Questão 111 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

Ao analisar as informações visuais e linguísticas dessa charge, entende-se que ela cumpre a função de

A) ironizar, de forma bem-humorada, o fracasso dos esforços governamentais no combate à pirataria.

B) denunciar, de forma preconceituosa, o comportamento dos vendedores de programas piratas.

C) divulgar, de forma revolucionária, os projetos governamentais para impedir a pirataria.

D) apoiar, de forma explícita, os movimentos populares de apoio ao combate à pirataria.

E) incentivar, de forma irônica, o comércio popular de programas de informática.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Gêneros Textuais (Charge)
  • Análise de Linguagem Verbal e Não Verbal
  • Figuras de Linguagem (Ironia)

Tema/Objetivo Geral: Identificar a crítica social e a função de uma charge a partir da articulação entre imagem e texto.

Nível da Questão: Fácil.

  • Justificativa: O nível é considerado fácil porque a contradição que gera o humor e a crítica é extremamente direta e explícita. A imagem de um vendedor ambulante (estereótipo da pirataria) vendendo um “programa antipirataria” cria um paradoxo imediato, que não exige interpretações profundas ou conhecimentos prévios complexos para ser compreendido.

Gabarito: A) ironizar, de forma bem-humorada, o fracasso dos esforços governamentais no combate à pirataria.

  • Explicação Resumida: A alternativa está correta pois a charge expõe o absurdo da situação: o próprio agente da pirataria vende a “solução” contra ela, evidenciando com humor e ironia que os mecanismos de combate são tão ineficazes que se tornaram, eles mesmos, produtos pirateados.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pede para agir como um detetive de significados e descobrir: “Qual é a verdadeira função ou a mensagem crítica desta charge?”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na charge como uma piada contada por um comediante de stand-up. A história é engraçada (um camelô vendendo algo bizarro), mas o verdadeiro objetivo não é só a risada. É usar essa história para cutucar uma ferida, para fazer uma crítica ácida sobre um problema real da sociedade. Nossa missão é identificar qual é exatamente essa “ferida” que o cartunista está apontando.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será metódico e certeiro.

  • Investigar a Cena do Crime: Analisaremos a imagem (linguagem não verbal) para entender quem é o personagem e onde ele está.
  • Analisar a Declaração: Decifraremos o que o personagem está gritando (linguagem verbal).
  • Conectar as Pistas: Juntaremos a imagem e o texto para encontrar o “coração do mistério”: a grande contradição da cena.
  • Formular a Teoria: A partir dessa contradição, deduziremos qual é a crítica principal, ou seja, a função da charge.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Um bom detetive nunca vai a campo sem sua caixa de ferramentas. Para este caso, precisaremos de três instrumentos de alta precisão. Vamos organizá-los metodicamente.

