Bertrand Russell conta a história de um peru que descobrira, em sua primeira manhã na fazenda de perus, que fora alimentado às 9 da manhã. Contudo, ele não tirou conclusões apressadas. Esperou até recolher um grande número de observações do fato de que era alimentado às 9 da manhã e fez essas observações sob uma ampla variedade de circunstâncias, às quartas e quintas-feiras, em dias quentes e dias frios, em dias chuvosos e dias secos. A cada dia acrescentava uma outra proposição de observação à sua lista. Finalmente, sua consciência ficou satisfeita e ele concluiu. “Eu sou alimentado sempre às 9 da manhã”.
CHALMERS, A. O que é ciência, afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993 (adaptado).
Qual tipo de raciocínio corresponde ao padrão de pensamento exibido pelo personagem do texto?
A) Prático, porque recolhe evidências e recomenda ações.
B) Absoluto, porque busca confirmações e bloqueia refutações.
C) Indutivo, porque observa eventos particulares e infere leis universais.
D) Demonstrativo, porque encadeia premissas e extrai conclusões indubitáveis.
E) Analógico, porque compara diferentes situações e detecta elementos semelhantes.

✍ “Resolução Em Texto”
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Filosofia (Lógica e Epistemologia).
Metodologia Científica (Métodos de Raciocínio).
História da Filosofia (O Problema da Indução).
Tema/Objetivo Geral:
Identificar o método de raciocínio lógico utilizado para tirar uma conclusão geral (lei universal) a partir da repetição de experiências específicas (observações particulares).
Nível da Questão
Médio.
Embora a história seja simples, a questão exige o domínio técnico dos tipos de raciocínio lógico (indutivo, dedutivo, analógico). O aluno precisa diferenciar a observação (o que o peru viu) da inferência (a regra que ele criou).
Gabarito
Letra C.
O peru observou fatos isolados (ser alimentado na segunda, na terça, na chuva, no sol) e, a partir dessa coleção de casos particulares, criou uma Lei Universal (“Sempre serei alimentado”). Esse salto do “alguns” para o “todos” é a definição de Indução.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão conta a fábula de um peru cientista. Ele anota dados todo dia. No final, ele cria uma teoria. O comando pergunta: “Qual é o nome técnico desse método de pensar?”.
Como chamamos o ato de olhar para vários casos pequenos e tentar adivinhar a regra geral que rege todos eles?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você vai a uma praia.
- Você vê um cisne branco.
- Você vê outro cisne branco.
- Você vê mil cisnes brancos.
- Você conclui: “Todos os cisnes do mundo são brancos”.
O peru fez a mesma coisa. Ele somou dias felizes para concluir que a vida seria sempre feliz. O desafio é identificar que esse método de “somar para generalizar” se chama Indução.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Mapear o Processo: O peru parte do específico (dias) para o geral (sempre).
- Consultar o Dicionário Lógico: Definir Dedução, Indução e Analogia.
- Encaixar a Peça: Ver qual definição bate com o comportamento do peru.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos usar a ferramenta da Bússola Lógica.
Na filosofia, existem caminhos clássicos para se chegar a uma conclusão:
Os Três Caminhos do Pensamento:
| Método | Direção do Raciocínio | Exemplo Clássico |
| Dedução | Do Geral para o Particular. (Tenho uma regra e aplico ao caso). | “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal.” (Certeza absoluta). |
| Indução | Do Particular para o Geral. (Tenho casos e crio a regra). | “O sol nasceu ontem, anteontem e hoje. Logo, o sol nascerá sempre.” (Probabilidade). |
| Analogia | De Particular para Particular. (Comparação). | “O remédio X curou o rato. Como o macaco parece o rato, deve curar o macaco também.” |
Conceito-Chave:
Salto Indutivo: É o momento em que a mente “pula” das observações limitadas para uma certeza universal. O peru deu esse salto.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar o diário do peru:
- A Coleta de Dados: Ele fez observações “às quartas, quintas, dias quentes, frios”.
- Isso são eventos particulares (dados isolados).
- A Amostra: Ele recolheu um “grande número de observações”.
- A Indução precisa de repetição para ganhar força.
- A Conclusão: “Eu sou alimentado SEMPRE“.
- Ele transformou os dados particulares em uma Lei Universal.
Síntese:
O peru não tinha uma regra pronta (dedução). Ele construiu a regra a partir da experiência acumulada. Isso é a definição de Raciocínio Indutivo.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa A (Prático).
O peru foi prático? Foi, ele anotou tudo direitinho e usou isso para viver. Mas “Prático” não é um tipo de raciocínio lógico formal nesse contexto filosófico. A questão pede o padrão de pensamento estrutural (epistemológico), não a atitude comportamental. Além disso, o objetivo dele era chegar a uma verdade teórica (“eu sou alimentado sempre”), e não apenas recomendar uma ação.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O personagem utiliza a repetição de experiências individuais (ser alimentado diariamente) para inferir uma regra geral que se aplicaria a todo o futuro.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever o movimento do “particular” para o “universal” ou “geral”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) Prático, porque recolhe evidências e recomenda ações.
- Diagnóstico do Erro: Confusão de Categoria.
- Análise: O raciocínio prático visa resolver problemas imediatos. O peru estava fazendo ciência teórica (criando uma lei universal sobre a alimentação). E, filosoficamente, o método descrito é a definição exata de indução.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) Absoluto, porque busca confirmações e bloqueia refutações.
- Diagnóstico do Erro: Interpretação Incorreta.
- Análise: O peru não “bloqueou” refutações propositalmente; ele apenas não encontrou nenhuma refutação até aquele momento. Ele foi um observador honesto, mas limitado pelo método. “Absoluto” não é uma categoria de raciocínio lógico padrão na ciência.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) Indutivo, porque observa eventos particulares e infere leis universais.
- Análise de Correspondência: Perfeita.
- Eventos particulares: “quartas, quintas, dias frios”.
- Leis universais: “sou alimentado sempre“.
- É a definição de livro didático do Indutivismo.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
D) Demonstrativo, porque encadeia premissas e extrai conclusões indubitáveis.
- Diagnóstico do Erro: Confusão com Dedução.
- Análise: O raciocínio demonstrativo (dedutivo) é aquele da matemática (2+2=4), que é indubitável (sem dúvida). A indução é probabilística. O peru achava que era indubitável, mas ele estava errado (como veremos no final). A ciência empírica nunca é 100% demonstrativa como a lógica pura.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) Analógico, porque compara diferentes situações e detecta elementos semelhantes.
- Diagnóstico do Erro: Definição Errada.
- Análise: Analogia é dizer “A é como B”. O peru não comparou a fazenda dele com outra fazenda. Ele comparou o “hoje” com o “ontem” para prever o “amanhã” (sequência temporal), o que caracteriza a indução, não a simples analogia entre objetos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A alternativa C é a correta pois descreve o método empírico de generalização: acumular dados específicos para criar uma teoria geral, o pilar do raciocínio indutivo.
Resumo-flash:
De grão em grão (particular), o peru enche o papo de certeza (geral).
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Por que Bertrand Russell contou essa história? Para mostrar a Falha da Indução.
A história original termina mal: na véspera do Natal, em vez de ser alimentado, o peru é degolado.
A lição filosófica é: não importa quantas vezes o sol nasceu (observações passadas), isso não garante logicamente que ele nascerá amanhã. A indução nos dá hábito e confiança, mas não nos dá verdade absoluta. Karl Popper usou isso para dizer que a ciência não prova verdades, apenas as corrobora até que se prove o contrário.