Questão 110 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

Nas regras de etiqueta, a linguagem coloquial promove maior proximidade do leitor com o texto. Um recurso para a produção desse efeito constitui um desvio à variedade padrão da língua portuguesa. Trata-se do uso

A) de palavras estrangeiras, como “darling” e “pet”, pois afrontam a identidade nacional.

B) do verbo “ter”, que foi utilizado em lugar de “haver” com o sentido de “existir”.

C) da forma verbal “adorei”, uma expressão exagerada de emoção e sentimento.

D) do modo imperativo, típico das conversas informais.

E) do substantivo “bate-papo”, que é uma gíria inadequada para regras de etiqueta.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Variação Linguística (Norma Padrão vs. Norma Coloquial)
  • Sintaxe: Emprego dos verbos “Ter” e “Haver”
  • Interpretação de Texto e Identificação de Marcas de Oralidade

Tema/Objetivo Geral: Identificar, em um texto que emula a fala, um desvio gramatical específico da norma padrão que caracteriza a linguagem coloquial brasileira.

Nível da Questão:

  • Médio. A questão exige que o candidato diferencie vários tipos de informalidade (estrangeirismo, gíria, expressões) e identifique um fenômeno específico de desvio gramatical da norma padrão. A capacidade de distinguir entre um desvio lexical e um desvio sintático é o que eleva a dificuldade da questão.

Gabarito: B) do verbo “ter”, que foi utilizado em lugar de “haver” com o sentido de “existir”.

  • Explicação Resumida: Esta é a resposta correta porque o uso do verbo “ter” com sentido existencial (ex: “Tem muita gente”) é uma das características mais marcantes da variedade coloquial do português brasileiro e constitui um claro desvio da norma padrão escrita, que prescreve o uso de “haver” (“Há muita gente”).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos informa que o texto usa uma linguagem coloquial. Depois, ela pede para identificarmos o desvio específico à variedade padrão da língua portuguesa. Em bom português: O texto tem várias marcas de informalidade, mas qual delas representa uma “quebra de regra” da gramática formal?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a Língua Portuguesa como um código de trânsito. A “Norma Padrão” é o manual oficial, cheio de regras rígidas. O “Uso Coloquial” é como os motoristas dirigem no dia a dia, com seus costumes e atalhos. O texto “Finíssima” é uma cena desse trânsito real. A questão nos pede para não apenas apontar um “carro estrangeiro” (um estrangeirismo como “darling”) ou uma “buzina diferente” (uma gíria como “bate-papo”), mas para encontrar um motorista que está, segundo o manual, cometendo uma infração de regra gramatical clara.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Estabelecer a Lei: Vamos primeiro criar uma tabela para deixar clara a “lei” (a Norma Padrão) e a “prática” (a Norma Coloquial) sobre o uso dos verbos Ter e Haver.
  • Analisar a Cena do Crime: Vamos escanear o texto em busca da “infração” gramatical, o desvio da norma padrão.
  • Construir o Caso: Em um fluxograma detalhado, vamos provar por que essa “infração” é o desvio que a questão procura, e por que as outras marcas de informalidade não se encaixam na mesma categoria.
  • Criar o Retrato Falado: Com base na nossa dedução, vamos prever como a alternativa correta deve ser.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender o “crime” gramatical, precisamos de uma Tabela Comparativa de Jurisprudência Linguística, contrastando a “lei” e o “costume”.

Tabela Comparativa: O Caso do Verbo “Ter” vs. “Haver”

Aspecto da Lei Norma Padrão (O “Manual de Trânsito”) Norma Coloquial (A “Direção do Dia a Dia”)
Uso para indicar EXISTÊNCIA Prescreve o uso do verbo HAVER (ou EXISTIR). É um verbo impessoal (fica sempre no singular). Utiliza massivamente o verbo TER. É tratado como um verbo pessoal (pode ir para o plural).
Exemplo de Aplicação “Há muitas pessoas no elevador.” “Tem muitas pessoas no elevador.”
Status da “Infração” Na escrita formal, usar “ter” com sentido de “existir” é considerado um desvio da norma padrão. Na fala cotidiana do brasileiro, o uso de “ter” com sentido de “existir” é a regra, sendo o uso de “haver” muito mais raro e formal.

Conclusão da Tabela: A tabela deixa claro que, embora o uso de “ter” existencial seja comum e legítimo na fala, ele representa um desvio claro quando comparado à gramática normativa formal, que é a “variedade padrão” mencionada na questão.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos agora construir a nossa dedução em um fluxograma de raciocínio, dissecando cada camada da questão para chegar à verdade de forma irrefutável.