  • 🛠️ Ferramenta 1: A Lupa Visual (Análise da Linguagem Não Verbal)
    • Função: Isolar e examinar cada detalhe da imagem. A imagem fala antes do texto.
    • Aplicação em Campo (Ficha Técnica da Cena):
      • Personagem: Um homem magro, com roupas simples, gritando com a boca bem aberta. Sua postura é a de um vendedor de rua anunciando seu produto.
      • Cenário: Indefinido, mas a presença da banca improvisada (um cavalete com uma prateleira) o coloca em um ambiente de comércio de rua, informal.
      • Objetos-Chave:
        1. Uma banca exibindo mídias, provavelmente CDs ou DVDs em suas caixinhas.
        2. Uma mídia (CD/DVD) sendo erguida na mão do vendedor, destacando o produto.
    • Diagnóstico Preliminar da Lupa: O conjunto visual (personagem, cenário, objetos) constrói imediatamente o arquétipo do vendedor ambulante (camelô), uma figura central no imaginário popular do comércio informal e, por extensão, da pirataria.
  • 🛠️ Ferramenta 2: O Decodificador Verbal (Análise da Linguagem Verbal)
    • Função: Analisar o texto não apenas pelo que ele diz, mas como ele diz.
    • Aplicação em Campo (Análise da Declaração):
      • Conteúdo da Mensagem: “PROGRAMA ANTIPIRATARIA!! 1 É TREI RÉAU! 2 É CINCO!”.
      • Análise Semântica: A palavra-chave é “ANTIPIRATARIA”. É um termo que denota combate, legalidade, repressão ao comércio ilegal.
      • Análise Fonética/Estilística: A grafia “TREI RÉAU” é uma escolha deliberada do autor. Ele não escreveu “três reais”. Ele transcreveu a fonética popular, a forma como a frase seria gritada no calor da rua. Isso reforça a autenticidade e a informalidade da cena que a Lupa Visual já havia nos mostrado.
  • 🛠️ Ferramenta 3: O Detector de Contradições (A Ironia como Chave-Mestra)
    • Função: A ferramenta mais sofisticada. Ela é ativada quando as Ferramentas 1 e 2 apresentam resultados conflitantes. Vamos usar um diálogo para entender seu poder.
    • Diálogo Mentor-Aluno (🕵️‍♂️ & 🧠):
      • 🕵️‍♂️ Mentor: “Certo, detetive. Nossa Lupa Visual nos mostrou o universo da pirataria. Nosso Decodificador Verbal nos mostrou uma mensagem antipirataria. Você está vendo o que eu estou vendo?”
      • 🧠 Aluno: “Com certeza. As pistas não se encaixam! É como encontrar a arma de um crime na mão do chefe de polícia. O representante da pirataria está vendendo a solução contra a pirataria.”
      • 🕵️‍♂️ Mentor: “Exatamente! E esse choque, essa colisão de opostos, é o que chamamos de ironia. A charge cria propositalmente uma situação absurda e ilógica para nos forçar a pensar. Ela não quer que a gente acredite que isso é uma venda real. Ela quer que a gente se pergunte: ‘Meu Deus, a que ponto a situação chegou para que essa cena absurda faça algum sentido como crítica?’. A ironia é a bomba de fumaça que, quando se dissipa, revela a verdade.”

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos executar nossa investigação. Não vamos simplesmente analisar as pistas; vamos construir o raciocínio juntos, como se estivéssemos montando um quebra-cabeça em tempo real. Para isso, vamos usar um Fluxograma de Raciocínio em texto, que nos guiará passo a passo até a conclusão.

Fluxograma da Investigação: Do Fato à Crítica

Ponto de Partida: As Evidências Iniciais

  • Pista Visual 👁️: Vemos um vendedor ambulante, em um cenário de comércio informal.
  • Pista Verbal 🗣️: Ouvimos o grito de “PROGRAMA ANTIPIRATARIA!” com um preço promocional (“1 É TREI RÉAU! 2 É CINCO!”).

Primeira Inferência: Estabelecendo o Contexto

  • O contexto visual (camelô, banca) nos joga imediatamente no universo da informalidade e da pirataria. É o cenário padrão onde se comprariam, por exemplo, filmes e jogos piratas.

Identificação do Conflito Central (O Paradoxo)

  • 💥 ALERTA DE COLISÃO! 💥 Aqui, as duas pistas batem de frente. O MUNDO DA PIRATARIA (representado pelo vendedor e seu ambiente) colide diretamente com a MENSAGEM ANTIPIRATARIA (o produto que ele vende). É o lobo vendendo a cerca elétrica para o galinheiro. A cena é fundamentalmente ilógica.

A Grande Pergunta Investigativa: O “Porquê” da Cena

  • A cena é absurda. Nenhum detetive acreditaria que isso é real. Logo, a pergunta-chave é: Por que o cartunista criou essa cena impossível? Qual é o verdadeiro alvo da sua piada? Uma charge nunca é ilógica por acidente. A ilógica é a ferramenta.

