Los propietarios de la libertad
Las palabras cumplen ciclos; las actitudes también. Sin
embargo, cuando las palabras designan actitudes, los ciclos
se vuelven más complejos. Cuando el hoy tan denostado
Sartre puso la palabra compromiso sobre el tapete y
hasta Mac Leish publicó un libro sobre la responsabilidad
de los intelectuales, estas dos palabras, compromiso y
responsabilidad, designaban actitudes que, sin ser gemelas,
eran bastante afines. Salvo contadas excepciones, los
intelectuales de entonces las hicieron suyas y, equivocados
o no, dijeron sin eufemismos por qué empeño se la jugaban.
Los intelectuales latinoamericanos también
comprendieron dónde estaba esta vez el enemigo. Sólo
entonces empezó la mala prensa. Los grandes pontífices
de la propaganda subrayaron una y otra vez la palabra
libertad y denostaron el compromiso. Libertad no era
librarse de Batista o de Somoza, sino mantener la prensa
libre. Libertad es la emocionada comprobación de que la
gran prensa norteamericana es capaz de descubrir que
Lumumba o Allende fueron liquidados por la CIA, sin
poner el acento en que eso no sirve para resucitarlos.
¿Y compromiso? Es la actitud que adoptan
ciertos intelectuales, cuya carga ideológica perjudica
notoriamente su arte. Después de todo, ¿cómo se atreven
a frecuentar las provincias del espíritu, si es público y
notorio que tales ámbitos son patrimonio exclusivo de los
propietarios de la libertad?
BENEDETTI, M. Perplejidades de fin de siglo.
Buenos Aires: Sudamericana, 1993 (adaptado).
Transformar palavras em atitudes tem sido um dos grandes dilemas dos intelectuais. Ao ponderar sobre essa temática, o autor, um dos grandes críticos e literatos latino-americanos da atualidade, leva o leitor a perceber que
A) o compromisso político afasta o artista da criação.
B) os costumes sociais governam a linguagem e as atitudes das pessoas.
C) o compromisso ideológico de alguns intelectuais está refletido em suas obras.
D) a complexidade relacionada ao conceito de liberdade impede o compromisso.
E) os intelectuais latino-americanos têm um posicionamento acrítico perante o poder.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto (Espanhol)
- Figuras de Linguagem (Ironia)
- História da América Latina (Contexto da Guerra Fria, ditaduras)
- Filosofia (Ética do Intelectual)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um texto crítico de Mario Benedetti para compreender sua reflexão sobre o papel do intelectual engajado e a manipulação dos conceitos de “liberdade” e “compromisso”.
- Nível da Questão: Difícil.
- A questão exige a capacidade de perceber a ironia fina do autor. Benedetti cita a opinião de seus adversários (“a carga ideológica prejudica notoriamente sua arte”) não para concordar com ela, mas para criticá-la. Um leitor que não percebe essa ironia pode interpretar o texto de forma completamente invertida e cair na alternativa (A).
- Gabarito: C
- A alternativa está correta porque, embora Benedetti ironize a crítica de que o engajamento “prejudica a arte”, ele reafirma que os intelectuais comprometidos de fato expressam suas convicções em suas obras. O texto inteiro é uma reflexão sobre como esse “compromisso ideológico” se manifesta e é julgado.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O autor Mario Benedetti está descrevendo uma briga de ideias entre dois grupos. De um lado, os intelectuais ‘comprometidos’. Do outro, os ‘proprietários da liberdade’. O que essa discussão nos leva a perceber sobre a relação entre as ideias de um intelectual e sua obra?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma crítica de arte. O Crítico A (Benedetti) defende que a arte deve ter uma mensagem, deve lutar por uma causa (“compromisso”). O Crítico B (os “proprietários da liberdade”) diz que a arte deve ser “pura”, e que a política “mancha” a obra. Benedetti, então, escreve um texto irônico. Ele diz: “Ah, claro, o Crítico B diz que a ideologia prejudica a arte… como se a arte pudesse existir num vácuo, como se a ‘liberdade’ deles não fosse, ela mesma, uma ideologia!”. A questão nos pede para entender a conclusão de Benedetti. Ele está dizendo que a arte não tem ideologia, ou que ela inevitavelmente reflete a ideologia do artista, seja ela qual for?
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar os Lados do Conflito: Quem são os “intelectuais comprometidos” e quem são os “proprietários da liberdade”?
- Analisar a “Arma do Crime” (A Ironia): Vamos identificar os trechos onde Benedetti usa a ironia para criticar seus oponentes.
- Determinar a Tese do Autor: Qual é a verdadeira posição de Benedetti sobre a relação entre arte e compromisso?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas se alinha com a tese de Benedetti.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é construir o raciocínio juntos, focando na ironia do autor. Vamos usar um Diálogo Mentor-Aluno.
- 🕵️♂️ Mentor: “Detetive, Benedetti nos apresenta uma ‘guerra de palavras’. De um lado, a palavra ‘compromisso’, e do outro, a palavra ‘liberdade’. Quem ele diz que defende o ‘compromisso’?”
- 🧠 Aluno: “Os intelectuais de antigamente, como Sartre, e os intelectuais latino-americanos que ‘compreenderam onde estava o inimigo’.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Exato. Ele os elogia. Agora, quem são os que atacam o ‘compromisso’ e defendem a ‘liberdade’?”
