Questão 115, caderno branco (13) do ENEM PPL 2016

Chegou de Montes Claros uma irmã da nora de tia Clarinha e foi visitar tia Agostinha no Jogo da Bola. Ela é bonita, simpática e veste-se muito bem. […] Ficaram todas as tias admiradas da beleza da moça e de seus modos políticos de conversar. Falava explicado e tudo muito correto. Dizia “você” em vez de “ocê”. Palavra que eu nunca tinha visto ninguém falar tão bem; tudo como se escreve sem engolir um s nem um r. Tia Agostinha mandou vir uma bandeja de uvas e lhe perguntou se ela gostava de uvas. Ela respondeu: “Aprecio sobremaneira um cacho de uvas, Dona Agostinha.” Estas palavras nos fizeram ficar de queixo caído. Depois ela foi passear com outras e laiá aproveitou para lhe fazer elogios e comparar conosco. Ela dizia: “Vocês não tiveram inveja de ver uma moça […] falar tão bonito como ela? Vocês devem aproveitar a companhia dela para aprenderem”. […] Na hora do jantar eu e as primas começamos a dizer, para enfezar laiá: “Aprecio sobremaneira as batatas fritas”, “Aprecio sobremaneira uma coxa de galinha”.

MORLEY, H. Minha vida de menina: cadernos de uma menina provinciana nos fins do século XIX. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

Nesse texto, no que diz respeito ao vocabulário empregado pela moça de Montes Claros, a narradora expõe uma visão indicativa de 

A) descaso, uma vez que desaprova o uso formal da língua empregado pela moça. 

B) ironia, uma vez que incorpora o vocabulário formal da moça na situação familiar. 

C) admiração, pelo fato de deleitar-se com o vocabulário empregado pela moça. 

D) antipatia, pelo fato de cobiçar os elogios de laiá sobre a moça. 

E) indignação, uma vez que contesta as atitudes da moça.

Resolução em Texto

🎯 Tema / Objetivo da Questão: Identificar a perspectiva implícita da narradora sobre o vocabulário usado por outra personagem, considerando os efeitos de sentido produzidos por esse uso.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de texto
  • Gêneros narrativos
  • Figuras de linguagem (ironia)
  • Sociolinguística: variação linguística e preconceito linguístico

🎯 Nível da Questão: Médio. Exige atenção ao tom narrativo e sensibilidade para reconhecer uma figura de linguagem implícita (ironia), além de interpretar atitudes sutis das personagens.

✅ Gabarito: Letra B – ironia, uma vez que incorpora o vocabulário formal da moça na situação familiar.


Resolução Passo a Passo

🔍 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo

O comando pede para identificar a visão da narradora sobre o vocabulário usado pela moça de Montes Claros.
Ou seja, não basta observar apenas o que a moça fala, mas sim como a narradora relata isso – qual é o tom, a intenção e a postura da narradora diante da fala formal da visitante.

Palavras-chave:

  • “vocabulário empregado”
  • “visão indicativa” (olhar, julgamento, posicionamento subjetivo da narradora)

✅ Objetivo da questão: perceber a intenção implícita na forma como a narradora relata a fala refinada da moça, o que exige identificar uma ironia narrativa.


📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

  • Ironia: figura de linguagem em que se diz o oposto do que realmente se quer comunicar, geralmente com intuito de provocar humor ou crítica.
  • Narração em primeira pessoa: o ponto de vista da narradora interfere diretamente na forma como os fatos são apresentados.
  • Variação linguística e preconceito linguístico: diferentes modos de falar existem nas línguas naturais; criticar ou ridicularizar modos diferentes é forma de julgamento social.

Aqui, é essencial reconhecer a diferença entre relatar com admiração e relatar com sarcasmo ou zombaria.


📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

📝 Trechos essenciais para interpretar o tom da narradora:

  • “Palavra que eu nunca tinha visto ninguém falar tão bem; tudo como se escreve sem engolir um s nem um r.”
    ➡️ Parece elogio, mas tem um tom exagerado, sugerindo zombaria.
  • “Aprecio sobremaneira um cacho de uvas, Dona Agostinha.”
    ➡️ A fala da moça é afetada, formal em excesso.
  • “Na hora do jantar eu e as primas começamos a dizer, para enfezar laiá: ‘Aprecio sobremaneira as batatas fritas’…”
    ➡️ Aqui fica claro o tom de provocação cômica: elas imitam a moça em situações banais para tirar sarro do jeito exageradamente formal dela.

A repetição forçada da expressão “aprecio sobremaneira” evidencia uma intenção paródica.


📖 Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução

A) descaso, uma vez que desaprova o uso formal da língua empregado pela moça.
🔴 Errada. O termo “descaso” sugere indiferença ou desprezo direto, o que não ocorre. A narradora não ignora nem rejeita friamente, mas zomba sutilmente.

B) ironia, uma vez que incorpora o vocabulário formal da moça na situação familiar.
🟢 Correta. A ironia está em usar a fala da moça em contextos banais, revelando um tom de gozação e crítica velada à artificialidade da linguagem refinada.

C) admiração, pelo fato de deleitar-se com o vocabulário empregado pela moça.
🔴 Errada. Se fosse admiração, não haveria zombaria no jantar. A imitação da fala mostra sarcasmo, não encanto.

D) antipatia, pelo fato de cobiçar os elogios de laiá sobre a moça.
🔴 Errada. Não há sinais claros de aversão pessoal à moça, e sim uma postura crítica ao linguajar dela. E “cobiçar elogios” não é o foco da questão.

E) indignação, uma vez que contesta as atitudes da moça.
🔴 Errada. Indignação é uma emoção forte, de revolta. O texto mostra uma reação bem-humorada e irônica, não indignada.


🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final

A questão exige reconhecer o tom da narrativa, e isso se revela na forma como a narradora e suas primas satirizam o vocabulário da moça, repetindo expressões exageradamente formais em contextos banais.

Essa repetição não é admiração, nem descaso ou indignação, mas uma forma de crítica cômica, típica da ironia.

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