uma voz externa para apoiar sua causa.
  • Analisar a Estratégia: Por fim, vamos conectar a tese à testemunha para definir o nome técnico dessa jogada argumentativa e, assim, prever a resposta correta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a “jogada” do autor, precisamos abrir nosso dossiê sobre as principais armas de um escritor: as Estratégias de Persuasão. Convencer alguém é uma arte, e estas são as ferramentas.

  • 🕵️‍♂️ DOSSIÊ: ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO (COMO VENCER UM DEBATE) 🕵️‍♂️Um autor pode usar diversas táticas para fortalecer seu ponto de vista. As mais comuns em provas são:
    • Tática 1: Prova Concreta (Dados e Fatos):
      • Descrição: O autor usa números, estatísticas, pesquisas e fatos verificáveis. É o argumento do “contra fatos não há argumentos”.
      • Exemplo: “A inclusão digital é ineficaz, pois 80% dos novos usuários não sabem criar um e-mail, segundo dados do IBGE.”
    • Tática 2: Exemplificação ou Ilustração:
      • Descrição: O autor conta um caso real ou fictício que “desenha” sua ideia na mente do leitor, tornando um conceito abstrato em algo concreto e fácil de entender.
      • Exemplo: “Apenas dar o computador não adianta. Vejam o caso de João, que recebeu um notebook do governo e hoje o usa apenas como peso de porta.”
    • Tática 3: Analogia ou Comparação:
      • Descrição: O autor explica algo complexo comparando-o com algo simples e conhecido do leitor. Foi o que o autor do nosso texto fez no início ao comparar “dar um computador” com “dar uma caneta”.
    • ⭐ Tática 4: Argumento de Autoridade (A Arma Deste Caso) ⭐
      • Descrição: Esta é a “jogada de mestre” quando se quer credibilidade instantânea. O autor “pega emprestada” a reputação de uma pessoa ou instituição consagrada em determinada área do saber para reforçar seu próprio argumento.
      • Objetivo Estratégico: Transferir o respeito e a confiança que o leitor tem na autoridade citada para a tese que o autor está defendendo. É um atalho para a credibilidade.
      • Como Identificar (Sinais de Alerta do Detetive):
        • Menção a nomes de especialistas, pesquisadores, cientistas, filósofos.
        • Citação de instituições de renome (universidades, centros de pesquisa). Ex: “UFBA”.
        • Uso de aspas para indicar uma citação direta da autoridade.
        • Verbos como “defende”, “afirma”, “segundo…”, “de acordo com…”.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Com nossas ferramentas em mãos, vamos executar o plano de ataque e seguir o rastro do raciocínio do autor. Usaremos nosso Fluxograma de Raciocínio para visualizar a construção do argumento.

Fluxograma da Persuasão: A Escalada Argumentativa do Autor

Ponto de Partida: A Provocação Inicial (A Tese do Autor)

  • O autor começa com uma opinião forte e polêmica: “Um programa de inclusão digital com foco na redução de preços favorece mais a indústria do que os usuários.”
  • Em outras palavras: Ele está dizendo que a estratégia atual de inclusão digital está errada, pois foca apenas em dar o aparelho barato e esquece o principal: as pessoas.

Primeiro Reforço: A Analogia Esclarecedora

  • Para que sua tese não pareça apenas uma opinião vaga, ele a torna mais palpável com uma comparação: “Dizer que preços baixos podem ajudar (…) é como afirmar que um indivíduo estará alfabetizado quando ganhar uma caneta.”
  • Análise: Esta analogia é poderosa. Ela mostra o quão absurda é a ideia de que a ferramenta, por si só, gera conhecimento. O leitor pensa: “É verdade, uma caneta não ensina a escrever”. A tese do autor ganha força.

