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Questão 03, caderno azul do ENEM 2023 – INGLÊS

Things We Carry on the Sea
We carry tears in our eyes: good-bye father, good-bye
[mother
We carry soil in small bags: may home never fade in our
[hearts
We carry carnage of mining, droughts, floods, genocides
We carry dust of our families and neighbors incinerated
[in mushroom clouds
We carry our islands sinking under the sea
We carry our hands, feet, bones, hearts and best minds
[for a new life
We carry diplomas: medicine, engineer, nurse,
[education, math, poetry, even if they mean
[nothing to the other shore
We carry railroads, plantations, laundromats,
[bodegas, taco trucks, farms, factories, nursing
[homes, hospitals, schools, temples… built on
[our ancestors’ backs
We carry old homes along the spine, new dreams in our
[chests
We carry yesterday, today and tomorrow
We’re orphans of the wars forced upon us
We’re refugees of the sea rising from industrial wastes
And we carry our mother tongues
[…]
As we drift… in our rubber boats… from shore… to shore…
[to shore…


PING, W. Disponível em: https://poets.org. Acesso em: 1 jun. 2023 (fragmento).

Ao retratar a trajetória de refugiados, o poema recorre à imagem de viagem marítima para destacar o(a)
a) risco de choques culturais.
b) impacto do ensino de história.
c) importância da luta ambiental.
d) existência de experiências plurais.
e) necessidade de capacitação profissional.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Poético em Língua Inglesa
    • Análise de Figuras de Linguagem (Anáfora)
    • Sociologia (Migrações Forçadas, Identidade)

  • Tema/Objetivo Geral: Analisar como a poesia representa a complexidade da experiência do refugiado, que carrega consigo uma multiplicidade de traumas, memórias, habilidades e esperanças.

  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque, embora o poema liste muitos exemplos concretos, o leitor precisa ser capaz de sintetizar essa longa e variada lista em um conceito abstrato (“experiências plurais”). As outras alternativas mencionam elementos que estão contidos no poema, exigindo do candidato a habilidade de diferenciar uma parte do todo e identificar a ideia mais abrangente.

  • Gabarito: D) existência de experiências plurais.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a principal estratégia do poema é a repetição da frase “We carry” (“Nós carregamos”) seguida por uma lista imensa e diversa de coisas — lágrimas, terra, traumas de guerra, diplomas, línguas, sonhos — que demonstra que a experiência do refugiado não é única, mas sim um conjunto complexo e multifacetado (“plural”) de perdas, heranças e esperanças.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o poema descreve a jornada de refugiados pelo mar, listando tudo o que eles carregam consigo. A questão nos pede para dizer o que essa imagem da viagem e essa longa lista de “bagagens” destacam sobre a experiência dos refugiados.

Simplificando, imagine que você está se mudando de uma casa onde viveu a vida inteira. Alguém te pergunta o que você está levando. Você responde: “Estou levando as caixas com os móveis, mas também estou levando a saudade do meu quarto, a memória das festas na sala, o trauma de uma briga antiga, a esperança de uma vida nova e as receitas da minha avó”. O que sua resposta destaca? Que a sua “bagagem” não é uma coisa só; é um conjunto enorme e variado de coisas físicas, emocionais e culturais. A nossa tarefa é aplicar essa mesma lógica ao que os refugiados “carregam no mar”.

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Analisar o Recurso de Repetição: Vamos focar na estrutura do poema, na repetição da frase “We carry…”.
  • 2. Fazer um Inventário da “Carga”: Vamos listar e categorizar os diferentes tipos de “coisas” que os refugiados carregam.
  • 3. Sintetizar o Significado do Inventário: Vamos determinar o que a diversidade dessa lista nos diz sobre a totalidade da experiência do refugiado.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta essencial para este caso é a análise da Anáfora, a figura de linguagem que consiste na repetição de uma palavra ou expressão no início de vários versos.

Dossiê do Inventário do Refugiado:

O poema é construído como um grande inventário, e a repetição de “We carry” martela a ideia de que a bagagem é imensa. Vamos categorizá-la:

  • A Bagagem Emocional: “tears in our eyes” (lágrimas nos olhos), “good-bye father, good-bye mother”.
  • A Bagagem da Memória e da Identidade: “soil in small bags” (terra em saquinhos), “our mother tongues” (nossas línguas maternas).
  • A Bagagem do Trauma Histórico e Ambiental: “carnage of mining, droughts, floods, genocides”, “dust of our families […] incinerated”, “islands sinking under the sea”, “wars forced upon us”, “sea rising from industrial wastes”.
  • A Bagagem Humana e Profissional: “our hands, feet, bones, hearts and best minds”, “diplomas: medicine, engineer…”.
  • A Bagagem do Legado e do Futuro: “railroads, plantations […] built on our ancestors’ backs”, “old homes along the spine, new dreams in our chests”, “yesterday, today and tomorrow”.

