15% off para você conhecer a Plataforma Assaad

Didática mágica, resultados garantidos. Aproveite mais de 15% de desconto na Plataforma Assaad e garanta sua aprovação em Medicina ainda em 2025.

Questão 86, caderno azul do ENEM 2021 PPL

Juiz — Entre, Edmund, falei com o seu senhor.
Edmund — Não com o meu senhor, Vossa Excelência, espero ser o meu próprio senhor.
Juiz — Bem, com o seu empregador, o Sr. E…, o fabricante de roupas. Serve a palavra empregador?
Edmund — Sim, sim, Vossa Excelência, qualquer coisa que não seja senhor.

DEFOE, D. apud THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.

Qual alteração nas relações sociais na Inglaterra é registrada no diálogo extraído da obra escrita em 1724?

A) Melhoria das condições laborais no ambiente fabril.

B) Superação do caráter servil nas relações trabalhistas.

C) Extinção dos conflitos hierárquicos no contexto industrial.

D) Abrandamento dos ideais burgueses nos centros urbanos.

E) Desaparecimento das distinções sociais no ordenamento jurídico.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
História Moderna, Revolução Industrial (Fase de Transição), História Social do Trabalho (E.P. Thompson), Transição do Feudalismo para o Capitalismo.

Tema/Objetivo Geral:
A mudança na mentalidade e na estrutura das relações de trabalho. O objetivo é identificar a passagem da relação de suserania/servidão (pessoal e total) para a relação de capital/trabalho (contratual e impessoal).

Nível da Questão:
Médio.
Por que? O texto é um diálogo sutil. O aluno precisa ter sensibilidade histórica para perceber que a recusa da palavra “senhor” (master) não é apenas uma questão de etiqueta, mas um sintoma de uma transformação econômica profunda: o nascimento do proletariado moderno.

Gabarito:
Letra B.
A alternativa está correta porque o diálogo mostra o trabalhador (Edmund) rejeitando o termo “senhor”, que carrega o peso da obediência feudal e servil, e aceitando o termo “empregador”, que denota uma relação comercial de compra e venda de força de trabalho entre homens livres.


🏗 Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️

Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “O que significa, historicamente, um trabalhador se recusar a chamar seu chefe de ‘meu senhor’ em 1724?”

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um mordomo de filme antigo. Ele diz: “Sim, meu amo. A vida do senhor é a minha vida.”
Agora imagine um motorista de Uber. Ele diz: “Você é o passageiro, eu sou o motorista. Eu te levo, você paga, e tchau. Eu não sou seu servo.”
Edmund está dizendo ao Juiz: “Eu não sou mordomo (servo), eu sou Uber (prestador de serviço/assalariado)”.
A questão quer que você identifique essa mudança de status (quem você é) para contrato (o que você faz).

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Analisar o peso da palavra “Senhor” (Master) no contexto antigo (dono de servos/escravos).
  2. Analisar o peso da palavra “Empregador” (Employer) no contexto moderno (comprador de trabalho).
  3. Concluir que Edmund está reivindicando sua liberdade individual dentro da relação econômica.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰

Precisamos entender a Sociologia das Palavras.

Tabela: O Velho Mundo vs. O Novo Mundo

Termo Recusado Termo Aceito Significado Histórico
Senhor (Master) Empregador Mudança do Feudalismo para o Capitalismo.
Vínculo: Pessoal / Servil. Vínculo: Contratual / Monetário. O trabalho deixa de ser uma obrigação devida a um superior e vira uma mercadoria vendida a um comprador.
Mentalidade: Submissão. Mentalidade: Autonomia (“meu próprio senhor”). Nascimento da consciência de classe operária.

Contexto (1724):
Estamos no pré-amanhecer da Revolução Industrial. As velhas guildas e corporações de ofício (onde havia mestres e aprendizes) estão ruindo, dando lugar às manufaturas e ao trabalho assalariado.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️‍♂️

Vamos dissecar a ousadia de Edmund:

A Provocação do Juiz:

  • “…falei com o seu senhor.”
  • O Juiz, representando a lei e a tradição, usa o termo antigo. Ele vê Edmund como um subordinado total.