O Ponto de Virada: A Jogada de Mestre (A Invocação da Autoridade)

  • O autor sente que, mesmo com uma boa analogia, sua opinião ainda é… a sua opinião. Como transformá-la em uma verdade quase inquestionável? Ele precisa de reforços. É aqui que ele saca sua “testemunha especialista”.
  • Ele apresenta a testemunha e suas credenciais: “Roberto Aparici”, que não é qualquer um, ele é “professor visitante da UFBA (Universidade Federal da Bahia)”.
  • Análise Estratégica: O autor está dizendo ao leitor: “Não acredite apenas em mim. Escute o que um professor universitário, um acadêmico, um pesquisador da área, tem a dizer sobre isso.” A credibilidade do argumento dá um salto quântico.

O Golpe Final: O Depoimento da Autoridade (A Citação Direta)

  • O autor abre aspas e deixa o especialista falar diretamente com o leitor: “A informática, por si só, não transforma vidas. (…) elas precisam ser ensinadas com uma metodologia que inclua processos mais complexos do que o uso do teclado e do mouse”.
  • Análise: A fala de Aparici ecoa e confirma perfeitamente a tese inicial do autor. O que era uma opinião no primeiro parágrafo agora é validado pela voz de um especialista. O argumento se fecha.
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: Nossa investigação demonstrou que o autor constrói sua argumentação em etapas. Ele apresenta sua tese, a ilustra com uma analogia e, como movimento principal para garantir a persuasão, ancora todo o seu ponto de vista na fala e nas credenciais de uma autoridade acadêmica, o professor Roberto Aparici.
    • Expectativa: A alternativa correta deve descrever precisamente essa ação de se basear ou se apoiar na opinião de um especialista/pesquisador para dar peso ao próprio argumento.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa “Expectativa” com as suspeitas.

  • Alternativa A: aborda uma temática que constitui interesse da população economicamente favorecida.
    • A “Narrativa do Erro”: Uma leitura desatenta que não compreende o conceito de “inclusão digital”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O tema “inclusão digital”, especialmente quando fala em redução de preços, é historicamente voltado para a população com menos recursos, e não o contrário.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa B: orienta sobre a utilização dos recursos oferecidos nos programas de computadores.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta o texto como um manual ou tutorial.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não o Fim. O texto defende que essa orientação deveria existir, mas ele não a fornece. A função do texto não é orientar, mas sim argumentar sobre a necessidade da orientação.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa C: informa sobre a recente redução de preços de computadores no Brasil.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca nas palavras “redução de preços” e as toma como o tópico principal.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto não informa sobre uma redução de preços; pelo contrário, ele critica a ideia de que a redução de preços seja a solução para o problema.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa D: apoia-se no posicionamento de um pesquisador renomado na área.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o “retrato falado” perfeito da nossa Bússola. Ela descreve com precisão a principal estratégia argumentativa que identificamos no fluxograma: o uso do “posicionamento” (opinião) de um “pesquisador” (Roberto Aparici) para dar suporte à tese.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • Alternativa E: defende que as pessoas devem saber usar o teclado e o mouse.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na armadilha de focar em um detalhe do final do texto.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever a parte, não o todo). Esta é uma ideia contida na fala do especialista, mas não é a estratégia central do autor. A estratégia foi citar o especialista, e não a defesa específica do uso do mouse.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Fica provado, sem sombra de dúvida, que a alternativa D é a correta. A força do texto não reside apenas na lógica do autor, mas no peso e na credibilidade que ele estrategicamente “importa” de uma autoridade acadêmica.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Para provar um ponto, às vezes é mais forte usar a voz de um mestre do que a sua própria.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O princípio do Argumento de Autoridade é a base da própria Ciência. Quando um cientista escreve um artigo, a seção de “revisão bibliográfica” ou “estado da arte” é exatamente isso: ele cita os trabalhos de Newton, Einstein, Marie Curie ou outros pesquisadores renomados para dizer: “Eu não estou partindo do zero. Meu trabalho se apoia sobre os ombros de gigantes”. Assim como no texto da questão, na ciência, apoiar-se no posicionamento de uma autoridade não é uma fraqueza, mas sim o pilar que confere validade e credibilidade a novas ideias.

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