Questão 72, caderno azul do ENEM 2021 PPL

O Equador foi o primeiro país do mundo a introduzir os direitos da natureza numa constituição. O movimento indígena-camponês-ambientalista rejeitou a exploração do petróleo nos contrafortes andino-amazônicos (Parque Nacional de Yasuný). A reivindicação foi acatada pelo governo de Rafael Correa e esta é a primeira proposta concreta que não se faz como compensação dos países ricos a algum país pobre, enquanto continuam explorando e lançando gases de efeito estufa na atmosfera.

PORTO-GONÇALVES, C. W.; QUENTAL, P. América Latina e colonialidade do poder. In: HAESEBART, R. (Org.). Globalização e fragmentação na modernidade tardia. Niterói: Eduff, 2013 (adaptado).

A ação do governo equatoriano foi resultado de uma mobilização marcada pelo(a)

A) protagonismo dos povos originários.
B) imposição dos magistrados locais.
C) redução dos recursos minerais.
D) empreendedorismo comercial global.
E) indenização monetária internacional.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Geografia Política (Geopolítica Ambiental), Sociologia (Movimentos Sociais e Indígenas), Atualidades (Questão do Petróleo na Amazônia), Conceito de Bem Viver (Sumak Kawsay).

Tema/Objetivo Geral:
A influência dos movimentos sociais na política de estado. O objetivo é identificar que a inovação jurídica do Equador (dar direitos à Natureza) não nasceu de gabinetes burocráticos, mas da pressão e da filosofia dos povos originários.

Nível da Questão:
Médio.
Por que? O texto é denso e mistura conceitos políticos com ambientais. O aluno precisa cruzar a informação do texto (“movimento indígena”) com o conhecimento de que os “povos originários” são os protagonistas dessa luta, evitando a armadilha de achar que foi uma decisão puramente econômica ou internacional.

Gabarito:
Letra A.
A alternativa está correta porque o texto atribui explicitamente a decisão do governo à reivindicação do “movimento indígena-camponês-ambientalista”, destacando o papel central (protagonismo) desses grupos na defesa de seus territórios ancestrais.


🏗 Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️

Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “Quem empurrou o governo do Equador a tomar essa decisão histórica de não furar o chão para tirar petróleo?”. De onde veio a força política para isso?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que uma construtora quer derrubar uma floresta sagrada para construir um shopping.
O governo está quase deixando, mas os moradores antigos daquela floresta cercam o local, fazem protestos e dizem: “Aqui a terra é nossa mãe, ela tem direitos e não é mercadoria”.
O governo recua e cria uma lei protegendo a floresta.
Quem foi o herói dessa história? Os moradores antigos (povos originários).

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Identificar os atores citados no texto (Movimento indígena-camponês).
  2. Entender o conceito de “Direitos da Natureza” (Pachamama).
  3. Eliminar as alternativas que sugerem motivos externos (dinheiro internacional) ou tecnocráticos (juízes).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰

Precisamos entender a filosofia por trás dessa constituição: o Sumak Kawsay (Bem Viver).

Tabela: Visão Ocidental vs. Visão Andina/Indígena

Característica Visão Ocidental (Capitalista) Visão Andina (Povos Originários)
A Natureza é… Um Recurso (Objeto). Algo para vender. Um Sujeito (Pachamama). Alguém com direitos.
Objetivo Crescimento Econômico / Lucro. Harmonia / Bem Viver (Sumak Kawsay).
Ação no Texto Explorar petróleo e lançar gases. Rejeitar a exploração no Yasuní.

Conceito Chave:
Protagonismo: Ser o ator principal. O texto diz que a reivindicação veio do movimento indígena e foi “acatada” (obedecida/aceita) pelo governo. Logo, o índio mandou, o governo fez.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️‍♂️

Vamos seguir a linha do tempo narrada no texto:

O Fato Histórico:

  • “O Equador foi o primeiro país… a introduzir os direitos da natureza…”

A Causa (Quem pediu?):

  • “O movimento indígena-camponês-ambientalista rejeitou a exploração…”
  • Aqui está o sujeito da ação.

O Efeito (Quem obedeceu?):

  • “A reivindicação foi acatada pelo governo…”

A Exclusão de Outras Causas:

  • “…proposta concreta que não se faz como compensação dos países ricos…”
  • O texto mata a ideia de que foi por dinheiro externo. Foi uma decisão interna, baseada em valores locais.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa E (“indenização monetária internacional”).
O caso do Parque Yasuní é famoso. O Equador propôs ao mundo: “Paguem para nós não explorarmos esse petróleo”. Porém, o texto fornecido na questão diz explicitamente: “não se faz como compensação dos países ricos”.
Em provas, vale o que está no texto, mesmo que você saiba que na vida real houve uma tentativa de acordo financeiro (Iniciativa Yasuní-ITT). O texto foca na origem ideológica da proposta (indígena), não na negociação financeira fracassada.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A mobilização partiu da base da sociedade (índios e camponeses) que possuem uma visão de mundo onde a natureza não deve ser explorada predatória.
  • Expectativa: Devemos buscar a alternativa que mencione “povos nativos”, “indígenas”, “originários” ou “movimentos sociais”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀

Vamos interrogar os suspeitos:

  • A) protagonismo dos povos originários.
    • Análise: Perfeita.
      • “Protagonismo” = Eles iniciaram a reivindicação (“rejeitou a exploração”).
      • “Povos originários” = Sinônimo de “movimento indígena” citado no texto.
      • A Constituição do Equador de 2008 é mundialmente famosa por incorporar a cosmovisão indígena.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

  • B) imposição dos magistrados locais.
    • Diagnóstico do Erro: Troca de Agentes.
    • Análise: Magistrados são juízes. O texto diz que a pressão veio de “movimentos sociais” e foi acatada pelo “governo” (Executivo/Legislativo constitinte). Não foi uma decisão judicial (“canetada” de juiz), foi política de base.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • C) redução dos recursos minerais.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição.
    • Análise: O petróleo estava lá em abundância. A decisão foi não explorar, não porque acabou (redução), mas por escolha política de preservação.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • D) empreendedorismo comercial global.
    • Diagnóstico do Erro: Lógica Oposta.
    • Análise: O “comercial global” queria o petróleo! O texto critica os países ricos que “continuam explorando”. A decisão do Equador foi contra a lógica do empreendedorismo comercial global de commodities.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • E) indenização monetária internacional.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição com o Texto.
    • Análise: O texto diz com todas as letras: “proposta concreta que não se faz como compensação dos países ricos”. O autor destaca que a motivação foi ética/ambiental, não financeira.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭

Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra A, pois a inclusão inédita dos Direitos da Natureza na Constituição equatoriana reflete a vitória política da cosmovisão dos povos originários (Bem Viver), que pressionaram o Estado a reconhecer a terra (Pachamama) como um sujeito de direitos, e não como mero recurso econômico.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🌿 O Advogado da Floresta: Antes, só humanos tinham advogados. No Equador, graças aos indígenas, a montanha e o rio agora podem “processar” quem tenta destruí-los.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Infelizmente, a realidade política é dinâmica. Anos depois dessa constituição (2008) e da iniciativa Yasuní-ITT, o governo equatoriano acabou autorizando a exploração de petróleo em partes do parque por falta de apoio financeiro internacional, mostrando o constante conflito entre o Ideal Constitucional (Letra A) e a Realidade Econômica Global. Em 2023, porém, um novo plebiscito no Equador votou novamente para parar a exploração, reafirmando o poder do voto popular.

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