Razão de ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
LEMINSKI, P. Melhores poemas de Paulo Leminski. São Paulo: Global, 2013.
Ao abordar o próprio processo de criação, o poeta recorre a exemplificações com o propósito de representar a escrita como uma atividade que
A) requer a criatividade do artista.
B) dispensa explicações racionais.
C) independe da curiosidade do leitor.
D) pressupõe a observação da natureza.
E) decorre da livre associação de imagens

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura Brasileira (Poesia Contemporânea/Marginal), Interpretação de Texto (Poesia), Funções da Linguagem (Metalinguagem).
Tema/Objetivo Geral:
O processo de criação artística. O objetivo é compreender como o eu lírico define a motivação para escrever: não como um ato planejado pela razão, mas como uma necessidade orgânica e inexplicável.
Nível da Questão:
Fácil.
Por que? O poema é direto e coloquial (“Escrevo. E pronto.”). A pergunta final (“Tem que ter por quê?”) já entrega a resposta de que não há explicação lógica necessária.
Gabarito:
Letra B.
A alternativa está correta porque o poeta utiliza comparações com animais (aranha, peixe) para demonstrar que escrever é um instinto natural, rejeitando a necessidade de justificativas lógicas ou racionais para o ato.
🏗 Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️
Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “O poeta usou exemplos de bichos (aranha, peixe) para dizer que escrever é o quê?”. Qual é a natureza da escrita para ele? É um cálculo matemático? É um plano de carreira? Ou é algo que simplesmente “acontece”?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que alguém te pergunta: “Por que você respira?”.
Você não responde: “Respiro porque analisei a taxa de oxigênio e concluí que é benéfico”.
Você responde: “Respiro porque estou vivo. Se eu parar, eu morro.”
Leminski diz que escrever é igual a respirar. Ele não escreve para ganhar o Nobel ou para salvar o mundo. Ele escreve porque é a natureza dele.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Analisar a negativa inicial (“Ninguém tem nada com isso”).
- Interpretar as metáforas biológicas (Aranha/Peixe).
- Concluir com a pergunta retórica final (“Tem que ter por quê?”).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰
Precisamos entender o conceito de Ato Instintivo vs. Ato Racional.
Tabela: A Natureza da Ação
| Ação Racional (O que o poeta nega) | Ação Instintiva (O que o poeta afirma) |
| Tem um “porquê” (motivo lógico). | Não tem “porquê” (“Escrevo. E pronto.”). |
| É planejada. | É uma necessidade (“preciso”). |
| Exemplo: Construir um prédio. | Exemplo: Aranha tecer teia. |
| Exige explicação. | Dispensa explicação. |
Conceito Chave:
Metalinguagem: O poema fala sobre o ato de fazer poema. Leminski usa o poema para dizer que o poema nasce sem pedir licença.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️♂️
Vamos seguir o fluxo do poema:
A Declaração de Independência:
- “Escrevo. E pronto.”
- Isso é um ponto final na discussão. Ele recusa o debate intelectual sobre a escrita.
A Necessidade Física:
- “…preciso porque estou tonto.”
- Escrever é um sintoma físico, uma tontura que precisa ser aliviada.
A Prova da Natureza (Os Exemplos):
- “A aranha tece teias. O peixe beija e morde…”
- A aranha não faz um curso de engenharia para tecer a teia. Está no DNA dela.
- O peixe não pensa “vou morder”. Ele morde.
- Logo, “Eu escrevo apenas”. O poeta se coloca como mais um animal seguindo seu instinto.
O Gran Finale:
- “Tem que ter por quê?”
- Essa pergunta retórica (que já tem a resposta “não”) confirma que a razão (o porquê) é inútil aqui.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa A (“requer a criatividade”).
Claro que poesia requer criatividade. Mas a questão pergunta sobre o propósito dos exemplos (aranha/peixe). A aranha é “criativa” ao fazer a teia? Não, ela é repetitiva e instintiva. O foco de Leminski não é a invenção genial, é a inevitabilidade da ação. Ele escreve porque não consegue não escrever.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O poeta iguala a escrita a processos biológicos automáticos para retirar dela o peso da lógica e da justificação.
- Expectativa: Devemos buscar a alternativa que negue a razão, a lógica ou a explicação.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀
Vamos interrogar os suspeitos:
- A) requer a criatividade do artista.
- Diagnóstico do Erro: Senso Comum / Foco Errado.
- Análise: Todo poema requer criatividade, mas o argumento central deste texto específico é sobre a natureza instintiva (“aranha tece”), e não sobre a habilidade criativa. A aranha tece por instinto, não por inspiração artística.
- Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (Distrator Forte: É verdade sobre arte em geral, mas não é a tese defendida pelos exemplos do poema).
- B) dispensa explicações racionais.
- Análise: Perfeita.
- “Escrevo. E pronto.” = Sem explicação.
- “Tem que ter por quê?” = Dispensa a razão.
- Os exemplos da aranha e do peixe mostram ações que não passam pelo crivo da racionalidade.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- Análise: Perfeita.
- C) independe da curiosidade do leitor.
- Diagnóstico do Erro: Foco no Receptor.
- Análise: O verso “Ninguém tem nada com isso” pode sugerir independência, mas o foco dos exemplos (aranha/peixe) é sobre a origem da ação no autor, e não sobre a relação com o leitor.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) pressupõe a observação da natureza.
- Diagnóstico do Erro: Confusão de Recurso com Tema.
- Análise: O poeta usa a natureza como comparação, mas ele não diz que precisa observar a natureza para conseguir escrever. Ele escreve porque está “tonto” (sentimento interno), não porque está olhando aranhas (estímulo externo).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) decorre da livre associação de imagens.
- Diagnóstico do Erro: Conceito de Vanguarda (Surrealismo).
- Análise: “Livre associação” é uma técnica psicanalítica ou surrealista. Leminski aqui está sendo muito lógico e direto em seu argumento: “Eu sou como a aranha”. Não é um fluxo de consciência desconexo.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭
Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra B, pois Paulo Leminski utiliza a analogia com o comportamento instintivo de animais (aranhas e peixes) para despir a poesia de sua aura intelectualizada, apresentando-a como uma necessidade vital orgânica que não carece de justificativas lógicas ou racionais.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🕸️✍️ A Aranha Poeta: A aranha não explica a teia, ela apenas a faz. O poeta não explica o verso, ele apenas o solta.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa postura de Leminski dialoga com a Poesia Marginal dos anos 70 (Geração Mimeógrafo). Eles queriam tirar a poesia do pedestal acadêmico (“torre de marfim”) e trazê-la para o dia a dia, para o corpo, para a rua. “Escrevo porque preciso” é um grito de liberdade contra as regras rígidas da literatura clássica.