Formulação da Hipótese Central (O Raciocínio Dedutivo)

  • 1º Elo: Se a cena não pode ser literal, ela deve ser simbólica. O vendedor não é apenas um vendedor, e o produto não é apenas um produto. Eles representam ideias maiores.
  • 2º Elo: Vamos traduzir os símbolos:
    • O Vendedor Ambulante = O Problema (a pirataria disseminada e normalizada).
    • O “Programa Antipirataria” = A Solução (as políticas, leis e esforços do governo para combater a pirataria).
  • 3º Elo (O Momento “Eureka”): Agora, vamos reinterpretar a cena com os símbolos. A charge está nos mostrando “O Problema vendendo A Solução”.
  • 4º Elo (A Conclusão Lógica): O que acontece quando o próprio problema começa a vender a “solução” como se fosse qualquer outra mercadoria barata? Isso só pode significar uma coisa: a “solução” perdeu completamente seu valor, sua autoridade e sua eficácia. Ela foi tão inútil que foi banalizada, absorvida e transformada em mais um item no catálogo do problema que deveria resolver.
  • 5º Elo (Identificando o Responsável): E quem é o responsável por criar e implementar essa “Solução” que fracassou tão espetacularmente? Não é o vendedor ambulante. Ele é apenas a consequência. O responsável é a instância que deveria ter poder para impedir isso: as instituições, os governos.

Conclusão do Fluxo: A Teoria do Crime

  • Portanto, nosso fluxo de raciocínio nos leva a uma única conclusão inevitável: a charge usa o humor e a ironia de uma cena impossível para construir uma crítica poderosa e direta ao retumbante fracasso dos esforços governamentais no combate à pirataria.
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a charge não acusa o vendedor, mas sim o sistema. Ela constrói uma cena paradoxal (o problema vendendo a solução) para, através da ironia e do humor, expor o colapso e a total ineficácia das políticas de combate à pirataria, que se tornaram, eles mesmos, motivo de piada e objeto de comércio informal.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, mencionar o uso de ironia ou humor para apontar uma falha ou fracasso de uma instância maior (o governo, o sistema) no combate a um problema social (a pirataria).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar nossa “Expectativa” com as suspeitas (as alternativas).

  • Alternativa A: ironizar, de forma bem-humorada, o fracasso dos esforços governamentais no combate à pirataria.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é um retrato falado da nossa conclusão. Ela menciona a ferramenta (“ironizar”), o método (“bem-humorada”) e o alvo exato da crítica (“o fracasso dos esforços governamentais”).
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • Alternativa B: denunciar, de forma preconceituosa, o comportamento dos vendedores de programas piratas.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no personagem do camelô e pensa que ele é o único alvo da crítica.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever a parte, não o todo). A alternativa erra ao limitar a crítica a um indivíduo, quando ele é apenas um sintoma do problema sistêmico. Além disso, não há elementos na charge que sustentem a ideia de uma crítica “preconceituosa”.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa C: divulgar, de forma revolucionária, os projetos governamentais para impedir a pirataria.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a frase “programa antipirataria” de forma literal e ingênua, ignorando todo o contexto irônico.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A charge faz exatamente o oposto: ela não divulga, ela critica e ridiculariza a ineficácia desses projetos.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa D: apoiar, de forma explícita, os movimentos populares de apoio ao combate à pirataria.
    • A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente desatenta que não encontra qualquer base nem na imagem, nem no texto.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Não há nada na charge que sequer sugira a existência ou o apoio a “movimentos populares”.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa E: incentivar, de forma irônica, o comércio popular de programas de informática.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor percebe a ironia, mas aplica sua função de maneira equivocada.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Imprecisa do Foco. A ironia não é usada para “incentivar” o comércio. Ela é usada para “criticar” a falha do combate a esse comércio. O verbo está errado e muda todo o sentido da função da charge.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Fica claro, portanto, que a alternativa A é a correta. A genialidade da charge está em usar uma cena cômica e absurda para expor uma verdade trágica: o fracasso sistêmico no combate à pirataria.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A pirataria virou uma piada tão grande que até a solução contra ela é vendida na banca do camelô.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Este princípio de usar uma contradição interna para criticar um sistema é uma ferramenta poderosa vista na Literatura Distópica. Em obras como “1984” de George Orwell, o “Ministério da Verdade” é responsável por falsificar a história, e o “Ministério do Amor” tortura prisioneiros. Assim como na charge, a nomenclatura do órgão ou do produto (“antipirataria”, “Ministério da Verdade”) está em oposição direta à sua função real, expondo a hipocrisia e a falência do sistema de forma muito mais impactante do que uma crítica direta faria.

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