Questão 109 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

As origens da capoeira remontam ao Brasil escravocrata e ao tráfico negreiro africano. O confronto dessas ações e contextos tornou possível o florescimento dessa prática corporal. O negro na condição de escravo nunca se submeteu totalmente à violência do branco, quer seja física ou simbólica, criando suas próprias estratégias de resistência. Evidentemente, a capoeira enfrentou uma série de preconceitos e rejeições até o seu recente reconhecimento como patrimônio histórico nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

PELEGRINI. T. A contribuição da capoeira para a formação do professor de Educação Física: fundamentos teóricos e possibilidades de intervenção. Disponível em: www.efdeportes.com. Acesso em: 2 mar. 2012 (fragmento).

Até o seu recente reconhecimento como patrimônio cultural nacional, a trajetória social da Capoeira, como expressão de resistência da população negra no Brasil, foi marcada

A) pelo massivo apoio e incentivo do Estado e de suas instituições oficiais, através de diversas políticas públicas direcionadas para a diminuição das desigualdades sociais.

B) pela predominância do espontaneísmo e do improviso sobre os elementos de ataque e defesa, reduzindo o seu impacto como luta de resistência da população negra.

C) pela presença de instituições e organizações oficiais encarregadas de ensinar sua prática e que foram importantes para o reconhecimento social da população negra no Brasil.

D) pela compreensão de sua prática associada à vadiagem e à desordem, que contribuíram para sua marginalização, especialmente, até a terceira década do século XX.

E) pela existência de uma estrutura normativa que possibilitou o estabelecimento de regras e códigos próprios, ampliando seus significados libertários e contestatórios.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto e Localização de Informação
  • História do Brasil (Período Escravocrata e Pós-Abolição)
  • Cultura Afro-Brasileira (História da Capoeira)

Tema/Objetivo Geral: Compreender, a partir de um texto de apoio, como a trajetória histórica da Capoeira, desde suas origens até seu reconhecimento oficial, foi marcada pelo preconceito e pela marginalização.

Nível da Questão:

  • Médio. A questão exige uma leitura cuidadosa para não confundir o status atual da Capoeira (patrimônio reconhecido) com sua trajetória histórica (marcada por rejeição). O candidato precisa interpretar o comando da questão (“Até o seu recente reconhecimento…”) e conectar as informações do texto sobre o passado de “preconceitos e rejeições” com a alternativa correta.

Gabarito: D) pela compreensão de sua prática associada à vadiagem e à desordem, que contribuíram para sua marginalização, especialmente até a terceira década do século XX.

  • Explicação Resumida: Esta alternativa está correta porque o texto afirma que a Capoeira “enfrentou uma série de preconceitos e rejeições”, e a associação com vadiagem e desordem foi historicamente o principal argumento usado para persegui-la e marginalizá-la.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para descrever a jornada da Capoeira ANTES de ela se tornar um patrimônio cultural respeitado. Ou seja: Como a sociedade brasileira tratou a Capoeira durante a maior parte de sua história?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a Capoeira como um herói de uma longa jornada. Hoje, no final da história, ele é aclamado e recebe uma medalha (o reconhecimento como patrimônio). A questão, no entanto, não é sobre a cerimônia da medalha. Ela nos pede para contar como foi a jornada do herói ATÉ chegar lá: os monstros que ele enfrentou, as batalhas que travou e a forma como a sociedade o via antes de reconhecer seu valor.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Estabelecer a Linha do Tempo: Vamos separar claramente no texto o que é o “passado de luta” da Capoeira e o que é o “presente de reconhecimento”.
  • Identificar o “Vilão”: Vamos extrair do texto as palavras-chave que descrevem os obstáculos e a visão negativa que a Capoeira enfrentou.
  • Construir a Narrativa da Luta: Usaremos essas pistas para montar a história de resistência e marginalização da Capoeira.
  • Criar o Retrato Falado: Com base nessa narrativa, vamos prever como a alternativa correta deve descrever essa trajetória de luta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a jornada da Capoeira, precisamos de uma Ficha de Análise Histórica, baseada nas pistas do texto.