Veredito do Detetive: A lista é deliberadamente exaustiva e heterogênea. Ela mistura o concreto (terra) com o abstrato (lágrimas), o pessoal (mãe e pai) com o coletivo (genocídios), o passado (ancestrais) com o futuro (novos sonhos). A única conclusão possível é que a experiência do refugiado é uma soma de múltiplas outras experiências.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano revela que a imagem da viagem marítima é a metáfora para a própria condição do refugiado: um estado de transição, um “entre-lugares” onde o que mais pesa não é a mala, mas a vida inteira que se carrega por dentro.

A poeta usa a repetição para criar um efeito de avalanche. Cada “We carry” adiciona uma nova camada de complexidade. O refugiado não é apenas uma vítima de guerra. Ele também pode ser uma vítima da crise climática (“islands sinking”). Ele não é apenas alguém que perdeu tudo; ele também é um profissional qualificado cujo diploma pode não valer nada no novo país. Ele não é apenas alguém fugindo do passado; ele carrega esse passado nas costas (“ancestors’ backs”) enquanto sonha com o futuro.

A canção, portanto, é um poderoso manifesto contra a simplificação. Ela nos força a ver o refugiado não como uma categoria única, mas como um universo de histórias. É a afirmação da existência de experiências plurais.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C) “importância da luta ambiental”. O erro é um reducionismo. O poema de fato menciona causas ambientais para o refúgio (“islands sinking”, “industrial wastes”), tornando-se um poderoso poema ecossocial. No entanto, ele também menciona guerra, genocídio, mineração, secas e inundações. A luta ambiental é uma das muitas experiências carregadas, mas não a única. A força do poema está em mostrar que todas essas crises (política, social, ambiental) se somam na trajetória do refugiado.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a estratégia do poema é enumerar uma vasta e diversa gama de bagagens — emocionais, históricas, culturais, profissionais, traumáticas — para demonstrar a complexidade e a multiplicidade de facetas da experiência do refugiado.
    • Expectativa: A alternativa correta deve ser um conceito que abranja essa multiplicidade, essa variedade, essa pluralidade de experiências.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil da mensagem em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) risco de choques culturais.
O erro é Reducionismo. A menção à “língua materna” toca nesse ponto, mas é apenas um dos muitos itens carregados.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) impacto do ensino de história.
O erro é Reducionismo. A menção à história dos ancestrais é importante, mas é apenas uma das camadas da experiência.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) importância da luta ambiental.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é Reducionismo, pois foca em apenas um dos tipos de trauma listados.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) existência de experiências plurais.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. “Experiências plurais” (múltiplas, diversas) é a síntese perfeita da longa e heterogênea lista que o poema constrói. Ela captura a ideia de que ser refugiado não é uma única história, mas a soma de muitas.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

e) necessidade de capacitação profissional.
O erro é Reducionismo. A menção a “diplomas” mostra que os refugiados já têm capacitação, cujo valor é questionado no novo país, mas o poema não fala de uma “necessidade” de capacitação como tema central.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa D é a correta. Ao recorrer à imagem da viagem marítima, o poema “Things We Carry on the Sea” usa uma lista poderosa e abrangente para destacar a existência de experiências plurais que constituem a complexa identidade do refugiado.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O bote do refugiado não carrega apenas pessoas; ele carrega uma biblioteca inteira de histórias pessoais, traumas coletivos e futuros incertos.

  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de que um único “item” carrega uma multiplicidade de informações (“experiências plurais”) é a base da Genômica e do estudo do DNA. Um único gene não tem, geralmente, uma única função. O fenômeno, conhecido como pleiotropia, descreve como um único gene pode influenciar múltiplas características fenotípicas aparentemente não relacionadas (a “bagagem” que ele “carrega”). Assim como o refugiado carrega simultaneamente o trauma da guerra e a habilidade da engenharia, um gene pode carregar a informação para a cor do pelo de um animal e, ao mesmo tempo, influenciar seu comportamento ou sua suscetibilidade a doenças. A complexidade e a pluralidade de funções estão codificadas em um único elemento, seja ele um ser humano ou um segmento de DNA.

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