- 🧠 Aluno: “Ele os chama de ‘grandes pontífices da propaganda’ e, ironicamente, de ‘os proprietários da liberdade’.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Perfeito. Agora vem a parte crucial, a armadilha. Benedetti escreve que, segundo esses ‘proprietários’, o compromisso é ‘uma carga ideológica que prejudica notoriamente sua arte’. Ele está concordando com essa afirmação?”
- 🧠 Aluno: “Não! Pelo tom do texto, ele está sendo sarcástico. Ele está expondo o argumento dos seus oponentes para depois ridicularizá-lo.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Bingo! Você desvendou a ironia. Então, se Benedetti não concorda que o compromisso prejudica a arte, mas ao mesmo tempo ele defende os intelectuais que têm um compromisso, o que ele está admitindo como um fato?”
- 🧠 Aluno: “Ele está admitindo que o compromisso existe e que ele aparece na obra. A briga não é se a ideologia está lá ou não; a briga é se a presença dela é boa ou ruim.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Exatamente. A tese implícita de Benedetti é que o compromisso ideológico está, de fato, refletido nas obras. É com essa premissa em mente que vamos analisar os suspeitos.”
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nosso diálogo já desvendou a ironia. O texto é uma defesa apaixonada do intelectual engajado.
- Quando Benedetti diz que, segundo os “pontífices da propaganda”, o compromisso “prejudica notoriamente sua arte”, ele está sendo sarcástico. É como dizer: “Meu vizinho barulhento diz que meu silêncio atrapalha a festa dele”.
- Ele elogia os intelectuais latino-americanos que “compreenderam onde estava esta vez o inimigo”. Isso é um elogio direto ao posicionamento e ao engajamento.
- A pergunta final — “como se atrevem a frequentar as províncias do espírito, se […] tais âmbitos são patrimonio exclusivo de los propietarios de la libertad?” — é o golpe final da ironia. Ele está zombando da arrogância de seus oponentes, que se acham os únicos donos da cultura e da “verdadeira” liberdade.
A conclusão de Benedetti é que o compromisso é inevitável e necessário, e, portanto, ele estará refletido na obra do intelectual.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mortal é a alternativa (A), “o compromisso político afasta o artista da criação”. Ela é a isca perfeita para quem não percebe a ironia. O candidato lê a frase “cuja carga ideológica prejudica notoriamente su arte”, a interpreta literalmente e marca a alternativa (A). O erro é não perceber que o autor está citando a opinião de outra pessoa para, em seguida, destruí-la com sarcasmo.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que Benedetti defende o intelectual engajado. Ele critica a visão de que a arte deve ser “neutra” e mostra que o posicionamento ideológico é uma parte inerente da produção intelectual.
- Expectativa: A alternativa correta deve afirmar que o compromisso ideológico se manifesta ou se reflete nas obras dos intelectuais.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) o compromisso político afasta o artista da criação.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, lendo o texto de forma literal e não percebendo a ironia.
- O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Literal de um Recurso Irônico. Esta é a opinião dos adversários de Benedetti, que ele cita para ridicularizar. O ponto de vista do autor é o oposto.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) os costumes sociais governam a linguagem e as atitudes das pessoas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato faz uma generalização sociológica que é ampla demais.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora o texto fale de atitudes e palavras, seu foco não é nos “costumes sociais” em geral, mas em um debate político e intelectual específico sobre o papel do artista.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) o compromisso ideológico de alguns intelectuais está refletido em suas obras.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve exatamente a premissa central do debate. Tanto os que criticam (dizendo que “prejudica a arte”) quanto os que defendem (como Benedetti) partem do mesmo fato: o compromisso está lá, refletido na obra. A discussão é se isso é bom ou ruim.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- D) a complexidade relacionada ao conceito de liberdade impede o compromisso.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na crítica à “liberdade”, mas tira a conclusão errada.
- O “Diagnóstico do Erro”: Inversão da Lógica do Autor. Benedetti não diz que a liberdade impede o compromisso. Ele diz que a manipulação do conceito de liberdade é usada como uma arma contra o compromisso.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) os intelectuais latino-americanos têm um posicionamento acrítico perante o poder.
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente invertida de uma das frases do texto.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto elogia os intelectuais latino-americanos, dizendo que eles “comprenderam dónde estaba esta vez el enemigo”. Isso é a definição de um posicionamento crítico, e não acrítico.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. O texto de Benedetti é uma defesa da arte engajada, argumentando que a ideologia não é uma “mancha” na obra, mas parte integrante da voz do intelectual no mundo.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Para os “donos da liberdade”, o artista comprometido é um músico que toca a nota errada; para Benedetti, ele é o único que está tocando a canção que importa.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo debate sobre “arte pura” versus “arte engajada” é central na história da Música Clássica, especialmente no século XX. De um lado, temos compositores “formalistas” que defendiam a “música absoluta”, uma arte de sons sem mensagem externa. De outro, temos compositores como Dmitri Shostakovich, que viveu sob a pressão do regime soviético. Suas sinfonias são um campo de batalha: por um lado, ele precisava agradar o regime; por outro, ele embutia em suas obras mensagens codificadas de sofrimento, resistência e crítica (seu “compromisso ideológico”). A discussão sobre se sua 5ª Sinfonia é uma celebração do stalinismo ou uma crítica velada a ele é a materialização, em música, do dilema que Benedetti descreve na literatura.