A Rebelião de Edmund:

  • “Não com o meu senhor… espero ser o meu próprio senhor.”
  • Edmund rejeita a posse. Ele diz: “Eu sou dono de mim mesmo”. Isso é o liberalismo clássico chegando ao povo.

O Acordo Semântico:

  • “Serve a palavra empregador?” … “Sim, sim… qualquer coisa que não seja senhor.”
  • Edmund aceita “empregador”. Por quê? Porque um empregador compra seu tempo, mas não compra sua alma ou sua liberdade. A relação deixa de ser servil.

Conclusão: O diálogo registra o momento exato em que o trabalhador deixa de se ver como “propriedade” ou “vassalo” e passa a se ver como um vendedor de força de trabalho.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa A (“Melhoria das condições laborais”).
Muitos alunos pensam: “Ah, se ele não é mais servo, a vida melhorou!”.
Erro Crasso: Deixar de ser servo e virar operário na Revolução Industrial muitas vezes significou trabalhar 16 horas por dia em condições terríveis. A mudança foi jurídica e social (deixou de ser servil), mas as condições físicas (o ambiente fabril) eram péssimas e insalubres. Não confunda liberdade com conforto.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto mostra a transição de uma linguagem de submissão feudal para uma linguagem de contrato capitalista.
  • Expectativa: Devemos buscar a alternativa que fale sobre o fim da servidão, o fim da submissão pessoal ou o início do trabalho livre/assalariado.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀

Vamos interrogar os suspeitos:

  • A) Melhoria das condições laborais no ambiente fabril.
    • Diagnóstico do Erro: Senso Comum Otimista.
    • Análise: O texto é de 1724 (início das manufaturas). A história mostra que as condições nas fábricas iriam piorar drasticamente no século XVIII e XIX. O diálogo é sobre status, não sobre segurança ou higiene no trabalho.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • B) Superação do caráter servil nas relações trabalhistas.
    • Análise: Perfeita.
      • “Superação” = Recusa da palavra “senhor”.
      • “Caráter servil” = A relação antiga de dependência total.
      • Edmund afirma sua autonomia ao aceitar apenas o termo “empregador”, marcando a modernização das relações sociais.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

  • C) Extinção dos conflitos hierárquicos no contexto industrial.
    • Diagnóstico do Erro: Utopia.
    • Análise: Os conflitos não foram extintos; eles mudaram de forma (agora é Luta de Classes: Patrão x Empregado). O próprio diálogo é um conflito hierárquico acontecendo na frente do juiz.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • D) Abrandamento dos ideais burgueses nos centros urbanos.
    • Diagnóstico do Erro: Leitura Oposta.
    • Análise: Os ideais burgueses (individualismo, contrato, lucro) estavam se fortalecendo, não abrandando. A atitude de Edmund reflete justamente a penetração desses ideais burgueses na mente do trabalhador (a ideia de ser um indivíduo livre).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • E) Desaparecimento das distinções sociais no ordenamento jurídico.
    • Diagnóstico do Erro: Exagero Legal.
    • Análise: As distinções sociais continuaram fortíssimas. O Juiz trata Edmund com superioridade. Na lei inglesa da época, greves eram proibidas e pobres eram punidos severamente (Leis dos Pobres). A igualdade jurídica plena estava longe de acontecer.
    • Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (Distrator: Houve avanço na liberdade contratual, mas dizer que as distinções sociais “desapareceram” é um erro histórico grave).

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭

Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra B, pois o diálogo ilustra a erosão das antigas hierarquias feudais baseadas na deferência e na servidão pessoal, substituídas pela lógica capitalista impessoal onde o trabalhador se reconhece como um indivíduo livre que negocia com um empregador.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🔗➡️🤝 Da Corrente ao Aperto de Mão: O servo tinha uma corrente no pé ligada ao senhor. O empregado tem um contrato na mão ligado ao empregador.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este trecho foi retirado de Costumes em Comum, de E.P. Thompson. Ele é o historiador que cunhou o termo “A Formação da Classe Operária”. Para ele, a classe operária não surgiu apenas porque as fábricas abriram, mas porque as pessoas (como Edmund) mudaram o jeito de pensar e falar sobre si mesmas. A consciência muda antes da economia.

[nav_alfabetica_posts]

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.