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Questão 04 (ESPANHOL) caderno azul ENEM 2020 Dia 1

Oye, Pito, ésta es: la vida bruta de un boy

mis tierras eran
nuevo méxico, colorado,
california, arizona, tejas,
y muchos otros senderos,
aún cuando la luz existía
sonrientemente
en las palabras
de mis antepasados…
era entonces hombre,
maduro y sencillo
como los cerros y los peñascos,
y mi cultura era el atole,
el chaquehue, y los buenos días;
mi idioma cantaba
versículos
por los cañones
de tierra roja
y tierra amarilla…
Hoy sí, hoy ya no soy
mejicano ni hispano
ni tampoco americano,
pero soy — y bien lo siento ser —
una sombra del pasado
y un esfuerzo
hacia el futuro…

SÁNCHEZ, R. Disponível em: www.materialdelectura.unam.mx. Acesso em: 4 dez. 2017.

Ao abordar a expropriação de territórios mexicanos pelos Estados Unidos, o eu lírico do poema revela um(a)

A) rejeição da língua utilizada por seus antepassados.
B) desejo de pertencimento ao espaço estadunidense.
C) certeza de manutenção de suas tradições.
D) reivindicação de um mundo unificado.
E) sentimento de conflito de identidades.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Poético (em Espanhol)
    • História (Relações México-EUA, Expansão Territorial)
    • Sociologia (Identidade Cultural, Diáspora, Pós-colonialismo)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar um poema para identificar o sentimento de crise e conflito de identidade resultante de um processo de expropriação territorial e cultural.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão exige que o candidato compreenda um sentimento complexo de não pertencimento. O eu lírico não está simplesmente com saudade do passado, nem com raiva do presente; ele está em um limbo identitário. A dificuldade está em capturar essa nuance e não cair em alternativas que simplificam demais seu estado emocional.
  • Gabarito: E
    • A alternativa está correta porque o eu lírico afirma explicitamente que não é mais mexicano, nem hispânico, nem americano, descrevendo-se como uma “sombra do passado”. Essa negação tripla e a sensação de ser um fantasma de si mesmo são a expressão máxima de um conflito de identidades.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O poema é o depoimento de alguém cujas terras ancestrais foram tomadas pelos EUA. Ao descrever o passado e o presente, qual é o principal sentimento ou estado de espírito que o eu lírico revela?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma pessoa que cresceu em uma casa cheia de memórias e tradições. Um dia, a casa é vendida e ela é forçada a viver como inquilina no mesmo lugar, mas com novos donos que têm outras regras e costumes. Ela não se sente mais “em casa”, mas também não pertence a outro lugar. Ela olha para as fotos antigas (o passado) com saudade, mas não pode voltar. Ela olha para a nova realidade e não se reconhece nela. Ela está presa em um limbo de identidade. A questão nos pede para dar o nome a esse sentimento.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Analisar o Passado: Como o eu lírico descreve sua vida e identidade antes da expropriação?
  • Analisar o Presente: Como ele descreve sua identidade agora?
  • Identificar a Fratura: Qual é o ponto de ruptura, a grande contradição entre o “antes” e o “agora”?
  • Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve essa condição de “fratura identitária”.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é uma Ficha de Identidade Fraturada. Ela nos ajudará a visualizar a crise do eu lírico, contrastando o passado e o presente.

FICHA DE IDENTIDADE: Eu Lírico

  • Identidade no PASSADO (Antes da Expropriação):
  • Território: “mis tierras eran nuevo méxico, colorado, california…” (Minhas terras eram…) – SENTIMENTO DE PERTENCIMENTO.
  • Cultura: “mi cultura era el atole, el chaquehue, y los buenos días” (Minha cultura era…) – IDENTIDADE SÓLIDA.
  • Língua: “mi idioma cantaba versículos” (Meu idioma cantava…) – VOZ PRÓPRIA.
  • Autoimagem: “era entonces hombre, maduro y sencillo” (Eu era então homem…) – CERTEZA DE SER.
  • Identidade no PRESENTE (Depois da Expropriação):
  • Negação Tripla: “hoy ya no soy mejicano ni hispano ni tampoco americano” (Hoje já não sou…) – NEGAÇÃO E NÃO PERTENCIMENTO.
  • Autoimagem: “soy — y bien lo siento ser — una sombra del pasado y un esfuerzo hacia el futuro” (Sou uma sombra do passado e um esforço para o futuro) – IDENTIDADE FRAGMENTADA E INCERTA.

