Ainda os equívocos no combate aos estrangeirismos
Por que não se reconhece a existência de norma nas variedades populares? Para desqualificá-las? Por que só uma norma é reconhecida como norma e, não por acaso, a da elite? Por tantos equívocos, só nos resta lamentar que algumas pessoas, imbuídas da crença de que estão defendendo a língua, a identidade e a pátria, na verdade estejam reforçando velhos preconceitos e imposições. O português do Brasil há muito distanciou-se do português de Portugal e das prescrições dos gramáticos, cujo serviço às classes dominantes é definir a língua do poder em face de ameaças – internas e externas.
ZILLES, A. M. S. In: FARACO, C. A. (Org.). Estrangeirismos: guerras em torno da língua. São Paulo: Parábola, 2004 (adaptado).
O texto aborda a linguagem como um campo de disputas e poder. As interrogações da autora são estratégias que conduzem ao convencimento do leitor de que
A) o português do Brasil é muito diferente do português de Portugal.
B) as prescrições dos gramáticos estão a serviço das classes dominantes.
C) a norma linguística da elite brasileira é a única reconhecida como tal.
D) o português do Brasil há muito distanciou-se das prescrições dos gramáticos.
E) a desvalorização das variedades linguísticas populares tem motivação social.

Resolução Em Texto
🎯 Tema / Objetivo da Questão: Identificar a crítica social embutida no uso da linguagem, destacando a motivação por trás da desvalorização das variedades populares da língua.
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto
- Sociolinguística
- Normas Linguísticas
- Função argumentativa da linguagem
🎯 Nível da Questão: Médio
✅ Gabarito: Alternativa E
📖 Resolução Passo a Passo
🔍 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O enunciado afirma:
“O texto aborda a linguagem como um campo de disputas e poder. As interrogações da autora são estratégias que conduzem ao convencimento do leitor de que…”
🧠 Objetivo: Identificar qual é a tese defendida pela autora, com base no uso de perguntas retóricas e na crítica implícita às relações de poder por trás da imposição de uma única norma linguística.
🗝️ Palavras-chave:
- “disputas e poder” → mostra que a linguagem está ligada a relações sociais.
- “estratégias que conduzem ao convencimento” → indica que a autora quer persuadir.
- “interrogações” → sugere o uso de perguntas para provocar reflexão no leitor.
📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
- Norma-padrão vs. variações populares: Na linguística, existem diversas formas legítimas de usar a língua. No entanto, a norma-padrão (ligada à elite) costuma ser tratada como a única “certa”, o que marginaliza outras formas de falar.
- Preconceito linguístico: É a desvalorização de formas de linguagem associadas a grupos sociais considerados inferiores ou fora do padrão educacional dominante.
- Função argumentativa: O texto tem caráter opinativo, e as perguntas retóricas são recursos que estimulam a crítica e a adesão do leitor à ideia de que a norma padrão é imposta socialmente.
📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📌 Trechos fundamentais:
- “Por que só uma norma é reconhecida como norma e, não por acaso, a da elite?”
- “…reforçando velhos preconceitos e imposições.”
- “…o serviço às classes dominantes é definir a língua do poder…”
📎 Interpretação:
A autora questiona a exclusividade da norma culta e sugere que isso é uma estratégia de dominação social. Ao dizer que as pessoas “reforçam preconceitos” achando que defendem a língua, ela evidencia que o problema não é linguístico, mas social e ideológico.
📖 Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução
A) o português do Brasil é muito diferente do português de Portugal.
🔴 Errada. Embora essa diferença seja mencionada, não é o foco da crítica. O ponto principal é o preconceito contra as variações populares, não a comparação com Portugal.
💡 Estaria certa se dissesse que isso contribui para questionar a imposição de uma norma só.
B) as prescrições dos gramáticos estão a serviço das classes dominantes.
🟡 Parcialmente correta, mas incompleta. Essa ideia aparece no texto, sim (“o serviço às classes dominantes…”), mas o foco está na exclusão das variedades populares, que é um efeito dessa imposição.
💡 Estaria certa se incluísse o efeito social dessa ação: o preconceito linguístico.
C) a norma linguística da elite brasileira é a única reconhecida como tal.
🟡 Verdadeiro, mas limitado. A frase reflete uma crítica real do texto, mas não responde diretamente ao que as interrogações conduzem o leitor a perceber: o preconceito social e ideológico.
💡 Estaria correta se dissesse que essa norma é imposta em detrimento das outras.
D) o português do Brasil há muito distanciou-se das prescrições dos gramáticos.
🔴 Errada. Isso aparece no texto, mas como pano de fundo. O enunciado quer saber o efeito das interrogações, e esse distanciamento não é o argumento central.
💡 Estaria certa se ligasse esse distanciamento à desvalorização social da linguagem popular.
E) a desvalorização das variedades linguísticas populares tem motivação social.
🟢 Correta. Essa é a tese central do texto, construída com as perguntas retóricas. A autora denuncia o uso da norma da elite como instrumento de exclusão social, mostrando que a valorização de uma só forma de falar é ideológica e serve a interesses de dominação.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
A autora usa perguntas retóricas para provocar reflexão crítica sobre por que apenas a linguagem da elite é considerada legítima. Ao fazer isso, denuncia o preconceito linguístico como reflexo das desigualdades sociais. Portanto, a alternativa E é a única que sintetiza a crítica principal do texto: a desvalorização das variedades populares tem fundamento social e político.