Ficha de Análise Histórica: A Trajetória da Capoeira

  • ORIGEM (O Nascimento do Herói):
    • Contexto: Brasil escravocrata, tráfico negreiro.
    • Motivação: “O negro na condição de escravo nunca se submeteu totalmente à violência do branco”.
    • Função Original: Criação de “próprias estratégias de resistência“. A Capoeira nasce como uma ferramenta de luta e afirmação cultural contra a opressão.
  • A JORNADA (A Luta e a Perseguição):
    • Pista Principal: “Evidentemente, a capoeira enfrentou uma série de preconceitos e rejeições…”.
    • Natureza da Perseguição (Inferência Histórica): O texto não detalha, mas historicamente, essa rejeição se manifestava na associação da prática com criminalidade. Capoeiristas eram vistos como “vadios”, “desordeiros” e “malandros”. A prática chegou a ser crime previsto no Código Penal de 1890.
    • Resultado: Marginalização social.
  • O RECONHECIMENTO (A Conquista Final):
    • Evento: “…até o seu recente reconhecimento como patrimônio histórico nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.”
    • Status Atual: De prática marginalizada a tesouro cultural da nação.

Conclusão da Ficha: A trajetória da Capoeira é uma narrativa de superação: nasceu como resistência, foi perseguida e marginalizada por séculos devido a preconceitos, e só recentemente alcançou o status de patrimônio cultural.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos agora construir nossa dedução em um fluxograma de raciocínio, detalhando cada etapa da investigação para chegar a uma conclusão inabalável.

  • 1. A Chave da Investigação: O Corte Temporal no Enunciado
    A primeira e mais crucial etapa é dissecar o comando da questão. Ele diz: “Até o seu recente reconhecimento como patrimônio cultural nacional, a trajetória social da Capoeira… foi marcada…”. A expressão “Até o seu recente reconhecimento” funciona como uma máquina do tempo. Ela nos proíbe de julgar a história da Capoeira com os olhos de hoje. Ela nos força a viajar para o passado e investigar o período de luta, o longo caminho de séculos antes da glória. Nossa investigação não é sobre a Capoeira-Patrimônio, mas sobre a Capoeira-Resistência.
  • 2. A Pista de Ouro: Identificando o “Inimigo” no Texto-Base
    Com o foco temporal ajustado, vasculhamos o texto em busca de pistas sobre essa trajetória de luta. O texto é explícito: “Evidentemente, a capoeira enfrentou uma série de preconceitos e rejeições“. Esta é a nossa pista principal. A jornada da Capoeira não foi um caminho de flores, mas uma batalha contra uma força invisível: o preconceito da sociedade dominante.
  • 3. A Anatomia do Preconceito: O Que Eram Essas “Rejeições”?
    Aqui, a investigação exige que conectemos a pista do texto com o conhecimento histórico. Como se manifestava o “preconceito” contra uma prática cultural afro-brasileira no Brasil pós-abolição? As elites e as autoridades da época, buscando “embranquecer” e “civilizar” o país, viam com desconfiança e reprimiam manifestações culturais negras. A Capoeira, por ser uma prática corporal de luta praticada nas ruas, foi um alvo perfeito. Ela era estigmatizada e associada a tudo que a ordem vigente queria reprimir:
    • Vadiagem: A prática era ligada à imagem do “vadio”, do homem que não se encaixava no novo modelo de trabalho formal.
    • Desordem e Violência: As rodas de capoeira e os confrontos eram vistos como baderna, briga de rua, uma ameaça à ordem pública.
    • Resultado Prático: Essa visão negativa levou à criminalização da Capoeira pelo Código Penal de 1890 e à sua consequente marginalização social. Ser capoeirista era ser visto como um potencial criminoso.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais perigosa aqui são as alternativas (A) e (C), que pintam um quadro positivo da relação entre a Capoeira e as instituições oficiais. A alternativa (A) fala em “massivo apoio e incentivo do Estado” e a (C) em “presença de instituições e organizações oficiais encarregadas de ensinar”. Essas afirmações podem até descrever a realidade após o reconhecimento, mas contradizem diretamente a história de “preconceitos e rejeições” que marcou a trajetória da Capoeira até lá. O candidato que não prestar atenção ao corte temporal da pergunta (“Até o seu recente reconhecimento…”) cairá nessa cilada.

