O sol começa a descer por trás da vegetação da Ilha da Restinga, na outra margem do rio Paraíba, colorindo o céu de amarelo, laranja e lilás. Então se ouvem as primeiras notas do Bolero, do compositor francês Maurice Ravel, executadas pelo saxofonista Jurandy. É assim o pôr do sol da praia do Jacaré, em Cabedelo (Grande João Pessoa). Depois do Bolero, Jurandy toca Asa branca, de Luiz Gonzaga, e Meu sublime torrão, de Genival Macedo, espécie de hino não oficial da Paraíba.
PINHEIRO, A. Sol se põe embaiado pelo Bolero de Ravel. Disponível em: http://tools.folha.com.br. Acesso em: 16 set. 20212 (adaptado).
A interpretação musical de Jurandy do Sax, codinome de José Jurandy Félix, apresenta caracterizado pela
a) inter-relação de referenciais estéticos aparentemente distanciados.
b) valorização de músicas que revelam mensagens de serenidade.
c) consagração do repertório erudito como cultura dominante.
d) iniciativa de estímulo à vocação turística da cidade.
e) divisão hierárquica entre gêneros e estilos musicais.

- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto
- Artes (História da Música, Hibridismo Cultural)
- Cultura Brasileira (Regionalismo)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um repertório musical que combina diferentes tradições (erudita, popular, regional) como uma forma de hibridismo cultural.
- Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: A questão é de nível médio porque, embora o texto seja descritivo e claro, a alternativa correta utiliza um vocabulário bastante acadêmico (“inter-relação de referenciais estéticos aparentemente distanciados”). O candidato precisa ser capaz de traduzir a ação concreta de tocar três músicas diferentes para este conceito abstrato.
- Gabarito: A) inter-relação de referenciais estéticos aparentemente distanciados.
- Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o repertório do músico promove um diálogo, uma inter-relação, entre universos musicais que normalmente são vistos como separados: a música de concerto europeia (Ravel), a música popular nacional (Luiz Gonzaga) e a música regional (hino paraibano).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Em bom português, a missão é a seguinte: o texto descreve um músico que, todo pôr do sol, toca uma sequência de três músicas muito diferentes. A questão nos pede para dizer qual é a característica principal dessa “playlist” dele.
Simplificando, imagine um DJ que, em uma mesma festa, toca uma valsa de Mozart, em seguida um funk carioca e termina com o hino do time de futebol local. O que caracteriza a seleção musical desse DJ? A mistura de coisas que, à primeira vista, não têm nada a ver uma com a outra. A nossa tarefa é aplicar essa mesma lógica ao repertório de Jurandy.
Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:
- 1. Identificar as “Músicas Suspeitas”: Vamos listar as três peças que compõem o repertório e investigar a “ficha criminal” de cada uma (sua origem e estilo).
- 2. Analisar o Modus Operandi: Vamos entender o que o ato de tocar essas três músicas, em sequência, no mesmo evento, significa.
- 3. Dar um Nome à Operação: Vamos encontrar a alternativa que melhor descreve essa estratégia de misturar universos musicais.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é um Dossiê do Repertório, onde vamos traçar o perfil de cada peça musical.
Dossiê da Performance:
- Peça 1: “Bolero”
- Origem: França, 1928.
- Compositor: Maurice Ravel.
- Perfil: Música erudita, um clássico das salas de concerto internacionais. Um referencial estético global e sofisticado.
- Peça 2: “Asa Branca”
- Origem: Brasil, 1947.
- Compositor: Luiz Gonzaga (o “Rei do Baião”).
- Perfil: Música popular brasileira, um hino do Sertão nordestino. Um referencial estético nacional e de raiz popular.
- Peça 3: “Meu Sublime Torrão”
- Origem: Paraíba.
- Compositor: Genival Macedo.
- Perfil: Hino não oficial do estado. Um referencial estético estritamente local, de identidade regional.
Veredito do Detetive: O músico não escolheu três peças do mesmo universo. Ele deliberadamente juntou três mundos que são, na teoria, “aparentemente distanciados”: o internacional erudito, o nacional popular e o regional identitário.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A execução do nosso plano nos leva a entender que a performance de Jurandy é um ato de diplomacia cultural. Ele não está dizendo que Ravel é “melhor” que Gonzaga, ou que a Paraíba é “melhor” que o resto do mundo. Ao tocar as três peças no mesmo evento sagrado (o pôr do sol), ele as coloca no mesmo patamar de importância.
Ele cria um diálogo. O “Bolero” empresta sua solenidade universal ao momento, “Asa Branca” conecta essa solenidade à alma do Nordeste, e “Meu Sublime Torrão” a ancora especificamente no chão da Paraíba. É uma jornada que vai do global ao local. A performance é uma celebração da identidade paraibana que se vê como parte do Brasil e do mundo, sem hierarquias. É a materialização de uma inter-relação.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C) “consagração do repertório erudito como cultura dominante”. O erro é focar apenas na primeira música, o “Bolero”, e ignorar as outras. Se Jurandy tocasse apenas Ravel, a alternativa poderia fazer sentido. No entanto, ao incluir Luiz Gonzaga e um hino local, ele faz o exato oposto: ele quebra a dominância do erudito e o coloca em pé de igualdade com a cultura popular e regional.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação revela que o repertório do músico é definido pela sua capacidade de conectar e mesclar, em uma única performance, gêneros musicais de origens e status culturais muito distintos.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa ação de conectar, misturar ou relacionar diferentes universos estéticos.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Com nosso perfil do repertório em mãos, vamos interrogar os suspeitos.
a) inter-relação de referenciais estéticos aparentemente distanciados.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. “Inter-relação” (a conexão que ele cria), “referenciais estéticos” (os estilos musicais), “aparentemente distanciados” (Ravel vs. Gonzaga). A descrição é técnica e precisa. O encaixe é perfeito.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
b) valorização de músicas que revelam mensagens de serenidade.
O erro é Reducionismo. Embora o momento do pôr do sol seja sereno, não podemos afirmar que “Asa Branca” (que fala da seca e da partida) ou um hino regional sejam primariamente sobre serenidade. O foco do texto é na mistura de origens, não no humor das peças.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
c) consagração do repertório erudito como cultura dominante.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é uma Contradição Direta, pois a inclusão das outras peças quebra essa dominância.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
d) iniciativa de estímulo à vocação turística da cidade.
O erro é Confundir a Consequência com a Característica. O evento pode estimular o turismo, mas a questão pergunta sobre a característica do repertório musical, não sobre seu efeito econômico.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
e) divisão hierárquica entre gêneros e estilos musicais.
O erro é uma Contradição Direta. O ato de tocar as três músicas juntas é um gesto que desfaz a hierarquia, colocando-as em diálogo igualitário.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Confirmamos que a alternativa A é a correta. A performance de Jurandy do Sax no pôr do sol da praia do Jacaré é um belo exemplo de como a arte pode criar uma inter-relação de referenciais estéticos aparentemente distanciados, construindo pontes entre o local e o global.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Jurandy não construiu um muro entre o museu e a quermesse; ele construiu uma ponte sonora por onde a cultura passeia livremente.
- 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de criar valor a partir da “inter-relação de referenciais estéticos aparentemente distanciados” é uma das bases da inovação em design e tecnologia. O iPhone original, por exemplo, não inventou o telefone, a internet ou o player de música. Sua genialidade foi combinar esses três “referenciais” (um telefone, um iPod e um comunicador de internet) em um único aparelho. Steve Jobs, como Jurandy, pegou peças de universos “aparentemente distanciados” e as integrou em uma experiência única e harmoniosa que mudou o mundo.