  • 1. O Ponto de Partida: A Definição do “Crime”
    A questão não pede qualquer marca de informalidade. Ela pede um “desvio à variedade padrão da língua portuguesa“. Isso é crucial. Precisamos procurar algo que, segundo a gramática formal, estaria “incorreto” em um texto escrito monitorado (como uma redação de vestibular ou um documento oficial). Isso elimina, de cara, características que são apenas escolhas de estilo ou vocabulário, e nos força a procurar uma quebra de regra gramatical.
  • 2. A Caça às Evidências: Vasculhando o Texto
    Lendo o texto da colunista Ana Maria, encontramos a seguinte frase: “Tem muita gente que não sabe se comportar no elevador…”. Esta é a nossa prova material, a “arma do crime”.
  • 3. A Análise da Prova: Confrontando com a “Lei”
    Levamos a frase “Tem muita gente” ao nosso laboratório (a Tabela do Passo 2).
    • Análise Semântica: O sentido da frase é “Existe muita gente”. O verbo “ter” está sendo usado com valor existencial.
    • Análise Sintática (Norma Padrão): Segundo a “lei”, para indicar existência, deveríamos usar o verbo impessoal “Haver”. A construção formal seria: “Há muita gente…”.
    • Veredito: A construção “Tem muita gente” é, portanto, um exemplo perfeito e inegável de um desvio da norma padrão. Encontramos nosso principal suspeito.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (A), sobre as palavras estrangeiras “darling” e “pet”. Elas são, sem dúvida, marcas de coloquialidade e ajudam a construir a persona “finíssima” da colunista. Um candidato pode pensar: “Isso não é português, logo é um desvio”. No entanto, o uso de estrangeirismos (empréstimos lexicais) é um fenômeno de vocabulário, não de gramática. A estrutura da frase “Adorei a pergunta, darling!” está gramaticalmente correta. A questão pede um desvio na estrutura da língua, uma infração sintática, e não apenas uma palavra “importada”.

  • 4. A Eliminação de Outros Suspeitos
    • “Adorei” (C): É uma palavra perfeitamente dicionarizada e gramaticalmente correta. Usá-la para expressar uma emoção forte é uma marca de estilo, não um desvio.
    • Modo Imperativo (D): “Arote”, “espere”, “cumpri-mente”. O modo imperativo é um modo verbal legítimo da língua portuguesa, usado para dar instruções. Não há nenhum desvio gramatical aqui.
    • “Bate-papo” (E): É uma gíria ou expressão coloquial. Assim como “darling”, é uma escolha de vocabulário (léxico), não uma quebra de regra gramatical (sintaxe).
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revelou que, entre as várias marcas de informalidade do texto, apenas uma constitui um desvio claro da sintaxe da norma padrão: o uso do verbo “ter” com o sentido impessoal de “existir”. As outras são fenômenos lexicais (estrangeirismos, gírias) ou usos gramaticais perfeitamente válidos (imperativo).
    • Expectativa: A alternativa correta deve ser aquela que aponta para o uso do verbo “ter” em lugar de “haver” ou “existir”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar nossa “Expectativa” com os suspeitos.

  • A) de palavras estrangeiras, como “darling” e “pet”, pois afrontam a identidade nacional.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno identifica as palavras estrangeiras como o elemento mais “estranho” ao português.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Fenômenos (Léxico vs. Gramática). Como explicado na Armadilha Clássica, este é um fenômeno lexical, não o desvio gramatical que a questão busca. A justificativa “afrontam a identidade nacional” é um juízo de valor irrelevante para a análise linguística.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) do verbo “ter”, que foi utilizado em lugar de “haver” com o sentido de “existir”.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. A alternativa descreve com precisão cirúrgica o desvio sintático que identificamos em nossa investigação. É a única que aponta para uma quebra de regra da gramática normativa.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • C) da forma verbal “adorei”, uma expressão exagerada de emoção e sentimento.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno foca no tom informal e expressivo do texto.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. “Adorei” é uma palavra válida e sua regência está correta. Ser uma expressão de emoção é uma característica de estilo, não um desvio gramatical.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) do modo imperativo, típico das conversas informais.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno identifica os vários verbos de comando no texto.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O modo imperativo não é um “desvio”. É uma parte padrão da gramática portuguesa, usada tanto em contextos formais (manuais de instrução) quanto informais.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) do substantivo “bate-papo”, que é uma gíria ligada à identidade nacional.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno identifica outra palavra coloquial.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Fenômenos (Léxico vs. Gramática). Assim como na alternativa (A), “bate-papo” é uma escolha de vocabulário, não um desvio na estrutura da frase.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: O caso está encerrado. A alternativa B é a correta, pois a investigação provou que o uso do verbo “ter” com sentido de “existir” é o único fenômeno, entre os listados, que representa um claro desvio sintático em relação à norma padrão formal.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A gramática é o esqueleto da língua; o vocabulário é a roupa. A questão pedia um osso fora do lugar (desvio gramatical), não uma roupa estrangeira (léxico).
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo conflito entre “Norma Padrão” e “Uso Coloquial” que vemos no caso “Ter vs. Haver” acontece de forma idêntica na língua inglesa, especificamente no campo da Astrofísica e da Ficção Científica. A palavra “light-year” (ano-luz) é, pela norma padrão científica, uma medida de distância (a distância que a luz percorre em um ano). No entanto, na fala coloquial e em muitas obras de ficção, ela é frequentemente usada como uma medida de tempo (“Isso foi há anos-luz atrás”). Este é um “desvio” da norma científica que se tornou extremamente comum no uso popular, gerando o mesmo tipo de debate entre puristas (cientistas) e o uso prático (o público em geral).

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