  • 4. A Síntese Final: Construindo o Retrato da Trajetória
    O fluxo do nosso raciocínio é claro. A questão nos pede para descrever o passado de luta da Capoeira. O texto nos diz que esse passado foi marcado por “preconceitos e rejeições”. O conhecimento histórico nos diz que esses preconceitos se materializavam na associação da prática à vadiagem e à desordem, o que, por sua vez, causou sua marginalização. Juntando todas as peças, a “marca” deixada na trajetória da Capoeira foi exatamente essa: a luta constante contra um estigma social que a via como caso de polícia, e não de cultura.
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A jornada histórica da Capoeira, no período anterior ao seu reconhecimento, foi definida pela perseguição e pelo preconceito. A sociedade hegemônica a enxergava não como uma expressão cultural, mas como uma prática ligada à criminalidade, à vadiagem e à desordem, resultando em sua profunda marginalização.
    • Expectativa: A alternativa correta deve ser capaz de descrever precisamente essa visão estigmatizante (a associação com vadiagem/desordem) e sua consequência histórica (a marginalização).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar nossa “Expectativa” com os suspeitos.

  • A) pelo massivo apoio e incentivo do Estado e de suas instituições oficiais…
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa no status atual da Capoeira, que recebe apoio.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Histórica / Anacronismo. A trajetória da Capoeira foi marcada pela repressão do Estado, não pelo apoio. Esta alternativa ignora o corte temporal da pergunta.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) pela predominância do espontaneísmo e do improviso sobre os elementos de ataque e defesa…
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno foca na idea de que a Capoeira é uma dança “livre”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo e Falsa Dicotomia. A Capoeira é uma complexa mistura de espontaneidade e técnica de ataque/defesa. Dizer que um reduz o outro é simplificar demais e não aborda a questão da trajetória social de preconceito.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) pela presença de instituições e organizações oficiais encarregadas de ensinar sua prática…
    • A “Narrativa do Erro”: Semelhante à alternativa A, o aluno pensa nas academias e mestres de hoje.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Histórica / Anacronismo. As instituições que ensinaram e preservaram a Capoeira durante sua marginalização foram as comunidades negras e os mestres, agindo na resistência às instituições oficiais, e não como parte delas.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) pela compreensão de sua prática associada à vadiagem e à desordem, que contribuíram para sua marginalização, especialmente até a terceira década do século XX.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. A alternativa descreve com precisão histórica os “preconceitos e rejeições” mencionados no texto. A associação com “vadiagem e desordem” e a consequente “marginalização” é exatamente a narrativa da jornada de luta da Capoeira.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) pela existência de uma estrutura normativa que possibilitou o estabelecimento de regras e códigos próprios…
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que a organização interna da Capoeira (com mestres, regras, etc.) foi o que marcou sua trajetória.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. Embora a Capoeira tenha seus códigos, o que marcou sua trajetória social não foi sua organização interna, mas sim a percepção externa e o preconceito da sociedade dominante.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: O caso está encerrado. A alternativa D é a correta, pois a trajetória da Capoeira, antes de ser celebrada, foi uma longa e árdua batalha contra o preconceito que a associava à vadiagem e à desordem.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A ginga da Capoeira não foi apenas uma dança, foi o drible que a cultura negra deu na repressão por mais de um século.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A trajetória da Capoeira, de prática marginalizada e criminalizada a símbolo cultural nacional, é um paralelo perfeito para a história do Samba e do Jazz.
    • O Samba, no início do século XX no Rio de Janeiro, também nasceu nas comunidades negras e era associado pela elite e pela polícia à vadiagem, à desordem e à imoralidade. Seus praticantes eram perseguidos.
    • O Jazz, nos Estados Unidos, surgiu em Nova Orleans a partir da cultura afro-americana e foi inicialmente visto pela sociedade branca conservadora como uma música “selvagem”, “primitiva” e moralmente corruptora.
      Em todos os três casos (Capoeira, Samba, Jazz), uma poderosa expressão cultural nascida da resistência negra foi inicialmente rejeitada e perseguida pela cultura dominante, para depois, através de um longo processo de luta e afirmação, ser finalmente reconhecida como uma contribuição artística fundamental para a identidade nacional e mundial.

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