Você vende uma casa, depois de ter morado nela durante anos; você a conhece necessariamente melhor do que qualquer comprador possível. Mas a justiça é, então, informar o eventual comprador acerca de qualquer defeito, aparente ou não, que possa existir nela, e mesmo, embora a lei não obrigue a tanto, acerca de algum problema com a vizinhança. E, sem dúvida, nem todos nós fazemos isso, nem sempre, nem completamente.
Mas quem não vê que seria justo fazê-lo e que somos injustos não o fazendo? A lei pode ordenar essa informação ou ignorar o problema, conforme os casos; mas a justiça sempre manda fazê-lo.
Dir-se-á que seria difícil, com tais exigências, ou pouco vantajoso, vender casas… Pode ser. Mas onde
se viu a justiça ser fácil ou vantajosa? Só o é para quem a recebe ou dela se beneficia, e melhor para ele; mas só
é uma virtude em quem a pratica ou a faz.
Devemos então renunciar nosso próprio interesse? Claro que não. Mas devemos submetê-lo à justiça, e não o contrário. Senão? Senão, contente-se com ser rico e não tente ainda por cima ser justo.
COMTE-SPONVILLE, A. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
No processo de convencimento do leitor, o autor desse texto defende a ideia de que:
A) o interesse do outro deve se sobrepor ao interesse pessoal.
B) a atividade comercial lucrativa é incompatível coma justiça.
C) a criação de leis se pauta por princípios de justiça.
D) o impulso para a justiça é inerente ao homem.
E) a prática da justiça pressupõe o bem comum.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Filosofia e Interpretação de Texto
📊 Nível da Questão: Médio
📝Tema/Objetivo Geral: A virtude da justiça e a subordinação do interesse individual ao bem comum. Análise de argumentos filosóficos e reconhecimento de princípios éticos no texto
🎯 Gabarito: E
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
O enunciado solicita que se identifique qual é a ideia central defendida pelo autor no processo de convencimento do leitor. Isso exige uma leitura atenta do texto para compreender qual argumento é estruturado como tese principal e como ele orienta os exemplos e reflexões apresentadas ao longo do trecho.
Assim, o objetivo da questão é reconhecer que o autor defende a subordinação do interesse pessoal à justiça, ou seja, que agir de modo justo deve prevalecer sobre obter vantagens pessoais. Ele reconhece que nem sempre isso é fácil ou lucrativo, mas sustenta que é o correto a se fazer.
Agora que o comando foi compreendido e o objetivo definido, vamos aos conceitos necessários.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
O texto está centrado em um argumento ético-filosófico, no qual o autor trata da virtude da justiça. Para ele, ser justo significa agir corretamente mesmo quando isso contraria os próprios interesses. A justiça, nesse sentido, não é algo fácil nem sempre vantajoso — pelo contrário, ela exige renúncia e responsabilidade moral.
📌 O texto contrasta o que a lei exige com o que a justiça exige: a lei pode ser limitada, mas a justiça é um imperativo moral mais profundo. A virtude da justiça está, portanto, em quem a pratica, e não apenas em quem se beneficia dela.
Esse ponto é fundamental para entender a tese que o autor defende ao longo da argumentação. Vamos agora interpretar o texto com atenção a esses aspectos.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O autor apresenta uma situação cotidiana: vender uma casa na qual se morou por anos. Ele afirma que, embora a lei possa não obrigar, a justiça exige que o vendedor informe os defeitos da casa ao comprador. Mesmo que isso torne a venda mais difícil ou menos lucrativa, agir de forma justa é o correto.
Ele reconhece que nem todos fazem isso, mas aponta que, mesmo assim, sabemos o que seria justo. O trecho final é incisivo: devemos submeter nosso interesse à justiça, e não o contrário. Caso contrário, o autor ironiza: “contente-se com ser rico e não tente ainda por cima ser justo”.
📌 Frases-chave: – “Mas a justiça é, então, informar o eventual comprador…” – “Mas onde se viu a justiça ser fácil ou vantajosa?” – “Devemos então renunciar nosso próprio interesse? Claro que não. Mas devemos submetê-lo à justiça.”
Agora que o texto foi compreendido em profundidade, vamos organizar esse raciocínio.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
O autor não está simplesmente falando de leis ou de relações comerciais, mas de um princípio ético universal: a justiça como valor superior ao interesse próprio. Ele reconhece que ser justo pode não trazer vantagens, mas insiste que isso é o que torna a justiça uma virtude.
O texto não afirma que o interesse do outro deve prevalecer sobre o nosso, nem que seja preciso abrir mão de tudo, mas sim que o interesse pessoal deve ser subordinado à justiça, mesmo que isso nos traga prejuízos. Essa é a tese central.
Com isso claro, vamos analisar as alternativas.
Passo 5: Análise das Alternativas e Resolução
A) o interesse do outro deve se sobrepor ao interesse pessoal.
❌ Incorreta. O autor não diz que o outro deve sempre ser favorecido. Ele diz que nosso interesse não deve se sobrepor à justiça. Não se trata de inverter a balança em favor do outro, mas de agir com justiça, mesmo que isso contrarie o próprio interesse.
B) a atividade comercial lucrativa é incompatível com a justiça.
❌ Incorreta. O autor reconhece que ser justo pode tornar as vendas mais difíceis, mas não afirma que comércio e justiça são incompatíveis. A oposição aqui é entre lucro fácil e comportamento justo, não entre comércio e justiça em si.
C) a criação de leis se pauta por princípios de justiça.
❌ Incorreta. O autor faz justamente o contrário: ele mostra que a justiça vai além da lei. A lei pode ignorar certas obrigações éticas, mas isso não isenta a pessoa de agir com justiça.
D) o impulso para a justiça é inerente ao homem.
❌ Incorreta. O texto não fala de impulso natural ou inato. Ao contrário, ele mostra que muitas vezes as pessoas não agem justamente, mesmo sabendo o que seria o certo.
E) a prática da justiça pressupõe o bem comum.
✅ Correta. Essa é a melhor alternativa. O autor mostra que agir com justiça significa ir além dos próprios interesses em favor de um bem maior, mesmo que isso traga desvantagens pessoais. A justiça, como virtude, exige considerar o outro e o impacto coletivo de nossas ações.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 O texto defende que a justiça deve prevalecer sobre o interesse próprio e que ser justo exige coragem e responsabilidade, mesmo que isso traga desvantagens pessoais. A verdadeira justiça se revela quando pensamos no bem comum acima da vantagem individual. A prática da justiça, portanto, é uma virtude porque leva em consideração o outro e a coletividade, e não apenas o benefício pessoal.
🔍 Resumo Final: O autor argumenta que a justiça é uma virtude que exige que o indivíduo submeta seu interesse ao bem comum, mesmo que isso não lhe traga vantagens imediatas. Gabarito: E.