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Questão 31, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

Migalhas
Entre a toalha branca e um bule de café
seria inapropriado dizer
eu não te amo mais.
Era necessário algo mais solene,
um jardim japonês
para as perdas pensadas,
um noturno de tempestade
para arrebentar de dor,
uma praia de pedras para chorar
em silêncio, uma cama alta
para o incenso da despedida,
uma janela
dando para o abismo.
No entanto você abaixa os olhos
e recolhe lentamente as migalhas de pão
sobre a mesa posta para dois.

MARQUES, A. M. A vida submarina. São Paulo: Cia. das Letras, 2021

Nesse poema, a representação do sentimento amoroso recupera a tradição lírica, mas se ajusta à visão contemporânea ao

a) invocar o interlocutor para uma tomada de posição.

b) questionar a validade do envolvimento romântico.

c) diluir em banalidade a comoção de um amor frustrado.

d) transformar em paz as emoções conflituosas do casal.

e) condicionar a existência da paixão a espaços idealizados.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Poético
    • Literatura (Tradição Lírica, Poesia Contemporânea)
    • Figuras de Linguagem (Antítese, Metáfora)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar como a poesia contemporânea trata o tema do fim do amor, contrastando a grandiosidade esperada pela tradição lírica com a banalidade do cotidiano.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque exige a percepção de um contraste sutil que define todo o poema. Não basta entender o sentimento de tristeza; é preciso compreender como o poema constrói uma expectativa de drama (a “tradição lírica”) apenas para, deliberadamente, frustrá-la com uma cena mundana (a “visão contemporânea”).
  • Gabarito: C) diluir em banalidade a comoção de um amor frustrado.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o poema constrói toda uma fantasia de despedida dramática e solene (“comoção”), mas aterrissa na realidade de um gesto silencioso e cotidiano (“recolher as migalhas”), dissolvendo o grande drama na banalidade do momento.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o poema fala sobre o fim de um amor. O eu-lírico imagina uma despedida grandiosa, mas a realidade é bem diferente, silenciosa e sem drama. A questão nos pede para entender como essa mistura de um final “de filme” com um final “da vida real” representa o jeito contemporâneo de falar sobre o amor.

Simplificando, imagine que o eu-lírico queria que o fim do seu amor fosse uma grande ópera, com cenários incríveis, tempestades e discursos emocionantes. Mas, na vida real, o fim do amor foi como o silêncio constrangedor em um elevador depois que a música para de tocar. A questão quer saber o nome desse processo: pegar uma emoção gigante (a ópera) e mostrá-la através de um momento pequeno e banal (o silêncio no elevador).

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Analisar a “Cena Ideal”: Vamos listar todos os cenários grandiosos que o eu-lírico imagina para a despedida, que representam a “tradição lírica”.
  • 2. Analisar a “Cena Real”: Vamos focar na última estrofe para entender o que de fato acontece, que representa a “visão contemporânea”.
  • 3. Diagnosticar o Contraste: Vamos entender o que o choque entre a cena ideal e a cena real revela sobre o sentimento do poema.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Tabela Comparativa que expõe o conflito entre a expectativa e a realidade, a tradição e a contemporaneidade.

Tabela de Contraste: A Despedida

🎭 A Tradição Lírica (A Despedida Sonhada) ☕ A Visão Contemporânea (A Realidade na Mesa)
Cenário: “um jardim japonês”, “um noturno de tempestade”, “uma praia de pedras”, “uma janela dando para o abismo”. Cenário: “Entre a toalha branca e um bule de café”.
Ação: Solene, dramática. “Arrebentar de dor”, “chorar em silêncio”. Ação: Silenciosa, contida. “Abaixa os olhos e recolhe lentamente as migalhas”.
Sentimento: Comoção. Uma dor grandiosa, digna de um cenário épico. Sentimento: Banalidade. Uma tristeza miúda, silenciosa, que se manifesta em um gesto trivial.