Conclusão Forense: A ficha mostra uma fratura completa. O “eu era” do passado é cheio de certezas. O “eu sou” do presente é uma série de negações e uma indefinição. Essa colisão entre uma identidade perdida e uma nova identidade não adquirida é a essência de um conflito de identidades.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nossa ficha de identidade já revelou a tragédia do eu lírico. Ele não está apenas triste; ele está existencialmente perdido.

  • A frase-chave é a negação tripla: “não sou mexicano, nem hispânico, nem americano”. Ele rejeita o rótulo do país de seus ancestrais (pois a terra não é mais deles), o rótulo cultural mais amplo e o rótulo do novo dominador.
  • Ao se definir como uma “sombra do passado”, ele admite que sua identidade autêntica morreu e o que resta é apenas um fantasma.
  • Ser um “esforço para o futuro” é admitir que ele ainda não é nada concreto, está em um processo doloroso de tentar se reconstruir, sem garantias.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (C), “certeza de manutenção de suas tradições”. O candidato pode focar na beleza com que o eu lírico descreve o passado e pensar que ele está confiante em manter essa cultura viva. O erro é não perceber que essa descrição é feita em tom de lamento, de algo que se foi. A frase “era entonces hombre” (“eu era então homem”) deixa claro que ele não se vê mais daquela forma. A nostalgia não é certeza, é saudade do que se perdeu.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra o eu lírico preso entre um passado idealizado ao qual não pertence mais e um presente ao qual ele se recusa a pertencer. Essa condição de não ser “nem isto, nem aquilo” é a definição de um conflito de identidades.
  • Expectativa: A alternativa correta deve capturar esse sentimento de crise e indefinição identitária.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) rejeição da língua utilizada por seus antepassados.
    • A “Narrativa do Erro”: Uma leitura invertida do poema.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O eu lírico exalta a língua do passado (“mi idioma cantaba versículos”), descrevendo-a com carinho e saudade. Ele não a rejeita; ele lamenta sua perda de espaço.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • B) desejo de pertencimento ao espaço estadunidense.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que, por não ser mais mexicano, ele quer se tornar americano.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto afirma explicitamente “ni tampoco americano” (“nem tampouco americano”). Ele rejeita ativamente a identidade do colonizador.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • C) certeza de manutenção de suas tradições.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, confundindo nostalgia com confiança.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Todo o poema é construído sobre um sentimento de perda, não de certeza. A descrição do passado no pretérito (“mis tierras eran”, “mi cultura era”) reforça a ideia de que aquilo não existe mais da mesma forma.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • D) reivindicação de um mundo unificado.
    • A “Narrativa do Erro”: Uma interpretação que projeta um ideal globalista no poema.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O poema é intensamente pessoal e focado em uma experiência de fratura e perda de identidade, não em um apelo por unificação mundial.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • E) sentimento de conflito de identidades.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. O eu lírico está em crise, fragmentado entre o que ele era, o que ele não é mais, e o que ele ainda não sabe se será. A recusa de todos os rótulos disponíveis (“nem mexicano, nem hispânico, nem americano”) é a evidência máxima desse conflito.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. O poema de Ricardo Sánchez é um poderoso testemunho de como a expropriação territorial é também uma expropriação da alma, deixando os indivíduos em um doloroso limbo identitário.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Ele não tem mais o chão de suas raízes, mas se recusa a pisar no chão do conquistador; por isso, flutua como uma sombra.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo conflito de identidades é um tema central nos estudos de Globalização e Diáspora. Pense nos filhos de imigrantes que crescem em um novo país. Muitas vezes, eles não se sentem 100% pertencentes à cultura de seus pais (que eles conhecem apenas através de histórias), mas também não se sentem 100% integrados à cultura do país onde nasceram (onde podem ser vistos como “estrangeiros”). Eles vivem em um “terceiro espaço”, um entrelugar identitário, não sendo “nem isto, nem aquilo”. A experiência do eu lírico do poema, causada por uma conquista militar, é recriada hoje para milhões de pessoas pelo movimento global de populações.

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