Questão 11, caderno azul do ENEM 2018 – Dia 1

TEXTO I

ALMEIDA, H. Dentro de mim, 2000. Fotografia p/b. 132 cm x 88 cm.
Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

TEXTO II

     A body art põe o corpo tão em evidência e o submete a experimentações tão variadas, que sua influência estende-se aos dias de hoje. Se na arte atual as possibilidades de investigação do corpo parecem ilimitadas –  pode-se escolher entre representar, apresentar, ou ainda apenas evocar o corpo – isso ocorre graças ao legado dos artistas pioneiros.

SILVA, P.R. Corpo na arte, body art, body modification: fronteiras. II Encontro de História da Arte: IFCH-Unicamp, 2006 (adaptado)

Nos textos, a concepção de body art está relacionada à intenção de

a) estabelecer limites entre o corpo e a composição.

b) fazer do corpo um suporte privilegiado de expressão.

c) discutir políticas e ideologias sobre o corpo como arte.

d) compreender a autonomia do corpo no contexto da obra.

e) destacar o corpo do artista em contato com o expectador.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • História da Arte (Arte Contemporânea e Vanguardas).
  • Movimentos Artísticos: Body Art.
  • Leitura e Interpretação de Imagem.
  • Conceito de “Suporte” nas Artes Visuais.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a mudança de paradigma trazida pela Arte Contemporânea, especificamente como a Body Art desloca o objeto artístico da tela/escultura para o próprio corpo do artista.

Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: Exige que o aluno conheça o termo técnico “suporte” (base onde se faz a arte) e consiga relacionar um texto teórico abstrato com uma fotografia conceitual.

Gabarito:
Letra B – fazer do corpo um suporte privilegiado de expressão.
Resumo: Tanto a imagem (pés segurando espelhos) quanto o texto (“põe o corpo em evidência”) indicam que o corpo deixou de ser apenas o tema da pintura para ser a matéria-prima (o suporte) onde a arte acontece.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
A questão pede a definição central (a intenção/concepção) da Body Art baseada nos dois textos. Precisamos descobrir qual é a “regra do jogo” desse movimento artístico.

A Analogia Central (A Tela Viva):
Na arte clássica (Da Vinci, Michelangelo), o corpo era o modelo e a tela era o suporte. O artista olhava para o corpo e pintava na tela.
Na Body Art, o artista joga a tela fora. O corpo vira, ao mesmo tempo, o pincel, a tinta e a tela.
A questão quer que você identifique essa troca: O corpo vira a base da obra.

Nosso Plano de Ataque:

  1. Identificar no Texto II a função do corpo (“põe em evidência”, “experimentações”).
  2. Observar no Texto I como a artista usa o próprio corpo (não é uma foto de alguém, é uma intervenção com o corpo).
  3. Encontrar a alternativa que usa a palavra técnica correta para “base da obra” (Suporte).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar uma Ficha Técnica para entender o conceito de SUPORTE:

Conceito Arte Tradicional Body Art (Arte Contemporânea)
O que é Suporte? É a base física da obra (Papel, Tela, Parede, Pedra). O próprio corpo do artista.
Papel do Artista Representar o mundo externo na tela. Apresentar o próprio corpo como obra.
Exemplo na Questão Pintura de uma mulher. Foto dos pés da artista segurando espelhos (Texto I).

Conceito-Chave do Texto II:
O texto diz: “pode-se escolher entre representar, apresentar, ou ainda apenas evocar o corpo”. Isso significa que o corpo é uma ferramenta de múltiplas utilidades, mas é sempre o protagonista físico da ação.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar as pistas:

Texto I (A Imagem):
Vemos pernas e pés. Não é uma pose de modelo tradicional. Os pés seguram espelhos. O espelho reflete o chão ou outra parte do corpo. A artista, Helena Almeida, está usando seu corpo para criar uma forma geométrica e reflexiva. Ela não está pintando pés; os pés são a obra.

Texto II (A Teoria):
Diz que a Body Art “submete [o corpo] a experimentações tão variadas”.

Ao juntar as duas coisas, concluímos: A intenção não é fazer o corpo ficar bonito (estética clássica), nem pintar o corpo em um quadro. A intenção é usar o corpo como plataforma de comunicação. Na linguagem da arte, a “plataforma” chama-se SUPORTE.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a interpretação política automática!
Muitos alunos leem “Arte Contemporânea” e já pensam em “protesto”, “política” ou “ideologia”. Embora a Body Art POSSA ser política (feminismo, denúncia), os textos fornecidos focam na técnica e na experimentação material, não na mensagem política. Atenha-se ao que o texto diz, não ao que você sabe de fora sobre o movimento.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O corpo não é mais o objeto representado, ele é o meio físico da arte.
  • Expectativa: Devemos buscar a alternativa que defina o corpo como a base/meio/suporte da criação.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) estabelecer limites entre o corpo e a composição.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição.
  • Análise: A Body Art faz o contrário: ela borra os limites. O corpo é a composição. Na foto, onde termina o pé e começa o espelho/obra? Eles são uma coisa só.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

b) fazer do corpo um suporte privilegiado de expressão.

  • Análise: Perfeita. “Suporte” é o termo técnico para “onde a arte é feita”. Assim como a tela é o suporte da pintura, o corpo é o suporte da Body Art. O texto II confirma isso ao dizer que o corpo é posto em evidência e submetido a experimentações.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

c) discutir políticas e ideologias sobre o corpo como arte.

  • Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / O DISTRATOR CONCEITUAL.
    • Por que atrai: A Body Art frequentemente discute ideologias.
    • Por que falha: A questão pede a relação nos textos. Os textos I e II focam na forma, na investigação e nas possibilidades (representar/apresentar), e não explicitamente em uma pauta política ou ideológica específica. É uma extrapolação do foco técnico dos textos.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta (neste contexto específico).

d) compreender a autonomia do corpo no contexto da obra.

  • Diagnóstico do Erro: Imprecisão de Vocabulário.
  • Análise: “Autonomia” significaria que o corpo está separado da obra ou funciona sozinho. Na Body Art, o corpo é dependente da intenção do artista e está integrado à obra.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

e) destacar o corpo do artista em contato com o expectador.

  • Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / O DISTRATOR ESPECÍFICO.
    • Por que atrai: Muitas performances de Body Art (como as de Marina Abramović) envolvem tocar o público.
    • Por que falha: O Texto I é uma fotografia. Não há contato físico com o espectador. A alternativa restringe a Body Art apenas à performance ao vivo, ignorando a videodança e a fotoperformance (caso da questão).
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

A Body Art quebra a quarta parede da pintura: o artista deixa de olhar para o mundo e passa a olhar para si mesmo, transformando sua própria carne em poesia visual.

Resumo-flash: ⚡
“Na Body Art, a pele é a tela e o sangue é a tinta.”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Você pode conectar isso com a artista Marina Abramović (famosa pela performance onde ficou sentada encarando estranhos no MoMA). Ela é o maior exemplo vivo de que a Body Art leva o corpo ao limite (dor, exaustão, presença) como forma de expressão, validando a ideia do corpo como suporte supremo.

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