A tabela revela a estratégia do poema: ele constrói um castelo de emoções trágicas e românticas apenas para nos mostrar que, no fim, o que resta são as migalhas em uma mesa de café da manhã.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano nos leva a entender que o poema é sobre a inadequação do sentimento. A dor do eu-lírico é real e imensa, mas o cenário é banal. Ele sente que uma dor tão grande merecia um palco maior, um cenário à sua altura, como nos grandes poemas românticos.

No entanto, a vida contemporânea raramente nos oferece esses palcos. As grandes tragédias acontecem em meio ao cotidiano. E o poema captura isso perfeitamente na imagem final. O ato de “recolher lentamente as migalhas de pão” é uma metáfora poderosa. É o gesto de quem tenta limpar, organizar o mínimo, o visível, porque o caos interno é grande demais para ser verbalizado. A grande dor, a “comoção”, não explode; ela se dilui na quietude de um gesto banal. O amor frustrado não termina com um trovão, mas com o som quase inaudível das migalhas sendo varridas da toalha.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (E) “condicionar a existência da paixão a espaços idealizados”. O erro é uma inversão de lógica. O poema não diz que o amor só existe nesses espaços. Pelo contrário, ele lamenta que o fim do amor não possa acontecer nesses espaços. E, mais importante, a conclusão do poema é que a vida real, com seus amores frustrados, acontece justamente no espaço banal, o que refuta essa condição.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que o poema constrói uma tensão entre a intensidade do sentimento (a comoção do amor frustrado) e a trivialidade da cena em que ele se manifesta, mostrando como a emoção grandiosa é absorvida e dissolvida pela banalidade do cotidiano.
    • Expectativa: A alternativa correta deve capturar essa dinâmica de dissolução, de diluição de um sentimento intenso em uma cena comum.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil da dinâmica do poema em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) invocar o interlocutor para uma tomada de posição.
O erro é Foco Incorreto. O interlocutor (“você”) não é invocado para agir; sua ação de recolher as migalhas é descrita como um fato, parte da cena que encerra o poema de forma melancólica.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) questionar a validade do envolvimento romântico.
O erro é Generalização Excessiva. O poema trata do fim de um relacionamento específico, não faz um questionamento filosófico sobre a validade do amor romântico em geral.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) diluir em banalidade a comoção de um amor frustrado.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. “Diluir” (dissolver) a “comoção de um amor frustrado” (o desejo de um fim dramático) em “banalidade” (o ato de recolher migalhas). A descrição do processo é cirúrgica.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

d) transformar em paz as emoções conflituosas do casal.
O erro é uma Interpretação Equivocada. O silêncio e a resignação do final não são paz. São a expressão de uma tristeza contida, de uma tensão não resolvida.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) condicionar a existência da paixão a espaços idealizados.
Esta é a armadilha que desarmamos. O poema, na verdade, mostra que a realidade do amor e do seu fim se impõe nos espaços banais, contrariando a idealização.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa C é a correta. A modernidade do poema “Migalhas” reside em sua coragem de despir o fim do amor de sua roupagem romântica e dramática, mostrando como a maior das comoções pode ser diluída na banalidade de um gesto cotidiano.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O amor queria morrer em um palco de ópera, mas acabou se afogando silenciosamente em uma xícara de café frio.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “diluir a comoção em banalidade” é uma técnica fundamental no Design de Experiência do Usuário (UX Design) para lidar com momentos de frustração. Quando um aplicativo trava ou dá um erro (“amor frustrado”), a abordagem “lírica” seria mostrar uma mensagem de erro dramática, com um grande “X” vermelho e texto técnico (“comoção”). A abordagem contemporânea de UX é “banalizar” a frustração: mostrar uma ilustração amigável, uma mensagem simples e bem-humorada (“Oops, algo deu errado. Que tal tentar de novo?”) e um botão claro para continuar. A estratégia é a mesma: diluir uma emoção negativa em uma interação calma e banal para evitar que o usuário “arrebente de dor” e abandone o aplicativo.

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